Saída de Moro abre terceira frente de crise no país, avalia gestora

Osni Alves
Jornalista | oalvesj@gmail.com
1

Crédito: Saída de Moro abre terceira frente de crise no país, avalia gestora

A demissão do ex-ministro Sergio Moro abriu uma terceira frente de crise no país. Além de problemas na área da saúde e, consequentemente, na economia, agora também na politica.

De acordo com a XP Investimentos, o momento é de cautela. Isso porque o país está prestes a entrar em recessão, por conta do coronavírus e, agora, acrescido do fator político.

Para a gestora, a crise atual veio de forma abrupta na economia já combalida. “Caiu como meteoro”, informou, citando frase do ministro Paulo Guedes.

Segundo a XP, a economia estava no rumo, devido à forte ancoragem fiscal e um plano reformista que mirava solucionar grandes problemas do Brasil no longo prazo.

“Começamos pela reforma da previdência e discutíamos em 2020 as reformas administrativa e tributária como próximas pautas possíveis no Congresso”, elencou.

E acrescentou: “além disso, o mundo dava claros sinais de aceleração econômica.”

brasil-bolsonaro-coletiva-20181107-003-copy

Uma crise, múltiplos problemas

A dificuldade atual se iniciou em fevereiro quando o coronavírus surgiu e se espalhou. Como medida de contenção, o lockdown paralisou a economia.

Assim, nas contas da gestora, dois eventos distintos – pandemia e paralisação – são acrescidos de uma nova problemática: o imbróglio político que torna o cenário ainda mais turvo.

Conforme a XP, esse terceiro fator é exclusivamente interno. Diz respeito somente ao Brasil, enquanto os demais são fatores mundiais.

“Adicionar uma crise politica nesse momento é preocupante, pois pode colocar em cheque o cenário de recuperação do Brasil no pós-Covid”, disse.

E frisou: “cenários alternativos e de ‘cauda’ passam a ter probabilidade não desprezível e é isso que percebemos os mercados começarem a precificar.”

Bolsa brasileira: dólares em queda de 54%

De acordo com a XP, em um dia calmo e de alta no cenário externo, o Ibovespa flertou com o “circuit breaker” – seria a sétima vez do ano.

O gráfico desceu, mas se recuperou ao fechar em 5,45% de queda, com uma melhora ao final do pregão após pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro.

Em dólares (índice MSCI Brasil), a Bolsa brasileira caiu 9% na sexta-feira (24) e acumula 54% de queda no ano.

Segunda pior Bolsa no mundo, a da Namíbia cai 45% do ano e a da Colômbia, 44% em 2020.

XP Investimentos

Curva de juros (DI) em forte alta

Seguindo os acontecimentos, a curva de juros abriu fortemente, com o contrato de longo prazo do CDI com vencimento em Janeiro de 2025, subindo mais 140bps para 7,21% a.a.

Nos juros de curto prazo, o mercado passou a precificar um corte menor na Selic na próxima reunião do Copom, de 50bps e não mais de 75bps.

XP Investimentos

Real-Dólar já perde 27% de valor no ano

Conforme a XP, o dólar chegou em novas máximas históricas, atingindo o patamar de R$ 5,58 ao subir 0,8% no dia, após chegar a R$ 5,72 ao longo do dia.

O Banco Central brasileiro precisou intervir por oito vezes no câmbio. O Real já perde 27% de valor no ano, sendo a pior moeda entre todos os países emergentes.

Quando se olha para o real deflacionado pelo IPCA, vê-se que o pico do Dólar-Real foi, na verdade, em 2002, quando a moeda chegou a atingir o nível de R$ 7,32 para os níveis de hoje.

Caso a crise atual se agrave mais e o mercado teste as máximas do passado, isso implicaria ainda uma alta da moeda norte-americana de 28% frente aos níveis atuais.

Entretanto, é importante frisar que o Brasil tem atualmente um nível de risco-país abaixo de 4% e também alto nível de reservas – em torno de 340 bilhões de dólares – dois pontos importantes que trazem um colchão de proteção maior.

XP Investimentos

Moro X Bolsonaro

O ex-ministro pediu demissão na última sexta-feira (24). Ele explicou que a saída era por conta de divergências com o chefe do Executivo.

