Questão ambiental pesa no bolso, e não só na consciência do acionista

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.
1

Ao investir seu dinheiro em produtos financeiros, você apoia as atividades das instituições emissoras do ativo. No caso das ações da bolsa de valores, essa relação é mais óbvia, já que o acionista financia as atividades da empresa e seus planos de expansão. 

Por isso, muita gente se preocupa em escolher empresas éticas para investir, preferindo comprar ações das companhias que mostram compromisso com o meio ambiente e com a sociedade. 

Mas ao contrário do que parece, isso não é apenas uma questão de idealismo. Escolher empresas focadas em responsabilidade social e ambiental também é uma forma de garantir bons rendimentos no futuro.

Faça o Rebalanceamento de sua Carteira para outubro

Meio ambiente é assunto quente no exterior

A conta é muito simples. Os grandes investidores internacionais, como fundos de investimento globais, têm sido claros ao declarar sua preferência por ativos que tenham responsabilidade ambiental, social e governança (a famosa sigla ESG, em inglês). 

Empresas que vão no sentido contrário têm sido banidas das carteiras de investimentos desses fundos.

A BlackRock, maior gestora do mundo, divulgou uma carta emblemática no início de 2020. Nela, afirmou que vai desinvestir dos ativos com alto risco de sustentabilidade, como carvão para térmicas, além de endereçar as questões de governança e tratamento da força de trabalho. 

Monitore completamente sua Carteira

Além disso, a BlackRock avisou que vai votar contra a administração e os diretores quando as empresas não estiverem progredindo o suficiente nas divulgações relacionadas à sustentabilidade e nas práticas e planos de negócios ligados a ela.

Anunciada durante o Fórum Econômico Mundial de 2020, a carta da BlackRock foi um marco, segundo Celso Lemme, especialista em Finanças Ambientais do Coppead/UFRJ.

Na mesma ocasião, o fórum divulgou um estudo sobre a relação entre natureza e as áreas de negócios. Nele, mostrou que não existe empresa vencedora em sociedade derrotada.

Com o agravamento da situação climática no mundo, empresas que estiverem alinhadas com esses princípios terão vantagens competitivas. Não apenas para captar recursos no mercado, mas para existir e continuar crescendo seus negócios. 

BIS também sinalizou preocupação ambiental

Outro sinal importante foi a divulgação de um relatório BIS – Banco Central dos Bancos Centrais –  relacionando as mudanças climáticas e ambientais com a estabilidade do sistema financeiro internacional. 

Chamado de Green Swan (Cisne Verde), o documento remeteu à simbologia do cisne negro, usado no mercado financeiro para falar de eventos raros, difíceis de prever e controlar, e com efeitos devastadores. 

Todas estas manifestações ocorridas neste ano indicam que a preocupação com ambiente, social e governança vem ganhando relevância.

“Não é ainda uma atitude dominante no mercado. Mas a preocupação vem crescendo e não é apenas no discurso”, afirmou o professor da UFRJ, em entrevista ao site Eu Quero Investir.

Nova geração deve aumentar pressão

As empresas também devem enfrentar uma pressão cada vez maior da sociedade. Nos próximos 20 anos, os baby boomers (nascidos entre 1944 e 1964) vão transferir US$ 30 trilhões em riqueza para as gerações mais jovens, segundo a Forbes

A questão é que o padrão de consumo e o estilo de vida dos millenials é muito diferente dos pais. São jovens que não valorizam tanto deter ativos, e preferem pagar para utilizar serviços.

Um exemplo é que esses jovens não fazem questão de ter carro, em partes pela questão ambiental. “Esse contexto leva os mais jovens a terem uma visão de risco e retorno diferente, e se as empresas não se adaptarem, podem ser alijadas do mercado”, explica. 

Transição ambiental a caminho

Segundo ele, a transição não é fácil nem rápida para as empresas. No entanto, este processo tem ganhado velocidade e força.

