Risco-país subiu: veja os efeitos na economia e nos investimentos

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.

Crédito: Pixabay

Nos primeiros meses de 2021, vimos o risco-país do Brasil disparar, com alta superior a que ocorreu em outros países emergentes, como México, Rússia e Turquia, por exemplo.

No início de março, o risco medido pelo CDS (na sequência veremos esse conceito) voltou a operar acima dos 200 pontos, tendo chegado a 214 pontos no dia 10 desse mês.

Algumas notícias justificam a alta. Primeiro tivemos uma mudança no comando da Petrobras, uma empresas observada por muitos investidores estrangeiros. Depois veio a notícia de que Lula pode ser elegível nas eleições 2022. Tudo isso trouxe mais risco ao cenário econômico e político.

Mas o que significa risco-país, e que relação isso tem com a economia e com os investimentos? É o que veremos neste artigo. Então, continue a leitura!

O que é risco-país?

Em um mercado financeiro globalizado, os investidores estão sempre à procura das melhores oportunidades que ofereçam menores riscos. Ou seja, a preferência sempre será investir em países que proporcionem bons ganhos, mas que também sejam capazes de honrar o pagamento dos títulos que venderam ao mercado.

Nesse sentido, o risco-país é o indicador que reflete o grau de confiança que o mercado tem na economia e na capacidade de pagamento de uma nação. Para isso, são levados em consideração aspectos políticos, sociais, fiscais, de produção econômica e tudo mais que possa interferir na estabilidade financeira de um país.

Como o risco-país funciona na prática?

Para entendermos isso, primeiro precisamos saber o conceito de título soberano.

Os títulos soberanos são papéis emitidos pelo governo para o financiamento das suas atividades. No caso do Brasil, esses títulos são os Global Bonds, normalmente emitidos em dólares (também podem ser emitidos em reais, euros e outras moedas). Os títulos emitidos em dólares são os que possuem os prazos mais longos de vencimento.

Conceitualmente, o risco-país determina o quanto um título emitido por uma nação deverá pagar a mais em relação ao um título soberano livre de risco. Para fins de comparação, o mercado considera livre de risco os títulos emitidos pelo tesouro norte-americano.

Isso significa que, quanto maior for a percepção de risco que o investidor tiver em relação a um país, maior será a remuneração exigida para que adquira um título dessa nação.

Formas de medir o risco-país

Vejamos agora as três formas mais comuns de se medir o risco-país:

EMBI+ (Emerging Market Blond Index Plus)

O EMBI+ é um índice calculado pelo J.P. Morgan Chase que, na tradução literal, significa índice de títulos de países emergentes. Esse índice é o mais utilizado na avaliação do risco-país, e reflete o spread pago pelos títulos de economias emergentes.

Para o seu cálculo, o EMBI+ engloba 19 economias emergentes. Nesse sentido, as principais são: Brasil, Argentina, México, Rússia, Polônia, Turquia, Bulgária e África do Sul.

Nesse sentido, o índice reúne diversos títulos emitidos por esses países, mede o spread desses papéis e os compara aos títulos livres de risco. Como vimos, quanto maiores forem as instabilidades nos países emergentes, mais o investidor exigirá para investir nessas economias. Logo, quanto maior for o spread que o título de um emergente paga, entende-se que maior será o risco que ele oferece ao investidor.

E como interpretar o EMBI+?

Por exemplo, quando se ouve que o EMBI+ está em 1000 pontos, isso significa que os títulos das economias que o compõe estão pagando 10% acima do que paga o tesouro norte-americano.

EMBI+Br

O JP Morgan também calcula individualmente o EMBI+ para cada país considerado no índice. Dessa forma, temos também o EMBI+Br, que mede somente o risco dos papéis emitidos no país.

Da mesma forma que o EMBI+, esse índice também é medido em pontos-base. Por isso, se o risco Brasil é de 200, por exemplo, quer dizer que a remuneração oferecida pelo tesouro brasileiro é de 2%.

CDS (Credit Default Swap)

No mercado financeiro, o CDS funciona como um seguro pago pelo investidor que o protege contra possíveis calotes no pagamento de títulos. O prêmio pago pelo investidor é diretamente proporcional ao spread dos ativos que ele deseja garantir. Dessa forma, quanto maior for o risco do emissor do título, mais caro será o CDS.

