Produção de veículos cai 21% em março devido coronavírus, diz Anfavea

Osni Alves
Jornalista | osni.alves@euqueroinvestir.com
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Foto: Produção de veículos cai 21% em março devido coronavírus, diz Anfavea

O impacto do coronavírus na produção de veículos no país fez o setor recuar 21% em março frente igual período de um ano atrás.

Já na comparação mensal, a queda foi menos brusca, sendo 7% em março ante fevereiro deste ano.

O levantamento é da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) e foi divulgada na manhã desta segunda-feira (6).

Os dados mostram que foram produzidas 190 mil unidades, contra 240,8 mil em igual período de 2019.

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Parada na produção

Presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes disse que a queda não foi causada por falta de componentes, mas pela parada da produção.

“Já no mês de março, toda a indústria automotiva brasileira suspendeu suas operações como prevenção à Covid-19, bem como para não sobrecarregar o sistema público de saúde”, declarou.

E acrescentou: “a situação vai ser mais impactante no mês de abril.”

Já as vendas caíram 16,8% em março ante fevereiro e 21,8% ante março de 2019.

Segundo Moraes, o segmento deverá ter recuo ainda mais acentuado nas próximas divulgações. Isso porque, na percepção dele, o impacto do coronavírus ainda não atingiu seu ápice, o que deve ocorrer neste mês de abril.

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Números mês de março

Em março deste ano foram emplacados 163 mil veículos, queda de 19% ante fevereiro, e recuo de quase 22% frente igual período de 2019.

“A primeira quinzena de março foi boa, a economia estava rodando normalmente, havia emplacamento de 11 mil unidades dia, aproximadamente, um ritmo muito bom”, disse.

“Porém, na segunda quinzena de março houve forte impacto da questão coronavírus no Brasil. Vários Estados não consideraram no primeiro momento a rede de concessionários como atividade essencial”, frisou.

E disse mais: “por conta disso, as venda de peças e serviços deveriam ser mantidas, porque temos frota circulante no brasil e caminhões distribuindo alimentos, combustíveis e outros, além de manutenção de ambulâncias e outros.”

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Conforme Moraes, o segmento também encontrou dificuldade junto aos Detrans e foi necessário implementar mecanismo mais simples de licenciamento. Isso porque o país entrou definitivamente na fase da nova placa Mercosul no período.

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Tá, e Aí?

Economista-chefe do Banco Modalmais, Alvaro Bandeira afirma que há muitos indicadores negativos e um receio quanto ao futuro próximo. Mas, traz uma previsão alentadora.

“Nem todas as notícias são más. James Bullard do FED de St. Louis [escritório do Banco Central dos EUA no Missouri] diz enxergar forte retração econômica no primeiro semestre, mas também enxerga “boom” para o quarto trimestre de 2020”, disse.

Entretanto, Bandeira fez uma ressalva: “Com exceção dessa, todas as demais projeções para o mundo são péssimas.

O economista lembrou que todos os indicadores de atividade industrial e serviços (PMI e ISM) divulgados durante a semana passada vieram em queda. “Menos o da China com o início de retomada das atividades.”

E acrescentou: “alguns vieram melhores que o projetado, mas também não significam tanto diante da dimensão que a pandemia está tomando na economia. Os países emergentes sofrem com as saídas precipitadas de recursos, mas o FED volta a ampliar a oferta de moeda com recompra de títulos em mãos de estrangeiros.”

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Mercado interno

Quanto ao mercado interno, Bandeira aponta a falta de um coordenador para a situação de crise e as medidas anunciadas pela equipe econômica são dispersas e demoram a tramitar e chegar em quem realmente está necessitando.

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“Também parecem que serão insuficientes e terão de serem reforçadas, principalmente se o isolamento demorar mais tempo como se prevê.”

Na economia, a previsão do governo é que com os esforços de crise o déficit primário de 2020 atinja R$ 419,2 bilhões, mas isso é o menos importante no momento. Porém, depois o governo terá que cuidar disso e encaminhar as reformas que ficaram esquecidas.

“A realidade é que até aqui, tudo que foi anunciado está atrasado ou esbarra na burocracia. Por conta disso, os investidores estrangeiros seguem retirando recursos da Bovespa e crescendo aposta no dólar”, frisou.

Isso porque até a sessão de 31 de março os investidores estrangeiros já tinham sacado em 2020 R$ 64,3 bilhões da Bolsa, enquanto número de investidores cadastrados na B3 crescia para 2,2 milhões de pessoas.

O ministro da Economia, Paulo Guedes. fala à imprensa no Palácio do Planalto

Contaminação desenfreada

Segundo especialistas em saúde, disse Bandeira, a pandemia ainda não atingiu o ápice e o grande medo é a contaminação desenfreada em países pobres e emergentes. Os EUA, que estão na liderança das medidas para reduzir o impacto da pandemia, estimam que as próximas duas semanas serão cruciais para o país e as projeções de recessão são drásticas até o segundo trimestre.

“Todos os países que saíram na frente em medidas já começam a criar a percepção que o esforço terá de ser ainda maior. Essa é a preocupação, por exemplo, do FMI [Fundo Monetário Internacional] que registrou fuga de capitais de países emergentes da ordem de US$ 900 bilhões. Ele que dispõe de US$ 1 trilhão para programas, está assustado com as demandas que estão chegando”, ressaltou.

E disse mais: “na realidade, esse é um momento de forte desequilíbrio dos mercados e de investidores tentando buscar proteção, o tal “fly to quality”, quem ninguém sabe muito bem onde está.”

Recomendação

Conforme Bandeira, será preciso enxergar quando os mercados assumirão menor volatilidade e se alcançará maior equilíbrio, principalmente no câmbio.

“Para aqueles que gostam de assumir riscos e obter retornos de mais longo prazo, o momento parece interessante para compras lentas e progressivas, aproveitando momentos de maior precipitação dos preços”, disse.

Em termos de Brasil, frisou, há falta de uma figura, um coordenador geral da crise para colocar ordem nos “dinheiros” que são escassos, direcionando para setores mais carentes. “Além disso, falta agilidade na transferência dos recursos, seja pela burocracia reinante, pelo tempo do congresso em votar medidas, ou ainda pela desconexão de alguns membros da equipe.”

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O presidente

De acordo com ele, o presidente deveria gastar esforços em dialogar com os demais poderes e de forma uníssona decidir os melhores caminhos.

“A decisão de orçamento de guerra parece ser a melhor para segregar despesas circunstanciais das estruturais. Só assim poderemos, mais à frente, iniciar a retomada da reestruturação.”

E concluiu: “da ótica da análise técnica, só podemos identificar que seria bom não perdermos o patamar próximo do último fundo de poço, sob pena dos mercados acelerarem quedas.”

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