Temporada de balanços deve apresentar resultados fortes, mas investidor deve ficar atento

José Azevedo
Jornalista especializado em economia.
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Crédito: Foto criada por snowing - Freepik.com

Nesta terça-feira (20), foi aberta a temporada de balanços do segundo trimestre de 2020. Neoenergia (NEOE3) e Romi (ROMI3) divulgaram seus números e as duas companhias viram seus lucros crescerem consideravelmente. Respectivamente, as altas foram de 137% e 277,5% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Na próxima semana, porém, é que a divulgação de balanços se intensificará. Grandes nomes como Vale (VALE3), Petrobras (PETR4) e Ambev (ABEV3) têm suas publicações agendadas. 

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E o provável é que os números continuem apresentando grandes diferenças na comparação com a base anual. O consenso do mercado é que a receita líquida do Ibovespa avance 31%, o EBITDA, 70% e lucro líquido 254%. O investidor, entretanto, deve estar atento.

Segundo trimestre de 2020 foi fraco e afeta comparação

“Os balanços do segundo trimestre deverão ser extremamente bons para a maior parte das companhias por causa da base muito fraca de comparação”, explica Aline Cardoso, gestora da EQI Asset. 

No ano passado, o período que vai de abril a junho foi marcado pelas medidas de restrição impostas por vários estados brasileiros para conter a propagação da covid-19. Boa parte do estado de São Paulo, por exemplo, ficou na chamada “fase vermelha”, a mais restritiva, de meados de março até o fim de agosto. “O pico de restrições à mobilidade foi no segundo trimestre de 2020 e, por isso, a maior parte das empresas deve ter mais de 100% de crescimento de lucro”, explica Cardoso.

Apesar de parte da diferença ser por conta da baixa base de comparação, a gestora acredita que parte dos resultados devem surpreender. O varejo, por exemplo, tem grande expectativa sobre si.

“As companhias têm dito que maio, em especial, foi um mês muito forte, com o dia das mães batendo recordes”, afirmou a gestora. Apesar disso, a atenção ao se observar os números deve ser mantida. “Algumas varejistas, como a Lojas Renner tiveram queda de venda de 80% no segundo trimestre do ano passado. A base de comparação também é baixa”, completa. 

Para Cardoso, o que deve ser feito é utilizar outras bases para a comparação. “Acho que o melhor é olhar para o segundo trimestre de 2019. Várias empresas devem divulgar esses números para facilitar a compreensão de como as vendas estão em relação àquilo que era considerado normal”, finaliza.

Boa temporada

Henrique Ester, da Guide Investimentos, acredita que, de qualquer forma, devemos ter uma “boa temporada”. Para além da base anual, o gestor acha que se a economia brasileira deve seguir a americana pelo menos em parte, o que é comum, os balanços devem vir positivos. 

“A gente já vê a retomada econômica americana se concretizando. Até o momento, 88% dos resultados divulgados nos Estados Unidos vieram acima das expectativas do mercado quanto aos lucros. 85% quando a referência é receita”, explica Ester.

No Brasil, segundo o gestor, a recuperação, contudo, não é tão acelerada. “A retomada é mais fraca, mas alguns setores que tiveram performances baixas no passado devem mostrar fortes resultados”, afirma.

E, assim como Aline Cardoso, Ester também aponta o varejo como um setor promissor. “Alguns nomes do varejo, tanto o físico como o eletrônico, continuam com uma perspectiva de fortes resultados, embora parte da aceleração já tenha aparecido no ano passado”, contextualiza.  

Varejo online em foco na temporada de balanços

E, apesar da reabertura, que beneficiará mais o varejo físico, Ester acredita que as recentes movimentações na luta pelo e-commerce, com várias aquisições recentes, sinalizam que ainda há pujança no setor (para ilustrar, a Magazine Luiza acaba de comprar a KabUm). 

