Squadra discorda de IRB (IRBR3) em nova carta; papel cai 16%

Joana Kurtz
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Crédito: Reprodução/Facebook

Menos de dez dias após uma carta aos cotistas questionando números apresentados nos balanços do IRB, a gestora Squadra, que carrega posição vendida (aposta na queda) nas ações da resseguradora, publicou um novo documento.

A gestora rebateu argumentos citados pelo IRB nos últimos dias, em comunicações com o mercado financeiro que foram acompanhadas por analistas sell side e outras gestoras. Analistas sell side são aqueles de bancos e corretoras que fazem recomendações de investimentos.

Desde o relatório de análise da Squadra publicado em 02 de fevereiro com 154 páginas, as ações do IRB caíram cerca de 12%, até a última sexta-feira (07). Apenas no último pregão, a perda foi de 7,32%. Já nesta sessão, o papel abriu em queda de 6,5% e terminou com queda de superior a 16%. A nova carta, publicada ontem, é menor, com 48 páginas.

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Nela, o time da gestora, uma das mais respeitadas do mercado, até mesmo dá o passo-a-passo de como encontrar uma determinada informação crucial para sua análise no site da Susep (Superintendência de Seguros Privados).

Diz a gestora: “Ressalte-se que não afirmamos haver problemas nos números contábeis do IRB ou existirem razões, legais ou regulatórias, que exijam a divulgação de lucros de modo diferente ao realizado pela companhia. Explicamos apenas que houve ganhos que entendemos como “extraordinários”, “one-offs” ou “não recorrentes”, bem como expusemos os fundamentos para os classificarmos de tal forma.”

A carta do início do mês dizia que, desde que o IRB realizou sua abertura de capital na bolsa de valores, os lucros contábeis reportados nas demonstrações financeiras vêm se mostrando significativamente superiores aos lucros normalizados.

Essa disparidade entre lucro reportado e lucro normalizado (recorrente) foi crescente durante esse período e atingiu sua maior diferença nos nove primeiros meses de 2019. Veja reportagem sobre essa carta.

Sem compromisso com o erro

Os gestores da Squadra dizem que podem voltar atrás em suas análises, se forem convencidos com base nos dados apresentados pelo IRB, o que ainda não aconteceu.

“Entendemos como apropriado que a companhia apresente suas considerações. Naturalmente, o IRB possui uma grande quantidade de informações e dados não públicos, os quais poderia vir a divulgar com vistas a refutar algum ponto específico levantado em nossa análise. A Squadra não tem compromisso com o erro.”

“Todavia, com base nas comunicações a que tivemos acesso, não houve apresentação de nova informação que nos fizesse alterar nosso entendimento”, pondera.

A Squadra questionou ainda a postura do IRB: “Desde a nossa carta aos cotistas, as comunicações da companhia de que tivemos conhecimento vêm buscando confrontar nossa análise de outra forma, a qual não julgamos correta. Nos conference calls e na apresentação disponibilizada, a companhia e seus executivos têm afirmado que o estudo da Squadra contém “a lot of mistakes” (muitos erros).”

A Squadra defende seus supostos erros e fez questão de expor seus argumentos ponto a ponto, na nova carta.

Venda de participação no Minhas Shopping

O IRB afirmou em sua apresentação que a Squadra errou ao confundir ganho de capital com valor de venda. Em seguida, referencia a nota explicativa 13 para demonstrar que o ganho da operação no Minas Shopping teria sido negativo em R$ 30 milhões. Teria, assim, ocorrido uma perda de R$ 30 milhões com essa venda.

Porém, o CFO do IRB, Fernando Passos, teria dito, em conferência com participantes do mercado, que houve um ganho de R$ 30 milhões, contradizendo a própria empresa.

“O IRB usa a linha de “Alienação” no custo bruto dos imóveis para concluir que o ganho de capital na venda do Minas Shopping foi negativo (ou positivo?) em R$ 30 milhões. “Alienação”, na verdade, registra a baixa do valor de custo contábil dos imóveis alienados”, diz a Squadra.

