Reserva de emergência na pandemia é fundamental

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Flickr

Uma das lições que se pode tirar da pandemia de coronavírus é que todos, sem exceção, precisam compor uma reserva de emergência.

Com as medidas de distanciamento social recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conter a proliferação do vírus, muitos se viram com carga horária e salários reduzidos, contratos de prestação de serviço cancelados ou negócios paralisados.

Quem tinha um montante guardado, aplicado em investimento seguro e com alta liquidez, conseguiu sacar dinheiro para pagar as contas. Quem não tinha, possivelmente já revê suas estratégias de investimento.

Reserva de emergência ficou esquecida nos últimos anos

“Ao brasileiro, historicamente, sempre faltou a visão de poupador. Isso decorre de uma falha na educação financeira que, acredito, tende a ser reduzida daqui para a frente, inclusive com o avanço do ensino nas escolas públicas e privadas”, diz Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

No entanto, além desta questão, Cruz aponta que a crise pegou também outro perfil de brasileiro desprevenido. Aquele que, animado pelos ganhos do mercado nos últimos anos, decidiu ser mais ousado e migrar a reserva de emergência para fundos e ações.

“A reserva de emergência ficou esquecida. Com o mercado aquecido e a maioria dos ativos com retornos acima do normal, o investidor não muito experiente e até o mais conservador se deixou levar pelos ganhos expressivos. Todo mundo quis surfar a onda. ‘Está todo mundo ganhando, não vou fazer parte desse boom?’ Então muita gente se deixou levar pela conversa dos altos ganhos dos amigos no bar”, avalia.

“A partir do coronavírus, acredito, as pessoas tenderão a olhar para a reserva de emergência com mais disciplina”, diz.

Mas, afinal, o que é a reserva de emergência?

A reserva de emergência é, como o nome diz, aquele montante que deve ser deixado aplicado e só utilizado em último caso.

Em uma crise inesperada, como a atual do coronavírus ou, por exemplo, diante da perda do emprego, o investidor pode recorrer a este dinheiro para pagar suas contas e manter seu sustento por um período.

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Mas e se nada acontecer? Melhor ainda. A reserva segue guardada e compõe a carteira como um investimento defensivo. Os investimentos defensivos são aqueles que não rendem tanto quanto os investidores gostariam durante as altas das bolsas. Mas, em contrapartida, se revelam um porto-seguro nos momentos mais críticos.

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De quanto deve ser a reserva de emergência?

Os especialistas recomendam que o valor “guardado” garanta, no mínimo, seis meses de despesas do investidor ou da família, conforme a realidade de cada um. Por exemplo, se o custo de vida da pessoa for de mil reais ao mês, o ideal é que a reserva de emergência seja de, no mínimo, seis mil reais.

Paulo Filipe de Souza, assessor da EQI Investimentos, explica que a reserva de emergência é um dinheiro que você só pode aplicar em investimentos que não contenham riscos e que tenham liquidez muito elevada.

“Você pode precisar desse dinheiro a qualquer momento. Então precisa de uma liquidez de, no máximo, um dia”.

Ele cita como exemplos de investimentos com alta liquidez CDBs, fundos DI e LFT (letra financeira do Tesouro Direto).

Como formar a reserva de emergência?

Mariana Moraes, jornalista e tradutora, é exemplo de quem vem tentando entender seus próprios gastos para compor uma reserva de emergência.

Ela conta que o coronavírus foi positivo nesse sentido. “Além de reforçar a necessidade de fazer a reserva, a pandemia me deu uma outra noção, que é a dos reais gastos que tenho”, diz.

“Ao ficar em casa neste período, consegui até visualizar melhor quais são minhas contas essenciais. Isso me mostrou o quanto eu preciso para manter a família e quais são os gastos supérfluos que, em uma emergência, posso deixar de lado”, afirma.

Ela revela que tem a meta de chegar a uma reserva de seis meses de manutenção da família – composta por três pessoas: ela, marido e filha. Mas que, por enquanto, o montante representa apenas um terço disto, ou seja, dois meses.

“O que fiz foi, em dois meses em que tive mais trabalho e aumento de receita, separei este dinheiro extra. Agora, vou observar durante mais um mês como se comportam as minhas contas. Daí, então, vou definir para onde direcionar o dinheiro”, diz. “Dinheiro ‘sobrando’ para nós é novidade. Mas me mantenho firme nesta meta”, admite.

Coronavírus pegou brasileiro despreparado

De acordo com pesquisa Datafolha, o coronavírus expôs a falta de reserva emergencial dos brasileiros. Em levantamento feito em março, 69% dos entrevistados afirmaram que teriam seus rendimentos diminuídos nos meses seguintes por conta dos desdobramentos econômicos da pandemia.

Mas apenas 17% revelaram que teriam condições de se manter por pelo menos quatro meses caso deixassem de receber salário ou pagamento por seus serviços.

A pesquisa constatou que:

  • 17% conseguiriam se manter por três meses;
  • 19% conseguiriam se manter por dois meses;
  • 20% conseguiriam se manter por um mês;
  • 9% conseguiriam se manter por menos de um mês;
  • 11% conseguiriam se manter por menos de 15 dias ;
  • os outros 24% não souberam responder.

Gustavo Cruz confirma que o ideal seria que cada pessoa tivesse ao menos seis meses de renda garantida em sua reserva de emergência, mas que este cálculo é bem pessoal.

“Um solteiro jovem, por exemplo, não precisa da mesma reserva que uma família com filhos. Uma pessoa casada possivelmente tem o seu salário e o salário do cônjuge, então tem uma retaguarda maior. O importante é cobrir os custos básicos nas emergências”, diz.

Aposta no Tesouro Direto

Ana Luísa Oliveira Pontes, especialista em administração de serviços em saúde, é casada e tem dois filhos. Ela conta que começou a compor uma reserva de emergência no final de 2019.

A família tem por meta garantir 12 meses de reserva, garantindo gastos essenciais e de lazer. “Pensamos em uma reserva robusta, que nos mantenha com conforto, até pelo fato de termos filhos pequenos. Mas, até aqui, conseguimos compor um terço dessa meta”, revela.

Entre os investimentos disponíveis, ela optou pelo Tesouro Direto Selic. A escolha foi feita após estudar sozinha sobre o assunto, falar com os amigos, e levar um verdadeiro “susto” com ações no último mês.

“Na virada do ano, começamos a compor uma carteira, entre fundos imobiliários e ações. Mas, leigos que somos, levamos um susto em março, quando o Covid revirou nossas vidas e o mercado”, diz. “Por sorte, a reserva de emergência nos trouxe calma. Agora, seguimos focados nela. Decidimos não mexer mais em nada e aguardar as coisas se acalmarem”, revela.

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