Selic abaixo de 2% ao final do ano: como isso afeta seus investimentos

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Agência Brasil/Divulgação

O Comitê de Política Monetária (Copom) encerra nesta quarta (17), em Brasília, a reunião para definir como fica a taxa básica de juros, a Selic. Ela está em 3% ao ano.

Depois da reunião é que será anunciada a nova taxa. Mas o mercado acredita em um corte de 0,75 ponto percentual. E mais do que isso. Há uma aposta em massa de que essa taxa cairá para um patamar abaixo dos 2% ao final do ano.

O Copom reúne-se a cada 45 dias. No cenário atual, de deflação e atividade econômica em ritmo muito lento, existe um consenso de que a taxa ficará abaixo dos 2%.

Indicadores econômicos

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice oficial de inflação do país, ficou negativo em 0,38% em maio, e já havia apontado deflação de 0,31% em abril. Foi o segundo mês consecutivo de queda nos preços. Além disso, foi o menor índice desde agosto de 1998, quando ficou em menos 0,51%.

Já o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (15) pelo BC trouxe nova queda do Produto Interno Bruto (PIB) projetada pelo mercado.

Na semana passada, a expectativa era por uma queda do PIB de 6,48%. Agora, a projeção é de menos 6,51%. Há quatro semanas, o mercado esperava uma retração de 5,12%.

Ao mesmo tempo, a projeção para o dólar caiu de R$ 5,40 para R$ 5,20. Há quatro semanas, era de R$ 5,28%. Hoje, está na casa dos R$ 5,20, embora já tenha trafegado semana passada abaixo dos R$ 5.

Como resultado, a contínua deterioração das projeções tem dado argumento ao mercado para acreditar que o juro básico da economia pode baixar de 2%.

Selic na projeção dos agentes do mercado

Segundo noticiado na imprensa, o BNB Paribas prevê corte de 0,75 nesta reunião. E outro corte de mais 0,75 mais à frente, fechando a taxa em 1,5% ao ano, ao final de 2020.

A Gauss Capital enxerga corte de 0,75 agora e mais 0,25 depois, fechando a 2,00%. O JP Morgan acredita em 1,75%.

Já o Goldman Sachs espera a taxa um pouco acima, em 2,25%. Em comunicado, explicou que o cenário em que o BC precisa estimular a economia. Por isso, há espaço para “flexibilização adicional da taxa”.

No entanto, o banco destaca que preocupações em relação à dinâmica do câmbio e aos fluxos de conta de capital e riscos políticos limitam o escopo, por enquanto, para movimentos de flexibilização de taxa mais agressivos.

O assessor de investimos e sócio da EQI Paulo Felipe de Souza também acredita que a Selic possa chegar abaixo dos 2,00%. Para ele, pode ir a 1,5%. “A gente já tinha uma inflação baixa antes da pandemia”, afirma. “E as pessoas não estão consumindo, então a inflação está abaixo do teto da meta”.

Andre Arantes, sócio da EQI, concorda. “Dados os impactos do coronavírus, a inflação ficou muito deprimida, o que permite o movimento de queda da Selic”, diz.

Alternativas à Selic

Segundo ele, neste momento a política de juros fica vinculada à inflação. “Enquanto a inflação estiver deprimida e não tiver atividade econômica para acelerar essa inflação, permite-se essa queda da taxa de juros”, segue Arantes.

“O mercado está precificando lá para baixo, é preciso tirar o país da inatividade, que acabou sendo acentuada, afetada pelo coronavírus. É um corte de 0,75 amanhã e depois tem que monitorar a ata para ver se vão intensificar, mas tem toda a cara de que (a Selic) vai seguir em queda”.

O cenário deve estimular os investidores a partirem para ativos de maior risco, deixando para trás aplicações conservadoras de renda fixa.

“Com esse 2,25%, que provavelmente vai se concretizar amanhã, está dando menos de 0,20% ao mês uma aplicação com 100% de CDI. Então, as pessoas vão levar seu capital para maior risco. Quando falo ‘arriscado’ pode ser até mesmo um imóvel, já que ela tá imobilizando capital, ficando sem liquidez”.

Na hora de compor o portfólio da maneira mais inteligente possível, uma ferramenta muito útil para o investidor será recorrer a um assessor de investimentos, segundo o especialista.

Souza entende da mesma forma. Para ele, a Selic baixa é ruim para os investimentos de renda fixa. Porém o investidor pode buscar outras alternativas de investimento. Ele cita como exemplos bolsa e Fundos Imobiliários, além de títulos prefixados indexados à inflação.

Mudança de cenário

Como o problema é a inflação deprimida pela falta de consumo, existe uma dúvida sobre se este quadro pode mudar. Isso porque os governos estaduais e municipais estão retomando as atividades.

Como consequência, mais atividade econômica e consumo poderia pressionar a inflação. Mas Arantes acha que não é o que vai acontecer.  “A inflação não deve retomar; o dólar estava bem fora de controle, perto de R$ 6, o que puxa a inflação, e deu uma suavizada”.

Segundo ele, se o Brasil não tiver nenhum “outro susto, outro choque de fuga de capitais”, o dólar não volta àquele patamar. E se tiver uma “outra onda de coronavírus”, a inflação cai ainda mais.

Já Paulo de Souza acredita que se o Brasil tiver uma retomada muito forte da economia, pode haver uma mudança de cenário na Selic.

“Mas eu acho essa chance muito pequena”, afirma. “Alguns economistas já falaram para gente se acostumar com juro real praticamente perto de zero pelos próximos dois anos e é a mesma visão que eu tenho”.