Setor de serviços tem retomada mais lenta e impacta o PIB

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Os últimos dados econômicos apontam que o pior da crise do coronavírus já passou no Brasil, com indicadores atingindo as mínimas históricas em abril e demonstrando recuperação em maio e junho. Mas um setor em particular gera preocupação: o de serviços.

De acordo com a última Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor fechou o mês de maio com recuo de 0,9%. Este foi o quarto resultado negativo de serviços no ano.

O setor teve um recuo de 11,7% em abril; queda de 6,9% em março; e outra queda de 1% em fevereiro – antes mesmo do início da pandemia no Brasil.

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“O resultado mostra um aprofundamento de um cenário que já era muito desfavorável para o setor. Ter um resultado ainda negativo quando a comparação é feita com abril, mês que tivemos o pior resultado da série histórica, é bastante significativo”, ressalta o pesquisador Rodrigo Lobo, do IBGE.

Outros setores crescem

Além disto, enquanto serviços registra retração, setores como indústria e comércio já vêm registrando crescimento. A produção industrial, segundo o IBGE, cresceu 7% em maio, depois de amargurar queda de 18.8% em abril. As vendas no varejo, que recuaram 17,1% em abril, já retomaram 13,9% em maio.

Outro indicador, o Índice dos Gerentes de Compras (PMI), medido pelo IHS Markit, aponta que o setor de serviços registrou 35,9 pontos em junho, ante 27,6 do mês anterior anterior. As leituras abaixo de 50 indicam retração econômica.

No entanto, o PMI industrial já se encontra em terreno de crescimento, com leitura de 51,6 pontos, ante 38,3 de maio.

“O que podemos notar é que, de maneira diferente de outras crises, o setor de serviços parece estar sofrendo mais”, confirma o economista Rodolpho Tobler, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Segundo ele, os dados mostram algum tipo de recuperação para indústria e comércio já a partir de maio, com recuperação de parte do que foi perdido no período mais crítico. “Já serviços continuou apresentando resultados negativos e sem muito perspectiva positiva para alguns segmentos”, diz.

Influência do setor de serviços no PIB

O setor de serviços responde, atualmente, por cerca de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Outros 25% são compostos pela indústria. E cerca de 5% pela agricultura.

E a dependência justamente do setor que demonstra mais dificuldade em atravessar a crise tende a impactar negativamente o resultado do PIB no ano.

O setor de serviços engloba, por exemplo, transporte, educação, saúde, alimentação e lazer, segmentos fortemente afetados na pandemia.

“Por ser um setor que emprega bastante, serviços têm um peso grande no PIB. E, com certeza, afeta a velocidade da recuperação da economia. A elevada incerteza e a deterioração do mercado de trabalho contribuem para essa perspectiva de recuperação mais lenta”, diz Tobler.

Na comparação com a China, por exemplo, que não depende tanto de serviços quanto o Brasil, a recuperação se mostra mais acelerada.

O exemplo da China, no entanto, não pode ser tomado como padrão para os demais países, explica Tobler. Isto porque o país asiático tem um cenário completamente diferente dos demais. Tem menor participação de serviços e uma poupança interna maior. “De acordo com as previsões, a China deve ser o único país a apresentar alta no PIB em 2020”, avalia.

Serviços: peso do setor no PIB não é ruim

Tobler lembra que esta crise é diferente de todas as passadas. E traz uma característica atípica, que é o distanciamento social.

A quarentena, apesar de ser sentida em todos os setores, foi mais grave para os segmentos de serviços. Como alimentação em bares e restaurantes, viagens e lazer.

No entanto, ao contrário do que uma leitura precipitada dos números pode sugerir, a dependência do setor de serviços não é uma “fraqueza”. E não gera insegurança econômica.

“Não há como definir um percentual ótimo de divisão do PIB entre os setores. Não de maneira que atenda a todos e consiga garantir segurança para o crescimento do país. Existem muito fatores que podem influenciar nesta distribuição”, explica.

Em outras crises, o setor de serviços era apenas mais um que sofria pouco e ajudava na recuperação geral. No entanto, agora, existem muitos tipos de serviços que estão sentindo bastante. E não há solução à vista no curto prazo.

“Enquanto não houver uma contenção da pandemia, por vacina ou por algo eficiente, é difícil que alguns segmentos voltem ao ritmo anterior à pandemia. Por exemplo, o de serviços prestados às famílias e de atividades turísticas”, conclui.

Previsões para o PIB

De acordo com o último Boletim Focus, que traz as projeções das instituições financeiras, o PIB brasileiro deve fechar o ano em queda de 6,10%.

Nos cálculos do governo federal, o recuo deve ser de 4,7%, conforme o Boletim Macro Econômico.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), por sua vez, é mais pessimista e projeta queda de 9,1%.