Suécia: sem lockdown, economia pode sofrer com queda de até 9,7% no PIB

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Reprodução / BBC

A discussão mais acalorada nos dias de pandemia do novo coronavírus é entre aqueles que querem seguir o que recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS), reforçando medidas de isolamento social, e os que defendem que a economia não pode ficar tanto tempo parada à custa de empregos.

De um lado, a OMS defende o distanciamento como única maneira de evitar o colapso dos sistemas de saúde. Para a organização, essa estratégia pode salvar vidas, na medida em que médicos não precisam ter a drástica tarefa de escolher quem vai receber o atendimento adequado devido à superlotação.

O caso da Suécia

É certo de que mais pessoas nas ruas farão o vírus circular de maneira acelerada, aumentando o contágio e o número de mortes. A ciência não sabe o quão imune fica alguém que pegou o vírus e se recuperou, se essa pessoa ainda é transmissora ou se ainda pode ter sintomas.

Por tudo isso, a prevenção pela restrição de circulação continua a ser recomendada pela OMS.

Mas a Suécia, país com mais de 10 milhões de habitantes e um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) muito alto (o oitavo do mundo; em comparação, o IDH do Brasil está na 79ª posição), atraiu a atenção global por não impor um bloqueio total, como visto na maior parte da Europa — inclusive nos vizinhos Dinamarca e Noruega.

A conta em vidas chegou. É o país da região escandinava com os piores números: 25.265 casos e 3.175 mortos. A vizinha Dinamarca tem 10.218 casos e 522 mortos. A Noruega, 8.055 infectados e 218 vítimas fatais. A Finlândia, menos ainda, com 5.738 testes positivos e 260 falecidos.

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Tardiamente, a Suécia implantou medidas suaves de restrição, para brecar o avanço do vírus.

E a conta econômica também vai chegar. Dados divulgados pelo banco central do país, o Riksbank, mostram que a economia será tão afetada quanto seus vizinhos europeus, se não pior.

Os dois cenários suecos

O Riksbank forneceu dois cenários possíveis para as perspectivas econômicas em 2020, que “dependem de quanto tempo a propagação da infecção continua e de quanto tempo as restrições implementadas para desacelerá-la ficarão em vigor”. Ambos os possíveis resultados econômicos são sombrios, segundo matéria da CNBC.

“No primeiro cenário”, diz a matéria, “o produto interno bruto (PIB) contrai 6,9% em 2020, antes de se recuperar para crescer 4,6% em 2021. Em uma previsão mais negativa, o segundo cenário, o PIB poderia contrair 9,7% e uma recuperação poderia ser mais lenta, com a economia crescendo 1,7% em 2021”.

No primeiro cenário, o Riksbank acredita que o desemprego pode atingir 8,8% em 2020. Hoje, está em 7,2%, e na pior das hipóteses poderia atingir 10,1%.

“Nos dois cenários, a produção diminui acentuadamente no início e mais do que durante a crise financeira de 2008. A queda acentuada dos preços do petróleo e da eletricidade contribuirá para a inflação baixa este ano”, afirmou o Riksbank. Ele prevê que a taxa de inflação fique em 0,6% em 2020, nos dois cenários.

Suécia comparada com outros países europeus

As projeções de crescimento são preocupantes para um país que procurou mitigar o impacto econômico do coronavírus ao não restringir sua economia como o resto da Europa.

Os bloqueios na Alemanha, Espanha, Itália, França e Reino Unido, com o objetivo de salvar inúmeras vidas, atingiram severamente suas economias, lembra a CNBC.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu no início de abril que a Alemanha e o Reino Unido verão suas economias contraírem 6,5% e 7% este ano, respectivamente. Espera-se que a França tenha uma contração de 7,2%; a Espanha, uma contração de 8%; e a Itália veja sua economia encolher 9,1%.

Todos esses países também foram duramente atingidos pela pandemia e estão entre os 10 com mais casos confirmados.

Os vizinhos Finlândia e Dinamarca, que também impuseram bloqueios, deverão ver suas economias diminuírem 6% e 6,5%, respectivamente. Ninguém escapa.

As medidas suecas

Não foi um “libera-geral”. O governo da Suécia até aconselhou os cidadãos a ficar e trabalhar em casa, se possível. Mas bares e restaurantes permaneceram abertos, medidas de distanciamento social foram implementadas, e escolas para menores de 16 anos ficaram funcionando.

“A estratégia se mostrou muito controversa”, escreve a CNBC, “mas seu principal epidemiologista defendeu a abordagem, dizendo à CNBC que a capital Estocolmo poderia estar caminhando para a ‘imunidade do rebanho’ em semanas”, o que jamais foi comprovado por nenhum cientista.

