Setor aéreo: empresas sofrem com novos lockdowns e ações não decolam

Matheus Gagliano
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Reprodução/Pixabay

A chegada da pandemia da covid-19 trouxe uma total incerteza ao mundo. Os efeitos nefastos foram mais sentidos pelo turismo. Mas sobretudo pelo setor aéreo, que precisou mudar bruscamente seu plano de voo no mercado.

Praticamente todas as empresas do setor registraram prejuízos em 2020. O que se viu foi um ano marcado por fronteiras fechadas e isolamento social. Nesse contexto, de quarentena forçada, todo mundo se viu obrigado a ficar em casa. E os aviões foram recolhidos aos hangares.

As ações das empresas, obviamente, seguiram o ritmo e não conseguiram decolar até agora, quando o setor se vê diante de novos lockdowns e o agravamento da pandemia no Brasil.

Do início do ano até final de março, as ações da Gol acumulam perda de 12,3%. A Azul cai menos, 1%. Entenda o cenário e como as empresas vêm driblando a crise.

Setor aéreo: 2020 foi o pior ano da aviação, para Abear

De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), houve uma forte retração na demanda de voos domésticos com a pandemia, configurando o pior momento para a aviação.

Antes de março de 2020, o setor aéreo tinha uma média diária de 2.700 voos domésticos. Mas o número chegou a 180 voos diários em abril.

Tudo isso também afetou o valor de mercado das empresas. De acordo com a Economática, em 21 de fevereiro de 2020, as principais companhias aéreas do mundo valiam aproximadamente US$ 174 bilhões em bolsa. Já em 11 de março, este valor recuou para US$ 124 bilhões.

No Brasil, somando o valor de mercado de Gol e de Azul, a queda também foi acentuada. Esta cifra recuou, no período, de aproximadamente US$ 8,2 bilhões a, impressionantes, US$ 1,2 bilhões.

Eleven vê piora na recuperação do setor aéreo

A curva de recuperação do tráfego aéreo de Gol (GOLL4) e Azul (AZUL4) em fevereiro já mostrou os efeitos do aumento dos casos de Covid. O que deve se manter ainda nos meses de março e abril, aponta relatório da Eleven.

O estudo aponta que houve piora na comparação com os meses anteriores.

O RPK total da Gol apresentou redução de 50,3% a/a em fevereiro de 2021, o que representa uma piora de 13,1 p.p. frente a janeiro, tornando-se o pior mês desde setembro de 2020 (-60,6%).

No caso da Azul, a queda do RPK total de fevereiro de 34,4% a/a (-3,4 p.p. m/m) foi a pior desde outubro de 2020 (-45,2%).

Gol (GOLL4): estratégia por único tipo de aeronave minimiza impactos

Para a Gol, por exemplo, o ano passado foi realmente desafiador. Tanto é que a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 862 milhões no quarto trimestre de 2020. No ano, a empresa acumulou prejuízo líquido de R$ 2,7 bilhões. No ano anterior, o lucro havia sido de R$ 700 milhões.

Apesar disso, Paulo Kakinoff, diretor-presidente, disse no informe de resultados da empresa que o modelo adotado ajudou a minimizar os impactos. A Gol tem uma frota de um único tipo de aeronave. E isto demanda menores custos.

“A posição dominante nos principais hubs brasileiros de alta densidade nos permite, rapidamente, adicionar ou descontinuar rotas em resposta às oscilações de demanda, enquanto mantemos disciplina quanto à capacidade e rentabilidade”, comentou.

Azul (AZUL4): e-commerce favorece transporte de cargas

A Azul também teve um ano difícil. Em 2020, a companhia aérea registrou um prejuízo líquido de R$ 4,6 bilhões. No ano anterior, havia obtido lucro de R$ 845 milhões. A companhia também teve um resultado operacional negativo em R$ 1,461 bilhões. Ao passo que no ano anterior, companhia teve um resultado operacional positivo em R$ 2,031 bilhões.

Diante desse cenário, a companhia registrou uma queda na receita líquida em transporte de passageiros. Passou de R$ 10,9 bilhões em 2019 para R$ 5,088 bilhões no ano passado. Isso representa uma redução de 53,3%.

No entanto, graças às compras pela internet, a receita de cargas avançou de R$ 534,7 milhões, em 2019, para R$ 704,5 milhões em 2020. Isso significa um aumento de 31,8%. No quarto trimestre, o avanço foi de 38,4%, quando comparado com o terceiro trimestre. Em seu relatório de resultados, a Azul creditou esse resultado de cargas ao comércio eletrônico.

John Rodgerson, CEO da Azul, disse, no relatório da companhia começa 2021 fortemente posicionada. “Mas também estamos cientes de que as incertezas continuam. Devemos manter uma forte disciplina sobre capacidade, custos e caixa”, comentou.

Ele completou informando que há um ano, a empresa tinha R$ 2,3 bilhões em caixa, sem nenhuma expectativa de vacina no horizonte e com 70 voos por dia. Passados 12 meses, ele vê um cenário de R$ 4 bilhões em caixa e 220 milhões de doses da vacina em vista. Além da perspectiva de 700 voos diários. “Temos alguns desafios pela frente, mas certamente nos sentimos confiantes em nossa posição competitiva”, completou ele.

Latam: operações de carga reduzem, mas não impedem prejuízos

Na Latam, o cenário não foi diferente. No quarto trimestre, houve prejuízo líquido de US$ 962,5 milhões. No acumulado do ano, o prejuízo líquido foi de R$ 4,545 bilhões. Nos três últimos meses de 2020, a empresa registrou uma redução de 81,6% na receita de passageiros.

Porém, a companhia reportou que essa redução foi parcialmente compensada pelas receitas de carga. No período, as operações de cargueiros cresceram 21%, por causa da fora demanda de entregas por conta da pandemia. Para todo o ano de 2020, a empresa amargou uma queda de 58,4% nas receitas. Isso fez com que chegasse a US$ 4,334 bilhões.

Roberto Alvo, CEO do Grupo Latam Airlines, 2020 foi o ano mais desafiador da história. “Apesar da crise da Covid-19 ter provocado efeitos profundos sobre o grupo e suas operações, esse contexto permitiu tomar decisões de reestruturação”, comentou.

Ele completou, informando que esses efeitos ainda se farão sentir por um bom tempo. “Mas a Latam vai emergir desse período como uma companhia mais próxima, simples, ágil e eficiente”, aposta.

Com a queda de 58,4% na receita da empresa, ele informou que esforços foram tomados para mitigar os efeitos. Isso incluiu reduzir e variar a estrutura de custo da empresa. Principalmente no que diz respeito ao custo da frota e aos salários dos funcionários e benefícios.

“A Latam encerrou o ano com aproximadamente US$ 1,7 bilhão em caixa. E mais US$ 1,3 bi da linha de financiamento DIP totalmente comprometida e não utilizada. O que representa níveis recordes de liquidez para enfrentar os próximos meses”, concluiu.