O Credit Default Swap é mais utilizado por bancos, seguradoras e fundos de investimento. A seguir, veja um exemplo de como funciona esse seguro:

Digamos que um investidor deseje proteger US$ 10 milhões de títulos soberanos brasileiros por 5 anos. Considere que o spread do CDS (também chamado “pontos-base”) seja 90 por trimestre.

Dessa forma, ao término de cada trimestre o investidor deverá pagar 22,5 pontos-base (90/4) pelo seguro. Em outras palavras, a cada três meses o valor pago pelo CDS corresponde a 0,225% do risco total segurado, ou seja, US$ 22,5 mil.

Caso ocorra insolvência por parte do emissor do título, os pagamentos do CDS são suspensos, e quem vendeu o seguro pagará o principal ao segurado.

Rating Soberano

O rating soberano é definido por agências de classificação de risco, e correspondem a uma espécie de classificação de risco oferecem uma espécie de certificação de qualidade. Para definir o rating, as agências consideram basicamente a capacidade que o país tem de pagar as suas dívidas.

Em relação ao Brasil, as agências que fornecem o seu rating são a Moody´s, Standard & Poor´s (S&P) e Fitch Ratings. Cada uma delas tem um sistema próprio de avaliação de risco. No entanto, alguns fatores de análise são comuns a todas, como estabilidade econômica e política, distribuição de renda e questões sociais, como liberdade de imprensa, por exemplo.

Nesse sentido, essas agências classificam os países em duas categorias:

Grau de investimento

Nessa situação, o país inspira mais confiança nos investidores. Isso porque o mercado entende que há poucas chances de um calote por parte da nação. Logo, tanto o governo quanto as empresas conseguem ter acesso a empréstimos externos maiores e com juros mais baixos. Em outras palavras, o grau de investimento é um selo de qualidade concedido ao bom pagador.

Quando um país perde o grau de investimento, isso é prejudicial para a economia como um todo. Nessa situação, os juros começam a subir, os financiamentos ficam mais caros e a atividade desacelera, podendo, em alguns casos, levar a recessões prolongadas.

Grau especulativo

Por outro lado, quando o pais tem problemas como desajuste fiscal, inflação e instabilidade política, isso gera muitas dúvidas entre os investidores sobre a solidez dos seus fundamentos econômicos. Nesse caso, há insegurança do mercado em relação à capacidade da nação de honrar as suas dívidas. Por isso, o tipo de capital atraído para esses países é o especulativo, que exigirá altas taxas de juro para que ingresse no país, e sairá de forma rápida ao menor sinal de piora do cenário econômico.

Tanto para concederem o grau de investimento quanto o especulativo, as agências enviam periodicamente profissionais para que avaliem os países. Isso é muito importante, pois alguns fundos de investimentos são, inclusive, proibidos de operarem com países que possuem grau especulativo. Além disso, é necessário que se façam reavaliações periódicas dos ratings, para avaliar a evolução da economia desses países.

Em algumas situações, mesmo que o país tenha déficit, ele pode subir de rating. Isso porque é avaliada a evolução dos planos implementados, como redução de gastos públicos e controle da inflação, por exemplo.

Nessa situação, as agências enxergam o comprometimento do país com a melhora de seus fundamentos. Por outro lado, quando há descontrole de gastos públicos, aumento de inflação e instabilidade política, é mantido o grau de especulação até que ocorra algum sinal de reversão.

Tabela de classificação de ratings

Risco Brasil

Em maio do ano passado o rating do Brasil foi rebaixado para BB-. Recentemente, a Fitch Ratings declarou que será fundamental que o país avance com suas reformas estruturais, para que a avaliação possa ser revista.

Segundo a agência, o mercado ainda vê com desconfiança o controle de gastos do país. E, no caso de um descontrole fiscal, caso o Banco Central necessite subir os juros, isso poderá acentuar a desconfiança dos investidores em relação à nossa recuperação econômica.

Considerações finais

Resumidamente, podemos dizer que alguns dos principais pontos que influenciam o risco-país são os seguintes:

  • endividamento e déficit fiscal do governo;
  • nível de arrecadação fiscal;
  • inflação;
  • câmbio excessivamente desvalorizado;
  • instabilidades políticas, que levam à fragilidades sociais e econômicas.

Todos esses fatores influenciam no PIB (Produto Interno Bruto) e, consequentemente, no desempenho da economia local. Nesse sentido, quanto maior for o risco-país, maiores as taxas de juros que o país deverá pagar a investidores para conseguir atrair capital. Por sua vez, maior também será o custo da sua dívida quando necessitar de recursos externos para financiar a sua economia.