Saída de Moro gera grave quebra de credibilidade no governo

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O pedido de demissão do ministro Sérgio Moro, anunciado em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (24), tem efeitos catastróficos tanto para o mercado quanto para a política.

Com popularidade mais alta do que a do próprio presidente, a saída do ministro da Justiça acarreta uma grave quebra de credibilidade ao governo Bolsonaro, avaliam os especialistas.

“Ambos perdem com esse desgaste que ocorreu. Bolsonaro, ao não voltar atrás na demissão do diretor diretor-geral da Política Federal, Maurício Valeixo, contraria publicamente o ministro. Muitos enxergam até como uma humilhação”, diz o cientista político Pedro Arruda. Ele é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“É algo realmente bastante prejudicial para o governo Bolsonaro”, avalia.

Saída repercute fortemente no mercado

Para Filipe Teixeira, colunista do portal Eu Quero Investir e da EQI Investimentos, Moro representava um dos grandes pilares do atual governo e sua saída terá um impacto muito forte para o mercado.

“Ontem (23) a gente viu uma mostra do que pode acontecer com o mercado com a saída do Moro”, afirma.

Na quinta, a bolsa perdeu cerca de mil pontos com o noticiário repercutindo a possível saída do ministro, chegando a -2,50%. Posteriormente, com o desmentido da assessoria de imprensa do Ministério, o mercado teve uma leve melhora e fechou com baixa de 1,26%.

Hoje, durante a fala do ministro Sérgio Moro à imprensa, quando anunciou a saída, a Bovespa caía 6%.

Para Teixeira, diferentemente da saída do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a saída de Moro é mais representativa. “O buraco é mais embaixo. A saída do Mandetta também teve sua precificação, mas bem mais amena”, avalia.

“Moro e Guedes trazem muita credibilidade para o governo e segurança para os investidores”, afirma.

Teixeira estima que a saída de Moro terá impacto forte não só na bolsa, mas também no dólar. A moeda, na quinta-feira, chegou a R$ 5,53.

“Ontem, com as suspeitas da demissão, chegamos a uma nova máxima histórica. E é uma questão de confiança mesmo. De como o mercado vai passar a enxergar o governo sem o Moro”, diz.

A forte alta do dólar, explica, ocorre pela saída dos investidores estrangeiros, que perdem a confiança nos rumos do país. Ao sair do mercado brasileiro, os investidores precisam trocar reais por dólares, o que gera a oscilação no valor.

Estatais

Enquanto anunciava sua saída, a bolsa superou queda de 9%, muito próxima do acionamento do circuit breaker.

Entre os papéis que apresentaram fortes quedas ficaram os de estatais, mais sensíveis aos riscos de interferência política.
Banco do Brasil (BBSA3) e Eletrobras ON (ELET3) entraram em leilão, após registrarem altas superiores a 10%. As ações da Petrobras ON (PETR3) e PN (PETR4) caiam mais de 2%.

“Pior momento” para a saída de Moro

Para Pedro Arruda, não poderia haver momento pior para a saída. “Já estamos em uma crise, com a popularidade do presidente caindo nas pesquisas de opinião, perdendo fortemente o apoio do Congresso, e na semana seguinte à demissão do Mandetta”. O cenário todo, avalia, gera muita instabilidade.

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Para ele, há a possibilidade de Moro ir para alguma secretaria de segurança estadual. Como, por exemplo, de São Paulo. Isto pela proximidade com o governador do estado, João Doria.

Doria também se afastou recentemente de Bolsonaro e segue se opondo ao presidente nas questões relacionadas ao enfrentamento da pandemia de coronavírus.