Reino Unido quer voltar a liderar livre-comércio

Victor Meira
Com formação em Ciências Sociais e Jornalismo, experiência em redação nas editorias de esportes, empregos, concursos, economia e política.

Crédito: Créditos: Getty Images

No final da próxima semana, o Reino Unido estará fora da União Européia devido ao Brexit. Deste modo, os britânicos pretendem se tornar o novo líder do livre-comércio. Uma tarefa muito ambiciosa, embora seja perigosa para a economia da ilha.

“Acreditamos fortemente no livre-comércio”, declarou o ministro de Finanças Sajid Javid durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O primeiro-ministro Boris Johnson entende  que o Brexit permitirá ao país voltar a ser um “Reino Unido global”.

“A partir do dia 31 de janeiro, trabalharemos com nossos amigos e sócios de todo o mundo e não somente com a UE”, destaca Jonhson, que reforçou sua equipe econômica para as negociações paralelas com Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Japão. Com a saída da UE, o Reino Unido poderá negociar os seus próprios acordos e cumprir com a promessa de “recuperar o controle” de sua política comercial.

Fora da realidade

O Observatório de Política Comercial britânica da Universidade de Sussex avalia que a promessa do governo conservador em fechar acordos que correspondam a 80% do comércio exterior do Reino Unido em até três anos seja “fora da realidade”. O gabinete de Jonhson deve renegociar os 40 acordos comerciais dos quais participava como integrante da UE, aproximadamente 11% do comércio exterior. Ele conseguiu renovar 20, ainda que seja com países menos importantes como o Canadá e o Japão.

“O Reino Unido quer mostrar resultados após o Brexit e é possível que acelere as discussões com muitos países. Com o Japão poderia ser o primeiro grande acordo assinado”, ressalta Mitsuo Fujiyama, economista do Instituto de Investigação do Japão. Com os japoneses especula-se que os britânicos poderiam copiar os mesmos compromissos firmados com a UE.

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Em um segundo momento, Londres também deveria iniciar conversas com muitos países africanos, e com a China, que impõe cada vez mais um domínio econômico.

No momento, um possível acordo com Pequim não parece ser uma prioridade. Poucos países ocidentais conseguiram chegar a um, e o Estados Unidos, que recentemente fechou um acordo com a China, só foi capaz de fazê-lo após muita tensão comercial.

Londres tem a intenção de olhar para além do continente, mais especificamente visando o Estados Unidos, que agora representa menos de 12% da sua economia externa.

Em documentos publicados no final de 2018, o conservador governo britânico reconheceu que no caso de ter um acordo de livre comércio limitado com a União Europeia, o seu Produto Interno Bruto (PIB) seria reduzido em 4,9% até 2034, comparando com as projeções econômicas caso não ocorresse o Brexit.  

Necessidade de escolha

A princípio o Reino Unido deverá priorizar acordo com a própria União Europeia até o final de 2020. Segundo informações da UE, não será possível negociar todos os setores econômicos em tão pouco tempo, sendo necessário que haja uma escolha. Com o Brexit, o Reino Unido quer encerrar a sua participação no mercado único europeu e na união aduaneira.

Javid informou que as empresas devem se adaptar, e Michel Barnier, o negociador-chefe da UE, alertou sobre os riscos de uma ruptura brusca caso as duas partes não entrem em consenso quanto a um compromisso até o final do ano. O bloco econômico europeu representa quase a metade do comércio exterior do país, sendo um mercado essencial para setores como o automotivo, alimentar e farmacêutico.

O resultado mais provável seria um acordo parcial que garantisse taxas e cotas nulas, “em troca de regras de comércio equivalentes” para um conjunto de produtos e um “roteiro para futuras negociações”, explica Gabriel Siles-Brügge, da Universidad de Warwick.

Na falta de um acordo comercial, as relações entre Bruxelas e Londres seriam regidas pelas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC), que são muito menos vantajosas por conter taxas muito mais elevadas para as mercadorias.

Ao mesmo tempo, as partes terão que entrar em acordo sobre a economia pesqueira e normas de segurança, além dos serviços financeiros, um setor que pesa muito para o Reino Unido e corre o risco de ser afetado por normas menos favoráveis.

 


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