Renda fixa, multimercado e renda variável: XP consulta 170 gestores

Osni Alves
Jornalista | osni.alves@euqueroinvestir.com
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A XP Investimentos consultou 170 gestoras para elaborar um relatório que trata de renda fixa variável, multimercados e internacional, formatando um panorama do cenário econômico frente à pandemia do coronavírus.

Conforme a empresa, o documento contempla visões e posicionamentos dos principais gestores do mercado local e internacional. “Dentro de cada seção, há fundos de subestratégias diferentes, que foram agrupados por ordem alfabética das gestoras”, informou.

O relatório pode ser lido na íntegra aqui.

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Renda fixa

No segmento de renda fixa, o documento inicia elencando que o “coronacrise” atingiu fortemente os ativos desse setor. Com isso, curvas de juros futuros abriram, levando a fortes quedas em títulos prefixados e naqueles atrelados à inflação (NTN-Bs).

Conforme o relatório, o IMA-B 5+, índice que reúne as NTN-Bs com prazo igual ou superior a cinco anos, caiu 10,93% no mês.

Já em relação aos ativos de crédito privado, o movimento foi de forte correção no mercado secundário de debêntures e de letras financeiras, principalmente para papéis mais líquidos, geralmente os de empresas com melhor risco de crédito, as chamadas High Grade.

Na sequência, o IDEX-CDI, índice criado pela JGP que leva em consideração debêntures líquidas do mercado e indexadas ao CDI, caiu 7,73% em março, marcando de longo o pior mês da série.

“Vale lembrar que não houve nenhum evento de crédito relevante no mercado em que a maioria dos fundos atua”, informou a XP.

E acrescentou: “isso porque a situação financeira das empresas emissoras ainda continua saudável e a maioria delas mantém a capacidade de honrar seus compromissos, mesmo com a economia paralisada por um tempo.”

Em geral, os gestores de fundos High Grade têm focado em manter as carteiras com ativos bastante líquidos de empresas que conseguirão atravessar a crise com menos dificuldades, além de buscarem uma posição de caixa mais elevada.

Assim como nos últimos meses, eles têm frisado que a queda atual nos preços dos títulos significa melhores retornos no médio prazo. Porém, continuam enfatizando que os papéis e os fundos vão continuar com uma volatilidade mais alta, principalmente no curto prazo.

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Já os fundos de crédito High Yield, aqueles com títulos de maior risco de crédito e/ou com menor liquidez, ainda não sofreram tanto com o aumento de volatilidade em geral, principalmente pelo fato de os ativos de suas carteiras não possuírem marcação a mercado como a dos títulos mais líquidos negociados pelos fundos High Grade.

Em relação à evolução do risco de crédito dessa classe, é importante ressaltar que os ativos de crédito estruturado, como o caso dos FIDCs, possuem estruturas capazes de suportar cenários de stress, como mecanismos de subordinação, e no atual ambiente de crise têm sido menos impactados. Por outro lado, os gestores têm focado em operações junto a setores que sejam mais resilientes à crise, monitorando diariamente o nível de inadimplência das operações.

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Multimercados

De acordo com o relatório, o mês de março foi desafiador para o grupo dos multimercados, que tiveram perdas relevantes em sua maioria. O Índice de Multimercados da Anbima (IHFA) caiu 6% no mês, o pior retorno mensal de seu histórico.

Para muitos gestores, a crise atual é considerada um cisne negro: evento bastante imprevisível, que tem potencialmente consequências severas. A maioria não previu as proporções no mundo e as medidas subsequentes de paralisação das economias globais, que levaram a um sentimento de pânico generalizado.

Entre os fundos de estratégia Macro – cujas teses de investimento são baseadas em cenários macroeconômicos – a crise atual criou uma verdadeira neblina diante da visão dos gestores, e os horizontes de investimento tiveram de ser encurtados. Esse processo, na ponta, intensificou a queda de preços dos ativos de risco.

O movimento expressivo de venda dos ativos e desmontagem de posições retirou parte da funcionalidade dos mercados. No agregado, o retorno médio dos fundos de estratégia Macro foi de -3,1% – amostra de 130 fundos da indústria – com intervalo de -23,8% a +12,2%. No campo negativo, as principais perdas foram em posições compradas em ações, seja no Brasil ou no mundo.

Do lado positivo, destacaram-se os gestores que mantiveram uma exposição direcional baixa no mercado de ações ou que se anteciparam e reduziram a exposição antes da forte deterioração da bolsa. No geral, hoje as posições mais comuns entre os portfólios são as que se beneficiam da queda dos juros, nominais ou reais, no Brasil.

