Produção industrial tomba 9,1% em março, maior queda em dois anos

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Wikimedia

A produção industrial brasileira teve um recuo de 9,1% de fevereiro para março. O resultado leva o patamar de produção a retornar a nível próximo ao de agosto de 2003.

Este também foi o pior resultado para um mês de março desde 2002 e a maior queda já registrada desde maio de 2018 (quando a leitura foi de -11%).

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) nesta terça-feira (5), o tombo da indústria reflete os efeitos da desaceleração da economia em decorrência da pandemia de coronavírus.

produção industrial

Na comparação com março do ano passado, a indústria recuou 3,8%. No acumulado do ano até março, a produção industrial registra -1,7%. Em 12 meses, o recuo é de 1%.

“O impacto da pandemia fica evidente quando se compara março com fevereiro. A taxa é fortemente negativa e representa a queda mais intensa desde maio de 2018. Naquele ano, houve a greve dos caminhoneiros”, explica o gerente da pesquisa, André Macedo.

Todas as categorias econômicas atingidas

O recuo alcançou todas as grandes categorias econômicas e 23 dos 26 ramos pesquisados.

A influência negativa mais relevante veio de veículos automotores, reboques e carrocerias, com queda de 28% na produção.

O segmento foi especialmente afetado pelas paralisações na produção. E teve a maior queda desde maio de 2018 (-29%). Com isto, a expansão de 7,8% acumulada nos dois primeiros meses de 2020 foi completamente eliminada.

Outras contribuições negativas vieram de artigos do vestuário e acessórios (-37,8%), de bebidas (-19,4%), de couro, artigos para viagem e calçados (-31,5%), de produtos de borracha e de material plástico (-12,5%). Também de máquinas e equipamentos (-9,1%), de produtos de minerais não-metálicos (-11,9%), de produtos têxteis (-20,0%), e de móveis (-27,2%).

Ainda de outros produtos químicos (-4,7%), de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-10,9%), de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-10,6%), de produtos de metal (-7,5%), de produtos de madeira (-16,1%), de metalurgia (-3,4%), de indústrias extrativas (-1,6%) e de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-7,2%).

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Os ramos de impressão e reprodução de gravações (8,4%), de perfumaria, sabões, produtos de limpeza e de higiene pessoal (0,7%) e de manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (0,3%) assinalaram os avanços na produção.

produção industrial

Tá, e aí?

Em relatório da XP, a corretora afirma que a queda abrupta da produção industrial em março chama a atenção, já que as medidas de isolamento social começaram a ser aplicadas apenas na metade do mês.

“O resultado reforça a mensagem de que a deterioração da atividade econômica brasileira deve acontecer de forma mais intensa do que o esperado, contribuindo para uma contração ainda maior do PIB nesse ano”, afirma a XP.

Os destaques da pesquisa para a corretora são estes:

  • O resultado foi puxado principalmente, pela queda na produção de bebidas (-19,4%), fumo (-19,7%), têxtil (-20%), vestuário (-37,8%), calçados e artigos de couro (-31,5%), veículos automotores (-28%) e mobiliário (-27%).
  • As únicas categorias que apresentaram expansão no mês foram impressão e reprodução de gravações (+8,4%), perfumaria, cosméticos e sabões (+0,7%) e manutenção, reparação e instalação de equipamentos (+0,3%).
  • Todas as grandes aberturas da indústria performaram mal em março, com destaque para os bens de capital (-15,2%), puxados principalmente pela produção de equipamentos de transporte (-16,2%), e para os bens de consumo duráveis (-23,5%).
  • A construção civil, que vinha experimentando uma recuperação bastante gradual nos últimos meses, apresentou contração de 10,7% na comparação mensal de março.
  • Refletindo a queda generalizada e mais intensa do que o esperado da indústria brasileira no mês, os nossos índices de difusão mostraram uma redução abrupta da quantidade de setores que vinham crescendo consistentemente nos últimos meses.
  • Olhando para frente, esperamos que as categorias de bens de consumo duráveis e bens de capital sejam as mais prejudicadas pela pandemia e pelo isolamento social.

Para Victor Beyruti Guglielmi, economista da Guide, o “pior ainda está por vir”. “O resultado da produção industrial de março confirmou as projeções mais pessimistas para o mês, ilustrando os impactos catastróficos que o fechamento dos negócios está tendo sobre a economia brasileira”, afirmou em relatório.

“Como agravante da situação, o mês de março foi caracterizado apenas pelo início das medidas de contenção, que ficaram mais fortes ao longo do mês e atingiram todo o país até abril. Isto combinado com o dado de nível de utilização de capacidade instalada da indústria (NUCI) da FGV, que apontou para o maior nível de ociosidade do setor em 20 anos em abril, acreditamos que o pior ainda está por vir”, apontou.

 

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