A relação, que já não andava bem, teve seu estopim com a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Mauricio Valeixo.

Na consideração de Moro, não havia motivo para o presidente mexer no cargo e a medida foi vista por ele como ingerência na pasta.

“Vale destacar que esta não é a primeira crise dentro do governo em meio à pandemia. Houve embate entre a ala militar e o time econômico, a saída do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a participação do presidente em atos a favor da intervenção militar no último domingo, além de inúmeras falas controversas por parte do presidente”, disse.

Entretanto, a XP considera o mais recente episódio como o mais grave até o momento.

moro_versus_bolsonaro

E Guedes?

Para a gestora, outra questão importante a ser considerada é o futuro do outro “super-ministro” de Bolsonaro, Paulo Guedes (Economia), que parece haver perdido espaço.

Ele vem sendo fritado pela ala militar. A permanência dele é importante para preservar estabilidade no governo e sua saída poderia abalar Bolsonaro.

Guedes não se pronunciou sobre os eventos recentes, mas o presidente destacou a importância do ministro durante o seu pronunciamento.

Nos próximos dias, haverá turbulência no cenário político, especialmente por conta do embate via redes sociais entre Moro e Bolsonaro.

O consenso, segundo o professor Carlos Melo, é que, a partir de agora, o Congresso irá monitorar muito de perto o apoio popular ao presidente Bolsonaro.

Isso ditará a resposta dos parlamentares.

paulo-guedes-ministro-2

Cautela de curto prazo continua

A XP reitera que em decorrência de todos esses fatos, há necessidade de cautela no curto prazo, pois o cenário incerto.

“Acreditamos agora que essa cautela deve se elevar, pois a crise política não era algo esperado no nosso cenário anterior”, explicou.

Isso porque a volatilidade nos mercados deve continuar elevada, pois o mercado continuará sensível às notícias do coronavírus e da saúde, da economia, do crédito das empresas e, agora, do ambiente político.

“Consideramos prudente que investidores mantenham carteira diversificada e busquem aumentar exposição em ativos de menor risco”, elencou.

Dentre os produtos que a gestora recomenda, segue:

1) Ativos Internacionais: como ações globais, fundos de investimento de renda fixa ou ações globais, BDRs e ETFs internacionais listados na B3 e COEs;

2) Ativos capazes de diversificar o portfólio: e se aproveitar de distorções continuam importantes, como fundos long short e quantitativos;

3) Ativos anti-cíclicos e reais, como ações, imobiliário (FIIs) e o ouro (link). Como regra de bolso, entre 10 e 30% da parcela em ações e fundos de ações. Veja nossas carteiras recomendadas por perfil de risco e as nossas recomendações de Fundos Imobiliários;

4) ações de empresas multinacionais e com receita dolarizada, como VALE, JBS, Marfrig, Suzano e Klabin e ações de empresas boas pagadoras de dividendos;

5) títulos de renda fixa de prazo mais curto (Tesouro Direto), e debêntures com baixo risco e de empresas sólidas.

“Caso as três crises tenham curta duração e o cenário volte a melhorar rapidamente, esses ativos são de qualidade e também irão ter uma boa performance. Acreditamos que preservação de capital ganha maior relevância em tempos de elevada incerteza.”

Uma das formas mais eficientes de identificarmos o nosso perfil de investidor, é realizando um teste de perfil.

Você já fez seu teste de perfil? Descubra qual seu perfil de investidor! Teste de Perfil

acoes-mais-recomendadas-dezembro

Renda Fixa no curto prazo

Em relação a ativos seguros, a XP diz que não faltam oportunidades na renda fixa. “A começar por títulos do Tesouro Direto”, frisou.

Emissões bancárias como CDBs, LCIs e LCAs são garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para investimentos de até R$ 250 mil por CPF e conglomerado financeiro.

Isso confere muita segurança para esses ativos, porém, principalmente em momentos mais incertos, recomenda-se permanecer dentro dos limites da garantia.

Por fim, as emissões de crédito privado (debêntures, CRIs e CRAs) são naturalmente mais arriscadas, por isso é essencial entender o risco do emissor antes de tomar decisões.

O ideal seria buscar emissões de empresas de baixo risco (rating elevado) e com solidez.