O Riksbank alertou que mesmo assim “muitas empresas serão duramente atingidas e muitos suecos perderão seus empregos”, embora a instituição tenha decidido manter sua taxa básica de juros em zero nesta semana.

A explicação é mais básica do que se possa imaginar: a economia da Suécia não é uma ilha. Se o mundo sofre, o país vai sofrer, não há como escapar. Se o mundo vai ficar mais pobre, a Suécia vai sentir. A diferença é que o isolamento pode ao menos preservar vidas agora.

Salvando a economia

O Riksbank decidiu não adotar novas medidas para apoiar a economia da Suécia, depois de ter implantado um pacote de empréstimos para empresas suecas e aumentado seu programa de compra de títulos, mas disse que estava pronto para fazer mais, se necessário.

“Neste momento, não justifica-se tentar aumentar a demanda, diminuindo a taxa de recompra quando a desaceleração da economia se deve a restrições impostas e às preocupações das pessoas com a propagação da infecção”, afirmou o Riksbank em comunicado nesta terça-feira (28).

“No entanto, isso não descarta a possibilidade de a taxa de juros ser cortada posteriormente, se for considerada uma medida eficaz para estimular a demanda e apoiar o desenvolvimento da inflação na fase de recuperação”, seguiu.

Estratégia oposta: Argentina

Do outro lado do mundo, a mais de 12.500 quilômetros de Estocolmo, está Buenos Aires, a capital da Argentina.

Com 44,5 milhões de habitantes, dez vezes mais do que a Suécia, e um IDH muito alto (mas em 48º lugar mundialmente), a Argentina, sob comando do novo presidente Alberto Fernández, foi rápida em decretar um bloqueio total e severo no país.

O resultado é considerado muito bom pela OMS, com 5.371 casos confirmados e 282 vítimas fatais.

O país enfrenta uma séria crise econômica, tendo que pedir ajuda ao FMI e renegociar a dívida com credores privados. Mesmo assim, o governo não titubeou na ação sanitária.

Nesta quinta-feira (7), o esforço parece ter valido a pena: Fernández anunciou que o país entrará em uma etapa de reabertura gradual nos próximos dias. A quarentena, prevista para terminar no próximo domingo (10), terá flexibilizações. Mas pode voltar atrás, se o número de infectados aumentar.

O Banco Mundial previu que o país está entre os mais afetados pela recessão no continente, projetando uma contração de 5,7% para este ano.

Já o ministro da Economia, Martín Guzmán, acredita que este ano o PIB cairá 6,5%, que é ainda menos do que o previsto pra queda sueca. No próximo ano, Guzmán acredita em crescimento real de 3% e, em 2022, mais 2,5%.

Argentina libera economia aos poucos

Matéria da Agência Brasil traz uma ideia de como será essa reabertura.

“A ideia do governo, ainda não oficializada, é definir protocolos e horários específicos para cada atividade ou grupo de pessoas. Desde curtas caminhadas, idas ao mercado, períodos de trabalho, etc. Devem ser definidos horários limitados para o retorno de algumas atividades. Haverá também zonas vermelhas, com proibição de movimentação, naquelas áreas onde a contaminação é mais crítica”, informa.

Porém, ainda assim, diante da pandemia sendo neutralizada, “seguirão com restrições os colégios, faculdades e universidades; eventos sociais, culturais, recreativos, esportivos, religiosos; cinemas, teatros, centros culturais e clubes; e atividades turísticas”.

“Não sou eu quem decide, mas minha opinião é que a quarentena deve continuar, mas de outras maneiras. Você precisa ter uma abertura em termos econômicos com muito cuidado. Mas a atividade produtiva tem que começar. Existem muitas indústrias que estão funcionando muito bem, como a de alimentos e produtos farmacêuticos”, disse o ministro da saúde local, Ginés González García.

Bloqueio na Nova Zelândia

Não é só a Argentina. A Nova Zelândia também deu exemplo ao mundo no combate ao novo coronavírus, na contramão da Suécia.

Com 5 milhões de habitantes (27,5% são imigrantes) e um IDH também considerado muito alto (o 14º melhor do mundo), o país é visto como o mais eficiente contra a pandemia.

A primeira-ministra Jacinda Ardern (foto abaixo) agiu rápido: fechou fronteiras, fez testagem em massa e implantou um bloqueio total e severo. O resultado veio na forma de vidas salvas e a possibilidade de abreviar as restrições.

São 1.490 casos confirmados e 21 mortes. A última vez que o país confirmou mais de 10 casos em um só dia foi em 20 de abril. O dia com mais mortos foi 14 de abril: 4. A última morte foi em 4 de maio.