A gestora continua: “Na realidade, a companhia chama de ganho de capital o valor de custo pelo qual o imóvel estava contabilizado em seu balanço… Reafirmamos nossa análise de que houve ganho de capital referente à venda do Minas Shopping no valor estimado de R$ 119 milhões (137 – 18 = 119).”

Float

O CFO afirma não saber como a Squadra chegou a um float de R$ 1,7 bilhão. Segundo ele, o float é superior a R$ 5 bilhões.

“O CFO parece confundir os conceitos de float e aplicações financeiras”, diz a gestora.

Mais uma vez, a Squadra recorreu a ensinamentos de Warren Buffett: “Para começar, float é dinheiro que temos, mas do qual não somos donos. Em uma operação de seguro, o float surge porque os prêmios são recebidos antes que as perdas sejam pagas, um intervalo que às vezes se estende ao longo de muitos anos.”

O dinheiro que a empresa tem e é dona seria o patrimônio líquido ajustado. O float seria o que o IRB tem, mas não é dono. A soma desses dois montantes resultaria nas aplicações financeiras.

“Percebemos que o float da companhia caiu ano após ano, em termos nominais e como percentual dos prêmios retidos. O comportamento apresentado é particular do IRB, não tendo sido observado nas demais resseguradoras brasileiras”, reitera a Squadra.

IRB contradiz a própria Susep

Na análise do LAIR normalizado, a Squadra destacou relevante ganho de R$ 605 milhões com a ativação de “Expectativa de Salvados e Ressarcidos da PSL (Provisões de Sinistros a Liquidar)”. Ao rebater esse item, no entanto, o IRB citou a rubrica de “Salvados e Ressarcimentos”.

Porém, de acordo com a Squadra, os conceitos são diferentes. A expectativa de salvados e ressarcidos da PSL considera apenas a sinistros avisados, mas ainda não pagos. Já os salvados e ressarcidos refere-se a sinistros avisados e já pagos.

“Na DRE (demonstrações financeiras), dentro das Despesas de Sinistros, constituem linhas contábeis diferentes e não comparáveis.”

A Squadra avisa que, para fazer o cálculo, é preciso considerar informações não disponíveis nas demonstrações financeiras. É necessário fazer o download da base SES da SUSEP.

O IRB acabou contrariando o próprio conceito da Susep, que é o órgão responsável pela fiscalização dos mercados de seguro.

Sobre a expectativa de salvados e ressarcidos da PSL, a Susep diz que “não poderá ser considerada como ajuste de PSL a parcela da expectativa de recebimento de salvados relativas a sinistros já liquidados”.

“Por se tratar de um ajuste na PSL, devem ser consideradas apenas as estimativas de recebimento decorrentes de sinistros avisados e ainda não pagos”, diz a Susep.

“A Squadra, portanto, mantém sua análise de que a ativação de “expectativa de salvados e ressarcidos da PSL” gerou um ganho relevante e não recorrente em valor estimado de R$ 605 milhões”, rebate a gestora.

Reversão de provisões anteriores a 2014

Sobre esse tópico, a Squadra diz que provisões de sinistros podem ser reduzidas tanto pela efetiva realização de pagamentos como por reavaliação de reservas.

Da redução de R$ 1,5 bilhão verificada no saldo relativo aos anos anteriores a 2014, a Squadra estimou conservadoramente em R$ 282 milhões a contribuição para o LAIR das reversões de provisões.

Contudo, o CFO do IRB afirmou a analistas que não houve reversão de provisões antigas e que, dessa maneira, a análise da Squadra estaria errada.

“Em sua resposta, o CFO parece confundir o conceito de “Provisões de Sinistros” com “Estimativa Corrente dos Sinistros Acumulados”.”

A Squadra defendeu ainda seu cálculo de remarcação de ativos imobiliários e da avaliação dos contratos da Safra de 2019.