De acordo com os especialistas, a atenção ao ESG pode impactar na precificação das empresas na bolsa. “Daqui a dez anos, isso é algo que repercute no lucro e na capacidade de competição das companhias”, afirma Delton Carvalho, professor de direito da Unisinos, pós-doutor em direito ambiental e direito dos desastres.

Ao mesmo tempo, empresas que continuarem dependendo de combustíveis fósseis ou se envolvam em escândalos ambientais podem sofrer grandes perdas financeiras.

Um caso emblemático foi o que ocorreu com a Vale em Brumadinho. “Não é a toa que empresas como Nike e Adidas estão buscando formas de produção sustentável”, afirma.

Enquanto isso, no Brasil

Ao mesmo tempo, o Brasil está vivendo uma crise ambiental avassaladora. Em meio a queimadas e desmatamento, o país está perdendo atratividade para os investidores estrangeiros. 

Junto com o desequilíbrio fiscal, a crise ambiental causou um quadro inédito de saída de recursos. De janeiro a agosto de 2020, US$ 15,2 bilhões deixaram o país. Foi o maior volume para o período desde que o Banco Central (BC) começou a compilar as estatísticas, em 1982.

Além disso, os investidores estrangeiros tiraram R$ 87,3 bilhões da bolsa de valores brasileira entre janeiro e 17 de setembro de 2020. O volume é quase duas vezes maior que o registrado em 2019. É a maior saída da série da B3, iniciada em 2008.

No final de junho, fundos de investimento que gerenciam mais de R$ 20 trilhões em ativos pediram, em carta aberta, que o Brasil suspenda o desmatamento na Amazônia. Segundo os fundos, a a perda da biodiversidade e as emissões de carbono representam um “risco sistêmico” aos seus portfólios. 

Carta semelhante foi enviada por um grupo de 17 ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central do Brasil. Outra carta foi assinada por chefes de 38 empresas nacionais e estrangeiras e de quatro entidades ligadas ao agronegócio.

A situação gerou um novo pedido de afastamento do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles pelo Ministério Público Federal (MPF).

Algumas empresas estão à frente 

Embora a situação climática no Brasil seja preocupante, algumas empresas estão atentas ao tema do ESG. Um dos setores que está preocupado em se descolar da imagem do desmatamento é o de frigoríficos.

Recentemente, a JBS prometeu desmatamento zero na Amazônia em cinco anos. A medida foi elogiada pelo BTG devido ao foco em ESG. No entanto, fundos de investimentos nórdicos avaliaram que o prazo é muito longo para ser considerado satisfatório.

Além disso, outras grandes empresas estão lançando programas para ampliar o controle do gado que compram das fazendas da Amazônia.

Segundo o Estadão, JBS, Marfrig e Minerva anunciaram projetos para tentar rastrear todos os bovinos que compram. O objetivo é evitar abater gado que tenha passado por fazendas localizadas em áreas desmatadas.

Em agosto, Bradesco, Itaú e Santander haviam declarado que não iam mais financiar empresas de carne que desmatarem.

Outro setor que divulgou iniciativas similares foi o de bens de consumo.

No último dia 22, um  grupo de 17 gigantes multinacionais de bens de consumo lançou  uma iniciativa global contra o desmatamento. Nela, varejistas e fabricantes se disseram contrárias à degradação florestal nas cadeias de suprimentos de commodities como óleo de palma, soja e embalagens de papel e papelão.

Sinais fortes, mas ainda começando

Segundo o professor da UFRJ, as declarações de todos esses setores são “sinais fortes” de que o Brasil vai avançar nesta área.

O gestor e sócio da Butiá Investimentos, Leandro Saliba, também avalia que o assunto está ganhando relevância no país. No entanto, o tema ainda não chegou com força aos pequenos investidores. “Tem muitas pessoas novas no mercado, mas elas também vão começar a chegar neste assunto”, explica.

Vale lembrar que o número de pessoas físicas na B3 quase dobrou no último ano. Naturalmente, elas ainda têm muito a aprender sobre investimentos, e em algum momento vão conhecer o assunto.

Se você ficou interessado em investir em empresas focadas em ESG, não deixe de conversar com seu assessor de investimentos.