Qual a tendência do dólar para 2020

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.

Depois de uma forte escalada nas últimas semanas, o dólar inverteu o movimento e começou a cair, chegando a um patamar inferior a R$ 5. O movimento pegou muita gente de surpresa, até gestores de fundos e traders do mercado.

A baixa no preço do dólar abre uma janela de oportunidade para os investidores que desejam ter uma parte da sua carteira alocada em ativos ligados ao dólar, com o objetivo de proteger seus investimentos de choques internacionais.

Mas esta janela não deve ser muito longa, pois ainda há espaço novas escaladas do dólar daqui para frente.

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Para entender o que está acontecendo com a moeda norte-americana e como você pode aproveitar este momento para melhorar sua estratégia de investimentos, confira as dicas dos especialistas ouvidos pelo site Eu Quero Investir.

Por que o dólar inverteu a tendência

Em primeiro lugar, a queda expressiva do dólar frente ao real está sendo causada pela melhora do cenário internacional. A retomada das atividades nas economias europeias foi um dos principais motivos para o maior otimismo. Da mesma forma, dados econômicos melhores do que o esperado animaram o mercado.

Por exemplo, na União Europeia, a taxa de desemprego subiu menos que o esperado, enquanto nos Estados Unidos o corte de vagas foi menos grave do que o antecipado. Ao mesmo tempo, novos pacotes de estímulo à economia europeia completaram uma sequência de notícias boas na semana passada.

A atenuação da guerra comercial entre China e Estados Unidos também levantou os humores. A euforia ajudou a valorizar não apenas o real, mas também as bolsas de valores mundiais.

Ninguém esperava

O cenário externo mais positivo levou o dólar a uma queda rápida na semana passada. O movimento foi mais intenso do que o antecipado pelo mercado. Segundo o trader profissional e estrategista chefe do grupo Laatus, Jefferson Laatus, a queda do dólar pegou muitos investidores de surpresa.

“Muita gente estava posicionada na compra e acabou stopando posições porque não acreditava que o dólar ia se aproximar tanto dos R$ 5”, afirma. Ele se refere ao movimento de stop loss, em que os fundos programam resgates automáticos quando os ativos atingem determinados preços para evitar maiores perdas.

Instabilidade à frente

O dólar promete trazer muitas surpresas daqui para frente, e os especialistas acreditam que novas escaladas da moeda podem ocorrer.

Um dos motivos é a grande incerteza causada pela pandemia mundial, que ainda pode trazer efeitos imprevisíveis, como uma possível nova onda de casos da doença. Outras questões colocam incertezas nesta conta, como a briga comercial entre Estados Unidos e China.

No front brasileiro, o que pode impulsionar o dólar novamente é a queda da taxa de juros. Depois de chegar a 3%, o mercado espera um novo corte de pelo menos 0,75% na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

Vários especialistas do mercado já declararam que esperam que a Selic fique abaixo de 2% até o final do ano.

Com isso, os investidores têm uma razão adicional para retirar o capital dos investimentos no Brasil.

Isso ocorre porque a Selic é a taxa referência para a rentabilidade de muitos tipos de investimentos em real. Com isso, a atratividade local diminui ainda mais.

Com menos dinheiro estrangeiro entrando no país, a oferta de dólares no mercado nacional diminui e eleva a cotação do dólar.

“Isso pode fazer o dólar retomar preços. Mesmo que não chegue a R$ 6, pode ficar acima de R$ 5”, afirma Laatus.

Janela pode ser rápida

balanços bolsa

A janela de preços do dólar abaixo de R$ 5 pode ser algo temporário, segundo os especialistas. Isso porque o bom humor do mercado está prevalecendo neste momento, mas é algo que muda muito rápido.

Vale lembrar que existe uma crise política no Brasil que tende a afugentar investidores estrangeiros do país, levando o dólar para cima novamente.

Segundo a economista do Banco Ourinvest, Cristiane Quartaroli, a reação positiva do mercado às boas notícias internacionais na semana passada não é totalmente justificável. “Na nossa avaliação, é uma reação exagerada, tendo em vista que o quadro da doença ainda é bastante ruim”, destaca.

Ela citou ainda o cenário político conturbado no Brasil e os dados econômicos brasileiros que ainda serão anunciados como pontos de pressão para a cotação do dólar no futuro.

Vale lembrar que o Produto Interno Bruto brasileiro pode cair 6,25% em 2020, segundo o Relatório Focus do Banco Central.

Por esta razão, o Banco Ourinvest mantém a projeção de dólar a R$ 4,95 até o final do ano, com muita volatilidade no caminho.