Sobre o primeiro item, o IRB afirmou em sua apresentação que a Squadra fez uma análise distorcida dos números. Já o CFO da empresa disse que não houve nenhuma remarcação a valor justo de ativos imobiliários no terceiro trimestre de 2019.

Entretanto, a nota 13 dos resultados do terceiro trimestre de 2019 mostra que o valor de R$ 204 milhões está atrelado a “ativos com natureza operacional” especificamente na controlada IRB Investimentos e Participações Imobiliárias.

Por sua vez, a mesma linha da nota 13 sequer estava presente no segundo trimestre de 2019, o que confirma o registro dos R$ 204 milhões no terceiro trimestre de 2019.

Teleconferência

Após a divulgação da nova carta da gestora, a empresa convocou uma teleconferência com analistas para explicar a situação.

O vice-presidente executivo, financeiro e de relações com investidores do IRB, Fernando Passos, tentou amenizar a polêmica.

Ele afirmou que não havia convocado a conferência para “estabelecer um contraditório”, mas para esclarecer o que a empresa pretendia fazer.

Segundo Passos, a empresa pretende publicar no seu balanço uma “abertura maior dos números”, o que possibilitará aos investidores “conciliar adequadamente” os dados.

“Há diferenças do ponto de vista contábil com os dados da Susep, mas vamos conciliar o conjunto de notas para que cada um de nós, inclusive o emissor da carta (a Squadra), refaça suas contas para chegar à conclusão correta”, afirmou, avaliando que “ninguém está agindo de má fé”.

Sobre o Minas Shopping, Passos ressaltou que os ganhos de capital da venda somaram R$ 27 milhões e que iria abrir os dados, “para que não restasse dúvidas” em relação ao montante.

Adicionalmente, o executivo afirmou que as contas seriam auditadas pela PWC, uma equipe atuarial interna e mais uma consultoria da “Big Four”.

Diferenças na comparação com dados da Susep

O executivo do IRB informou ainda que a empresa identificou números na base de dados exposta na Susep “que podem gerar diferenças”, no que se refere ao que deve ser considerado bruto ou líquido no resultado.

“Vocês vão ver que os impactos das estimativas entre ‘salvados e ressarcidos’ é muito menor do que os R$ 605 milhões que os colegas (da Squadra) chegaram à conclusão”, disse. “O contraditório sobre essa questão vai acabar se tornando desnecessário.”

O executivo acrescentou que a empresa irá divulgar um guidance semana que vem para informar a sua projeção para as linhas de negócios, junto com as demonstrações financeiras.

“Ficamos feliz do investidor divulgar a carta e esclarecemos que ele não está questionando os números da companhia, as práticas contáveis… É uma discussão entre recorrente e não recorrente”, afirmou.

“Mostrando os movimentos como de fato eles acontecem, de forma aberta, clara e técnica, tudo vai ficar extremamente esclarecido”, disse Passos, emendando que “os investidores nunca tinham tido essa demanda.”

Tá, e aí?

O analista da XP Investimentos, Marcel Campos, diz que o IRB ainda não prestou esclarecimentos suficientes para que a equipe de análise pudesse reavaliar os questionamentos levantados pela Squadra.

“Segundo o documento da gestora, muitas das análises envolvem interações com reguladores (locais e estrangeiros), além da interpretação independente de dados contábeis”, diz o analista.

“Dessa forma, dada a falta de visibilidade, estamos colocando nossa cobertura das ações do IRB (IRBE3) sob revisão. Nossa recomendação anterior e estimativas não são mais válidas a partir da publicação desse relatório.”

Além disso, sobre a venda de participação no Minas Shopping e a remarcação de outros shoppings, o analista da XP diz que o IRB não compartilhou publicamente informações suficientes para analisar melhor os resultados das transações.

Assim, ele alerta: “Essa análise é importante para entendermos qual o resultado recorrente do IRB, uma vez que estimativas são baseadas neste último e podem estar infladas com base em ganhos não recorrentes.”

(Com Rodrigo de Oliveira)