Em linhas gerais, a expectativa dos gestores é de que a volatilidade no mercado se mantenha elevada no curto prazo. Por outro lado, após o movimento de queda, muitos fundos tiveram sua utilização de risco reduzida, e as opiniões predominantes são de que o nível de preços atuais dos ativos já incorpora condições de mercado bastante deterioradas. Nesse sentido, a assimetria está mais elevada para uma recuperação dos mercados.

Renda variável

Seguindo o documento, março foi um dos piores meses da história para as bolsas de valores ao redor do mundo. O agravamento do cenário de aumento de casos do coronavírus no mundo e a consequente recessão que será causada pelas medidas dos governos que tentam conter a propagação do vírus é a principal causa desse movimento.

Além disso, o mês foi marcado por uma das maiores quedas no preço do petróleo, que caiu 55% no período, por conta do desentendimento entre dois dos maiores produtores do mundo, Arábia Saudita e Rússia.

No Brasil não foi diferente. O Ibovespa teve o pior mês desde 1998 e caiu quase 30%. No início, a queda foi rápida e atingiu todos os setores da bolsa, o que levou boa parte dos gestores a reduzir o risco de suas estratégias. Com a paralização da economia, a maioria das empresas deve sofrer no curto prazo.

Mas, como a maior parte do valor de uma empresa está no longo prazo, gestores e analistas passaram a revisar seus modelos e chegaram à conclusão que, em muitos casos, as quedas tinham sido exageradas e surgiam ali ótimas oportunidades – que ainda se apresentam disponíveis, dado que a incerteza continua alta.

No geral, os gestores voltaram a aumentar suas exposições, mas estão cientes de que, no curto prazo, ainda haverá muita volatilidade por conta da incerteza sobre quando a atividade econômica voltará à normalidade.

No médio e longo prazos, porém, ainda acreditam que o investimento em ações é atrativo, tanto pelo preço atual das empresas quanto pelo nível dos juros no Brasil e no resto do mundo, que deverão ficar baixos por muito tempo.

No mês, todos os fundos de Renda Variável da plataforma tiveram retorno negativo. O que chamou atenção foi a grande dispersão de retornos dos fundos, que caíram entre 5,9% e 57,5%.

Os fundos que conseguiram se defender foram aqueles que vinham mais defensivos, com um caixa maior ou com proteções na carteira. Também se destacaram fundos que tinham posição vendida em setores mais vulneráveis à crise.

Os fundos Long Biased caíram, na média, 26,0%, um pouco melhor do que o fundos Long Only que tiveram uma queda média de 29,8% em março. Na Previdência, os fundos com limite de 49% em renda variável caíram, na média, 15,9%, nos que podem ter até 70%, a queda foi de 21,8%, e os fundos que podem ter até 100% em ações tiveram queda média de 30,8%.

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Internacional

No espectro internacional, o relatório aponta que em março os mercados globais foram assolados por uma crise mundial sem precedentes, com reflexo negativo nos fundos internacionais.

As incertezas geradas pela propagação do Covid-19 e o impacto nas grandes economias fizeram boa parte dos ativos despencarem por todo o mundo. Apesar da diversidade de estratégias internacionais e a característica de terem correlação baixa com os fundos locais em geral, durante períodos de crise é esperado que os fundos sofram em conjunto, pois as diferentes classes de ativo são impactadas simultaneamente.

Nesse ambiente, foram implementados diversos pacotes de estímulos monetários e fiscais em quase todos os continentes. Os principais bancos centrais agiram de maneira coordenada, reduzindo juros e injetando muita liquidez no sistema financeiro. Apesar das intervenções dos governos, o índice VIX, que reflete o nervosismo e a volatilidade nos mercados, atingiu o maior nível desde a última crise financeira mundial de 2008.

No período da crise, as principais bolsas de valores do mundo tiveram fortes quedas e ações de muitas empresas passaram a ser negociadas a preços e múltiplos muito abaixo de suas médias históricas. O índice acionário americano (S&P 500) teve um dos piores meses da sua história, fechando março com queda de -12,5%. Na Europa, as bolsas também tiveram quedas entre 10% e 15%.

Mesmo tendo anunciado um maior controle sobre a pandemia, a China viu sua principal bolsa de valores em Shangai cair -8,0%, em linha com a performance negativa de -10,5% do índice Nikkei, no Japão.

A percepção de maior risco de inadimplência das companhias e a corrida desenfreada por liquidez também impactaram os preços dos ativos de crédito, fazendo os prêmios de crédito (taxas exigidas no financiamento das dívidas) subirem abruptamente, com impacto negativo para os fundos de crédito global de forma geral.

Em linhas gerais, apesar do quadro turbulento sofrido pelos fundos internacionais, as perspectivas apontadas pelos gestores são de que países com maior espaço para implementação de estímulos monetários e fiscais – como os EUA – devem se recuperar da crise mais rapidamente e, neste momento de retomada, destacam-se as grandes gestoras globais, com equipes robustas e capazes de capturar as melhores oportunidades.