Secretário de Cultura de Bolsonaro é demitido após discurso nazista

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Reprodução / Internet

A Secretaria Especial da Cultura informou, por meio de sua assessoria de imprensa, nessa sexta-feira (17), que o secretário Roberto Alvim foi demitido do cargo. A permanência de Alvim se tornou insustentável, depois que parafraseou, em vídeo, o ministro da propagando de Adolf Hitler, Joseph Goebbels.

O vídeo foi divulgado na noite dessa quinta-feira (16), para lançar o Prêmio Nacional das Artes, que o presidente Jair Bolsonaro havia informado antes, na sua tradicional live da quintas-feiras.

O discurso de Alvim cita trecho de discurso de Goebbels sobre as artes.

“A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”, fala Alvim.

“A arte alemã da próxima década será heroica, será ferramenta romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, disse o ministro nazista, em 8 de maio de 1933, num pronunciamento para diretores de teatro.

Além dos trechos do pronunciamento, a estética do vídeo, a aparência do secretário, o vocabulário, o tom de voz e a trilha sonora escolhida também remeteram o discurso à propaganda nazista.

Dois dias depois dessa fala, Goebbels promoveu a famosa queima de livros em Berlim.

Forte reação

As redes sociais imediatamente reagiram ao discurso do agora ex-secretário de Cultura. Logo, políticos de todos os espectros ideológicos também se pronunciaram contra a fala.

No Twitter, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi categórico: “O secretário da Cultura passou de todos os limites. É inaceitável. O governo brasileiro deveria afastá-lo urgente do cargo”.

O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM-AP), também divulgou nota pedindo a demissão de Alvim: “como primeiro presidente judeu do Congresso Nacional, manifesto veementemente meu total repúdio a essa atitude e peço seu afastamento imediato do cargo. É totalmente inadmissível, nos tempos atuais, termos representantes com esse tipo de pensamento. E, pior ainda: que se valha do cargo que eventualmente ocupa para explicitar simpatia pela ideologia nazista e, absurdo dos absurdos, repita ideias do ministro da Informação e Propaganda de Adolf Hitler, que infligiu o maior flagelo à humanidade”.

Nem mesmo Olavo de Carvalho, mentor ideológico do governo Bolsonaro, a quem Alvim trata como “mestre” e se diz fã, deixou de criticá-lo. No Facebook, foi curto e direto: “é cedo para julgar, mas o Roberto Alvim talvez não esteja muito bem da cabeça. Veremos”. Essa foi a única crítica que “entristeceu” Alvim.

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O cineasta Josias Teófilo, diretor de um documentário sobre Olavo de Carvalho e bolsonarista convicto, afirmou no Twitter que Alvim “tem que cair, e logo”, depois que fez “um vídeo nazista”.

Em suas redes sociais, o presidenciável Luciano Huck, que tem origem judia, escreveu: “usar a Cultura p/ fazer revisionismo histórico é perverso, atrasado e violento. O vídeo do secretário Roberto Alvim é criminoso. Infame. Revela uma conduta autoritária inaceitável, que rompe os limites democráticos com um discurso fora da lei”.

A Confederação Israelita do Brasil emitiu nota dizendo considerar “inaceitável o uso de discurso nazista pelo secretário da Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim. Emular a visão do ministro da Propaganda nazista de Hitler, Joseph Goebbels, é um sinal assustador da sua visão de cultura, que deve ser combatida e contida”.

Infeliz coincidência

Roberto Alvim tentou se segurar no cargo. Em entrevista à Rádio Gaúcha, nessa sexta-feira de manhã, Alvim disse que houve “infeliz coincidência” com frase de Goebbels.

Inicialmente, o secretário afirmou que não poderia pedir desculpas pelo episódio porque alega não ter copiado os trechos de Goebbels de forma proposital. Ele diz que foi autor de “90% do discurso”, mas que algum assessor teria colocado a frase em sua mesa sem identificar a fonte com base em uma busca sobre nacionalismo e arte na Internet.

Alvim teria conversado com Jair Bolsonaro e o presidente teria entendido que “não houve má intencionalidade” na utilização da referência nazista. Segundo o ex-secretário, Bolsonaro teria lhe garantido que não seria demitido.

Insustentável

Porém, diante da enorme e rápida repercussão do caso, ainda na manhã desta sexta, o Planalto havia avisado o Congresso que secretário seria demitido. Sua posição era insustentável. Não demorou muito e de fato Alvim foi deposto do cargo.

O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Ramos, telefonou para líderes do Congresso e avisou que o porta-voz da Presidência, general Rego Barros, anunciaria a demissão.