Projeções para Selic chegam a 8,5% ainda em 2021; entenda o que acontece nesse cenário

José Azevedo
Jornalista especializado em economia.
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Crédito: Divulgação/Banco Central

Apesar de o Banco Central ter iniciado em março último um novo ciclo de alta da Selic, a taxa de juros “oficial do Brasil” (tornando a renda fixa mais atraente), a inflação continua avançando no país – em julho, o IPCA, principal medidor da variação de preços, fechou em 0,92%, maior número registrado desde 2002 e acumulando alta de 8,99% em 12 meses. 

Com isso, muitas casas acabaram por reajustar suas perspectivas para a taxa de juros ainda neste ano: o Bank Of America, por exemplo, foi uma das instituições que agora espera que o banco central eleve os juros ainda para 8% em 2021. “Essas revisões devem-se a recentes surpresas sobre os preços administrados (especialmente custos de energia)”, afirmaram os analistas. 

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A Genial Investimentos foi no mesmo caminho e a XP Asset afirmou ver mais chances de a Selic chegar a 8%. Em pesquisa realizada pelo Valor, a Selic a 8% foi o ponto-médio entre as apostas dos economistas – apesar de a maioria ainda ver essa taxa em 7,75%. 

A Ativa Investimentos antes da divulgação do IPCA-15 de agosto, uma prévia ao índice da variação de preços, trabalhava com uma Selic até o fim do ano em 7,5%. Após a publicação, que mostrou uma aceleração para 0,89%, porém, a casa passou a apostar em algo próximo a 8,5%, levando também em consideração as novas bandeiras de energia elétrica impostas pelo Governo Federal para conter a crise hídrica.

“Como avaliamos que o Banco Central é comprometido com sua meta de inflação e fará o que for necessário para conduzir o IPCA para a meta de 3,5% no ano que vem, ao invés de elevarmos a projeção para o IPCA de 2022, que seria o produto da inércia da alteração promovida no IPCA deste ano, resolvemos alterar a perspectiva de Selic para 2021”, afirmou Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa, em artigo. 

“Em conclusão, nosso cenário piorou em agosto e o fiscal segue gerando temores de descalabro”, completou. 

Há quem afirme que, no caso de o fiscal continuar piorando, a Selic pode chegar a 9,5% no ano que vem.

Renda variável acaba ficando menos interessante para investidores mais conservadores

Tudo isso, claro, acaba por prejudicar a bolsa de valores e outros investimentos em renda variável como os Fundos Imobiliários – quanto mais a renda fixa dá de retorno, menos interessante a renda variável fica e há uma leve tendência de saída de capital da bolsa de valores.

“O elefante entrou na sala e não tem mais como ignorar, a tendência é alta da Selic, que ficou tanto tempo em dois dígitos e depois chegou aos 2%. Acreditamos que para aquele investidor mais conservador, ter uma parcela maior em investimentos atrelados aos juros faz total sentido”, disse Fábio Fernandes, sócio-fundador da Delta Flow Investimentos, ao E-Investidor.

Novo cenário para Selic pode acionar gatilho de mudança da poupança

Essas mudanças na visão de como 2021 se encerrará quanto à política monetária muda, como já mencionado, a perspectiva dos investidores. No caso de a projeção da Ativa se consolidar, por exemplo, a poupança pode voltar a chamar atenção – apesar de nunca ter, exatamente, deixado de chamar: mesmo tendo dado prejuízo recentemente, valorizando bem menos que a inflação, grande parte dos brasileiros continuou deixando parte do seu patrimônio nela. 

Quando a Selic é igual ou menor que 8,5% ao ano, a poupança rende o equivalente a 70% da taxa, somada à variação da TR (Taxa Referencial), uma taxa de juros de referência, que hoje está em zero. 

Como a Selic atual, por exemplo, é de 5,25% ao ano, a poupança rende hoje 3,68% a cada 12 meses. Uma aplicação de R$ 1.000,00 vai daria um rendimento de R$ 36,80.

Se a Selic for maior que 8,5%, porém, a poupança passará a render 0,5% ao mês mais a TR. Isso vai representar um rendimento de cerca 6,17% ao ano. Uma aplicação de R$ 1.000,00 vai render, ao fim de doze meses, R$ 61,70.

Essa regra para as cadernetas de poupança foi definida em 2012, com os aportes feitos nessas contas antes desta data ainda pagando 6,17% ao ano mas os posteriores rendendo menos.

No caso de a Selic ultrapassar 8,5%, aportes na nova caderneta e na velha começarão a render de maneira parecida. 0,5% ao mês mais a variação da TR – que tem como principal variável as taxas utilizadas nos CDBs das trinta maiores instituições financeiras do Brasil, ou a Taxa Básica Financeira (TBF), que tende a subir se a inflação continuar a crescer.

A verdade é que a poupança teria chance de sair favorecida se não houvesse essa mudança nos cálculos entre os dois patamares. Ao se levar em consideração uma Selic de 9%, por exemplo, R$ 1 mil investido em uma caderneta que rende 70% da taxa oficial de juros renderia 6,3% ao ano, ante 6,17% ao se usar o novo cálculo. 

De qualquer forma, o recomendado pela maioria dos especialistas é que os investidores continuem mantendo suas aplicações na poupança apenas como reserva de emergência – a inflação, atualmente, continua maior do que o rendimento da caderneta.

“Ainda que a poupança passe a render mais, há opções em renda fixa que acompanham a taxa Selic e, portanto, também se beneficiam dessa alta”, disse Luciane Almeida, especialista em investimentos e educação financeira do PagBank, ao Uol. 

Investidor interessado em renda fixa pode procurar outras opções

A poupança, conforme as regras de definição, tende a render menos do que a Selic, enquanto outros títulos, normalmente, pagam mais do que a taxa imposta pelo Banco Central. “Vale o investidor comparar o rendimento da poupança também com outros produtos, como CDB de liquidez diária e Tesouro Selic”, explicou a especialista. 

Manter muito dinheiro na poupança tende a ser negativo. As cadernetas não costumam pagar rendimentos melhores do que outras opções que o investidor tem ao seu alcance e, mesmo no cenário atual, o provável no primeiro momento é que a poupança continuará trazendo, para aqueles que “investem” nela, desvalorização – o IPCA, que puxa a alta da Selic, está ainda muito elevado.

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