Os comentários são de que o varejo online estará sob o olhar atento dos analistas e dos investidores. Além da concorrência, ainda é incerto como o ritmo de crescimento do setor, com a diminuição das restrições contra covid-19, se dará. 

Já os shoppings, segundo o gestor, devem mostrar uma recuperação, mas esta deve ficar ainda aquém dos níveis pré-pandemia. “Conversamos com alguns empresários da área e eles falaram, entre outras coisas, que o tempo médio de um cliente no estabelecimento, que era de duas horas antes da pandemia, ainda está em 50 minutos. As pessoas vacinadas ainda não eram, no começo do segundo trimestre, as que mais frequentam esses lugares”, diz.

Para as construtoras, o esperado, segundo Henrique, é que os resultados voltem a andar, apesar de a aceleração, provavelmente, ficar mais para o terceiro trimestre. “Os lançamentos estão voltando, mas há uma preocupação com o custo. Afinal, os preços de materiais básicos estão se elevando, o que pode comprimir a margem”, explica. 

Em junho, por exemplo, segundo o IBGE, os custos com a construção civil avançaram 2,46%, a maior alta desde 2013. 

E é justamente por isso, pela alta dos materiais básicos, que os grandes destaques do trimestre devem ficar, mais uma vez, para o setor de mineração e siderurgia. “Embora o mercado já tenha precificado parte disso, há espaço para surpresas em alguns nomes”, diz. 

Alimentação

Os frigoríficos, que também trabalham com commodities, devem apresentar divergências por conta das suas exposições às proteínas. “Marfrig é a mais bem posicionada, pela grande exposição à carne de porco nos Estados Unidos, país que está com uma demanda muito quente deste produto”, afirma. 

No Brasil, porém, há uma pressão de margens destas companhias, por conta do preço da arroba do gado, que está mais cara, dificultando a aquisição dos frigoríficos. “A Minerva, por exemplo, pode ter de compensar esse preço mais caro com mais exportação, o que não sabemos como será lido pelos investidores”.

Energia

Já para Guilherme Tiglia, da Nord Research, um setor que está sob uma nuvem é o de energia elétrica. “As geradoras ainda estão se prejudicando com a situação hidrológica mais desafiadora, o que pode resultar em maiores preços no mercado à vista”, diz. Por outro lado, a retomada econômica deve também trazer seus impactos, como já foi observado no primeiro trimestre.

Ainda neste setor, Gustavo Akamine, da Constança Investimentos, aponta para o fato de que há uma maior atenção para verificar como as geradoras que trabalham com contratos. “O nível de contratação será observado para entender se haverá algum tipo de perda em relação ao PLD, o preço de energia regulado”, explica. Nas de distribuição, o olhar está para como está a demanda.

Investimentos ditarão como mercado enxerga situação

Além de mostrar apenas os resultados passados, os balanços do segundo trimestre devem, também, apontar como as companhias estão se posicionando para o futuro. Com o enfraquecimento da pandemia da covid-19, as companhias já estão voltando com os seus investimentos. 

Recentemente, o UBS divulgou que o otimismo com a economia brasileira está crescendo entre os investidores. No segundo trimestre deste ano, 74% deles se diziam otimistas, ante 64% no primeiro. 

O otimismo de investidores e empresários, geralmente, se reflete em mais investimentos. Além dos lucros, os resultados já divulgados até então mostram a retomada dos investimentos. Neoenergia viu seu Capex avançar 27%, para R$ 1,7 bilhão. Já a Romi investiu quase cinco vezes mais: R$ 19,4 milhões.

Akamine, porém, afirma que é necessário aguardar. “Existem dois tipos de retomada. A imediata, por conta da política monetária mais frouxa e pela injeção de dinheiro, como estamos tendo aqui e nos Estados Unidos, pode melhorar no momento, mas nem sempre garante maior confiança”, finaliza. E o capex do Ibovespa, segundo ele, não tem superado a depreciação.

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