Quase um milhão de “Eufrásias”: conheça a história da primeira investidora brasileira

Cristiane Donini
Socióloga, pesquisadora na área de Economia Comportamental e Psicologia Econômica.

A presença de mulheres investidoras em renda variável atualmente é a maior da história da bolsa de valores. Dos 3,2 milhões de CPFs registrados na B3, 29% pertencem a investidoras

Dados sobre investidoras em renda variável podem ser conferidos na pesquisa realizada pela B3, em agosto deste ano.

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Considerando que em 2018, as mulheres na bolsa de valores totalizavam 179,5 mil, o número atual é expressivo. Entretanto, é um avanço ainda tímido.

De acordo com o IBGE, as mulheres são 51,8% da população. Ainda assim, continuam sendo minoria no mercado financeiro.

Fatores socioeconômicos e culturais explicam essa disparidade. Um breve olhar sobre os números do IBGE quanto a renda, nível de desemprego, acesso à oportunidades de trabalho, entre outros, ajuda a entender o cenário ainda tão desigual entre mulheres e homens no mercado financeiro.

A presença de 1 milhão de mulheres investindo em renda variável é relevante. Por outro lado, sinaliza também o longo caminho a percorrer até que a presença feminina na bolsa reflita a sua representatividade na sociedade.

Este longo caminho, inclusive, teve uma pioneira: Eufrásia Teixeira Leite, a primeira investidora brasileira.

Continue a leitura para saber mais sobre a presença feminina na bolsa de valores.

A primeira mulher investidora brasileira

Eufrásia Teixeira Leite, carioca de Vassouras (RJ), nascida em 1850, foi uma das primeiras mulheres no mundo a investir em bolsa de valores.

De origem privilegiada, Eufrásia era neta do Barão do Campo Belo, fazendeiro de café e político brasileiro no século XIX.

Com o falecimento precoce dos pais, em 1873 a jovem e rica Eufrásia mudou-se para Paris. Nesta cidade, iniciou sua impressionante trajetória no mundo dos investimentos.

A história não fez justiça à importância da investidora. Em uma sociedade machista, ela sempre foi descrita como a “amante” do abolicionista Joaquim Nabuco, com quem namorou por 14 anos, quando nenhum dos dois era casado.

Sua importância como financista foi, por muito tempo, relegada ao segundo plano. Somente em 2019, graças à pesquisa de Mariana Ribeiro, autora do  livro Eu quero ser Eufrásia, a B3 e a ONU Mulheres reconheceram Eufrásia como a primeira investidora brasileira.

Eufrásia nunca se casou, nem teve filhos. Após sua morte, em 1930, seu testamento dividiu a herança entre três primos, funcionários, mendigos que viviam perto de suas residências de Vassouras (RJ) e de Paris, e instituições de caridade.

Além disso, boa parte do seu patrimônio foi destinado à própria cidade de Vassouras, para a construção de escolas e hospitais.

Uma mulher à frente de seu tempo

Em um cenário repleto de restrições e machismo, Eufrásia Teixeira Leite desafiou toda a lógica formal. Multiplicou a herança recebida do pai, e tornou-se bilionária.

No final do século XIX, as mulheres não tinham direitos civis básicos. Não podiam votar, nem dirigir. Cursar faculdade ou trabalhar só era possível com o consentimento do marido ou do pai.

Era um tempo em que as mulheres nem mesmo podiam circular dentro das bolsas de valores.

Para conseguir investir na bolsa de Paris, por exemplo, Eufrásia tinha um operador – Albert Guggenheim. Por ser mulher, ela só podia assistir aos pregões no segundo andar, de onde emitia suas ordens a Albert.

Os investimentos de Eufrásia

Durante os 55 anos em que investiu, Eufrásia operou em bolsas de valores de 17 países, com transações em pelo menos 9 moedas: Dólar norte-americano, canadense e chileno, Leu romeno, Libra esterlina do Reino Unido, Franco francês, belga e suíço, Réis brasileiro.

Eufrásia investia em títulos de dívidas públicas de governos. Além disso, também focava em debêntures e ações de empresas de variados setores, como transporte, tecnologia, petróleo, bancos, entre outros.

Após a morte da investidora, a soma total de seus bens, entre ações, títulos de dívidas e imóveis,  era equivalente a quase duas toneladas de ouro.

A história de Eufrásia Teixeira Leite pode ser conferida em detalhes no livro Eu quero ser Eufrásia, de Mariana Ribeiro que, por oito anos, realizou extensa pesquisa sobre a vida da financista.

O legado de Eufrásia para as mulheres investidoras

A história da primeira investidora da bolsa, deixa lições importantes sobre autonomia e foco nos objetivos:

  • Independência: numa época em que mulheres eram vistas como adornos, feitas apenas para casar e cuidar da família, Eufrásia não se submeteu. Ela não se deixou levar pela preocupação com “o que os outros vão pensar”. Em suma, permaneceu fiel ao seus próprios desejos.
  • Educação como pilar fundamental: a investidora soube usar seus privilégios. Focou em estudar e aprimorar os conhecimentos de que precisava para alcançar suas metas.
  • Diversificação: como vimos, Eufrásia expandiu fronteiras em busca de boas oportunidades em variados mercados.
  • Visão de longo prazo: os investimentos de Eufrásia focavam em ações de empresas voltadas a serviços e produtos essenciais. Ou seja, setores resilientes às crises, com fundamentos sólidos para atravessá-las, e apresentar resultados no longo prazo.

Apesar do privilégio de ter nascido rica, a investidora viveu em uma época onde tudo conspirava para relegar mulheres à condição de permanente inferioridade.

Ela poderia ter se conformado em seguir as normas sociais, casar-se e viver uma vida confortável com a herança recebida. Contudo, Eufrásia escolheu não se limitar. Decidiu ser protagonista de sua própria história, e trabalhou para derrubar os obstáculos.

As mulheres investidoras da atualidade

Atualmente, as investidoras brasileiras têm diante de si um cenário diferente daquele enfrentado por Eufrásia. Muitos direitos foram conquistados ao longo de décadas.

No entanto, ainda estamos longe de ter equidade. As mulheres ainda têm grandes desafios de ordem econômica e sociocultural a vencer, para se consolidarem como grandes investidoras.

Apesar do contexto, existe uma movimentação positiva em curso. De acordo com levantamento da B3, as mulheres que estão investindo na bolsa de valores, têm alcançado performance superior à masculina.

Isso ocorre porque elas são mais pacientes, cuidadosas e focadas no longo prazo. Mulheres giram menos seus investimentos, o que resulta em ganhos mais expressivos numa linha de tempo maior.

O objetivo primordial da bolsa de valores é propiciar que empresas com bons fundamentos e projetos sólidos, recebam investimentos que permitam seu crescimento e, consequentemente, o desenvolvimento econômico do país.

O perfil predominante das mulheres investidoras em renda variável vem ao encontro desse objetivo.

Dessa forma, investir em educação financeira e políticas socioeconômicas focadas no público feminino, promoverá muito mais do que simples equidade de gênero entre investidores.

Iniciativas assim, podem criar um país com muitas Eufrásias e com robustos ganhos para a economia real.

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