A National Geographic conta como ficou o cenário: “sob decretos de bloqueio rígidos, as luzes se apagaram e todos os lugares ficaram vazios, desde bares e cafeterias a empresas do centro de Wanaka (ao sul do país). A fita amarela da polícia bloqueava o parque de skate e o playground, balanços foram amarrados para ficar fora de alcance e não passar vontade em quem passasse perto. Se bem que não havia risco de transgressão: além de uma ou outra pessoa praticando corrida ou de um casal que saía para tomar um pouco de ar, as ruas da cidade ficaram tão abandonadas quanto um cenário de The Walking Dead”, referindo-se à famosa série televisiva sobre um apocalipse zumbi.

“Enquanto governos do mundo inteiro hesitavam sobre como responder ao surto e viram os casos de contaminação pelo vírus dispararem, a Nova Zelândia deu um exemplo firme e baseado na ciência. Embora a proibição de viagens partindo da China tenha entrado em vigor a partir de 3 de fevereiro (um dia após os Estados Unidos) e sua trajetória de novos casos parecesse descontrolada em meados de março, medidas de austeridade aparentemente controlaram a Covid-19”, segue a matéria.

Ensinando ao mundo

A hora de iniciar as duras medidas restritivas no país pode deixar de cabelo em pé líderes como Trump e Bolsonaro. A Nova Zelândia implantou suas ações com apenas 6 casos confirmados em todo o país.

“Apenas 10 dias depois, instituiu um bloqueio completo, incluindo uma moratória para viagens domésticas. As restrições de Nível 4 autorizavam o funcionamento apenas de supermercados, farmácias, hospitais e postos de gasolina; a movimentação de veículos era restrita; e a interação social ficou limitada às famílias que moram na mesma residência”, informa a National Geographic.

“Devemos lutar com firmeza e antecedência”, disse a primeira-ministra Jacinda Ardern em comunicado ao país em 14 de março. Ela tem apenas 39 anos e entendeu com rapidez o problema mundial. Hoje, é uma das líderes com maior aceitação em todo o mundo: 87% da população apoia as medidas tomadas.

“Temos a oportunidade de fazer algo que nenhum outro país conseguiu: a eliminação do vírus”, disse Ardern em uma de suas declarações diárias, que eram claras, objetivas e calmas. Não houve controvérsia. A população simplesmente obedeceu e confiou no governo.

Em 28 de abril, Ardern declarou que o vírus havia sido eliminado, esclarecendo mais tarde que “a eliminação não significa que não exista nenhum caso… teremos que continuar eliminando a Covid até o desenvolvimento de uma vacina”, de modo a não estimular as pessoas a relaxarem de vez.

Impacto econômico na Nova Zelândia

O Tesouro local fez uma previsão em 14 de abril, quando as restrições eram totais na Nova Zelândia, de que perspectivas econômicas da Nova Zelândia para o próximo ano eram “terríveis”, com um aumento no desemprego de até 13%, mesmo que as infecções por Covid-19 estivessem contidas e as regras de bloqueio sejam aliviadas após as quatro semanas iniciais.

No pior quadro, uma taxa de desemprego de até 26% e uma queda no PIB de 23%, se o país for forçado a permanecer em seu nível mais estrito de paralisação por um total de seis meses antes de passar para medidas marginalmente mais leves, o que de fato não ocorreu, já que as medidas de bloqueio foram bem sucedidas e logo puderam ser afrouxadas.

A taxa de desemprego atual é de 4% e, mesmo o país tendo sido duramente afetado em seu principal produto, o turismo, essa taxa não deve subir muito, já que o governo aprovou medidas de apoio ao setor produtivo.

A Nova Zelândia poderá retornar aos níveis econômicos pré-pandêmicos até 2024, “com significativa perda de receita ao longo do caminho”, disse Caralee McLiesh, secretária do Tesouro. Os modelos previam perdas de PIB entre 0,5% e 23,5%, dependendo das estratégias adotadas na Nova Zelândia e do destino da economia global.

Meirelles culpa a pandemia, não o isolamento

Ex-ministro da Fazenda e atual secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo, Henrique Meirelles disse nesta sexta-feira (8), em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes, na capital paulista, que a pandemia é a responsável pela crise econômica que atinge o Brasil e não as medidas de isolamento adotadas pelos governadores.

“Existe um equívoco de que o isolamento social, a quarentena, está causando a crise econômica. É ao contrário. A crise é causada pela pandemia. Parece óbvio, mas no discurso de muitos, inclusive em esferas de poder, estão agindo em direção contrária. O setor mais afetado pela crise foi serviços domésticos, que não foi objeto de nenhuma restrição. No entanto, foi o mais afetado pela preocupação das pessoas. O que afeta a economia é a pandemia, não as medidas para combater”, disse.

Entretanto, essa é uma afirmação ainda não compreendida mundo afora – e não só na Suécia.

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