O diretor de estratégia e Inovação da Meu Câmbio, Mathias Fischer, acredita que o dólar agora pode ficar na faixa de R$ 5, esperando novas notícias sobre a evolução dos casos ao redor do mundo e sobre o quadro político no Brasil. “O mercado ainda está muito volátil e qualquer notícia tende a mexer nos preços rapidamente”, destaca.

Já o estrategista da Laatus diz que o dólar pode ficar entre R$ 4,20 se “tudo der certo”, mas também pode chegar a R$ 5,50. “O cenário é muito incerto”, diz.

O papel do dólar como proteção

Agora que você entendeu o que está acontecendo com o dólar, vamos explicar como isso pode afetar sua estratégia de investimentos.

Primeiramente, é importante saber que os investimentos atrelados ao dólar são vistos como proteção contra possíveis choques nos mercados.

Isso porque os investidores de todo o mundo enxergam o dólar como um dos ativos mais seguros do mundo. Por isso, quando uma crise derruba todos os mercados, o dólar tende a se valorizar. 

No entanto, é importante ir com calma antes de se expor ao dólar. Afinal, a cotação da moeda é totalmente imprevisível. Por isso, os ativos atrelados ao dólar devem corresponder a uma pequena parcela da sua carteira de investimentos.

De acordo com os especialistas, o momento atual é interessante para quem deseja ter este tipo de proteção. O ideal é comprar produtos dolarizados aos poucos, segundo Fischer.

“Para investidores que buscam proteção ou diversificação em produtos dolarizados, agora é um bom momento para iniciarem o processo, não fazendo tudo de uma vez, mas aproveitando para alocar um pedaço (ou proteger) do portfólio”, explica.

Como ficar exposto à alta do dólar

Existem várias formas de lucrar com a valorização da moeda norte-americana no mercado financeiro. Algumas delas são mais arriscadas que outras.

Confira quais são elas nesta matéria e escolha aquela que mais combina com seus objetivos.

Certificado de Operações Estruturadas

Mais conhecidos como COE, o Certificado de Operações Estruturadas é um produto emitido por bancos que mescla componentes de renda fixa e variável.

variedade é grande. Alguns deles são feitos para lucrar com a alta do dólar, pois têm dentro de sua cesta aplicações nesta moeda.

A vantagem é que a maioria dos COE têm capital protegido. Ou seja, o investidor recebe de volta todo o valor investido, mesmo que ocorra uma perda no investimento.

Neste caso, o único prejuízo que o investidor sofre é ter deixado de lucrar com outro investimento no período que investiu no COE.

Antes de comprar, sempre verifique se o COE tem capital protegido, pois existem COEs sem esta proteção.

Já o lado negativo é que o COE não é protegido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Se o banco emissor quebrar, o investidor não sabe se terá seu dinheiro de volta.

Por isso, outra dica importante é escolher com cautela a instituição emissora do COE.

As informações mais importantes sobre este produto você encontra em um documento chamado DIE (Documento de Informações Essenciais).

Fundos Cambiais

Uma opção mais óbvia para lucrar com a alta do dólar é investir em fundos cambiais, que acompanham a variação da moeda.

Este tipo de fundo investe pelo menos 80% da sua carteira em ativos relacionados a moedas estrangeiras. O dólar é a moeda mais comum nesta modalidade.

Estes produtos são considerados arriscados, justamente por oscilar ao sabor do câmbio.

A taxa de administração varia de acordo com cada instituição. É possível encontrar fundos desta modalidade com aplicação mínima de R$ 500.

Dólar Futuro

O mercado de dólar futuro é uma maneira eficaz de lucrar com a alta do câmbio. No entanto, é importante destacar que esta forma de investimento é de alto risco e exige maior preparo do investidor.

Este mercado funciona da seguinte forma: o investidor pode assumir uma posição de compra ou de venda do contrato futuro da moeda.

Quem assume a posição comprada do contrato, ganha com a alta do dólar e perde com a queda. Se a posição for de venda, o investidor ganha com a queda do dólar e perde com a alta.

Esta negociação ocorre na B3 e exige que o investidor tenha uma conta em uma corretora de valores para operar. Trata-se de um mercado muito volátil e de alta liquidez.

A fonte de riscos (e ao mesmo tempo a vantagem) vem do fato de que o investidor opera de forma alavancada. Isso significa que ele precisa de um montante pequeno de dinheiro para movimentar grandes quantias.

Em outras palavras, você pode ganhar muito mais do que investiu. O problema é que o tombo também será maior do que o valor investido. Confira mais detalhes: