Por que os Correios atraem gigantes de e-commerce e logística?

Giovanna Castro
Jornalista formada pela UNESP.
1

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Divulgação

O processo de privatização dos Correios vem atraindo o interesse de empresas do setor de e-commerce e de logística que atuam no Brasil.

As empresas de e-commerce tiveram um grande crescimento nos últimos anos, mas viram seus números serem alavancados, sobretudo, durante a pandemia.

Com o fechamento de lojas físicas no varejo, por algumas semanas entre março e abril, e a redução da circulação de pessoas nas ruas, por conta do distanciamento social, o brasileiro comprou como nunca na internet.

Monitore completamente sua Carteira

Segundo dados da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm) e Movimento Compre&Confie, a quarentena fez com que o faturamento do varejo digital crescesse 56,8% de janeiro a agosto deste ano sobre o mesmo período do ano passado.

Assim, o montante faturado somou R$ 41,92 bilhões, enquanto o número de transações efetuadas cresceu 65,7%, para 105,6 bilhões nos seis primeiros meses de 2020.

Dessa forma, a projeção para o ano de 2020 saltou de 18% para 30% no acumulado anual, segundo Abcomm e Movimento Compre&Confie.

Confira principais Ações para investir em Outubro

Em meio a tudo isso, as vendas e o valor das ações de Magazine Luiza (MGLU3), Via Varejo (VVAR3) e B2W (BTOW3) chegaram no seu valor mais alto da história neste período.

E em níveis muito acima do patamar pré-crise.

Por que os Correios interessam às varejistas?

Com a aquisição da tradicional estatal, as empresas poderão ganhar importantes vantagens competitivas, como redução nos prazos de entrega e preços de frete mais acessíveis, no caso das varejistas.

Segundo o assessor da EQI Investimentos, Paulo Filipe Souza, essas empresas são as mais atentas à questão dos Correios.

Afinal de contas, seus negócios se alinham com as atividades da estatal do ponto de vista de entrega de encomendas.

“Os Correios já têm toda uma estrutura, desde galpões logísticos, malha de caminhões e, querendo ou não, a estatal tem acesso a todos os municípios do Brasil. Com isso, essas empresas de e-commerce conseguiriam crescer e melhorar muito a performance de distribuição de seus itens”, explicou Souza.

Vale lembrar também que se tratarem de empresas de capital aberto e com grande caixa.

Por isso, são companhias que têm capacidade financeira de enfrentar essa disputa.

Logística

Diante de tanta demanda, os gargalos podem acontecer exatamente na logística. Aí é que os Correios caem como uma luva na estratégias das companhias – também de logística.

O grande diferencial, neste caso, seria exatamente ampliar a cobertura para as empresas de comércio eletrônico.

Números dos Correios

correios-numeros-min

Fonte: Balanço Correios

Tanto que JSL Logística (JSLG11), em resposta à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), questionada sobre interesse nos Correios, afirmou que está “sempre disposta a avaliar alternativas de mercado que tenham sinergia com seus negócios”.

Acrescentou que seus interesses em termos de aquisições estão “em linha com a estratégia de crescimento” e disciplina em termos de novos investimentos, “mantendo sua liderança como a maior e mais integrada plataforma de serviços logísticos no Brasil”.

Mais interessadas

O ministro das comunicações, Fábio Faria, disse recentemente em declaração à imprensa que a privatização dos Correios desperta o interesse de Magazine Luiza, Amazon, DHL e FedEx, em especial o setor de entrega de produtos provenientes do comércio eletrônico.

Também estariam interessadas nos Correios, Sequoia Logística (SEQL3) e BBM Logística.

Ao Valor Econômico, a Sequoia Logística informou que não comentaria o tema pois está em período de silêncio. Já a BBM Logística não foi localizada para comentar sobre o assunto.

Procurada pelo Valor, a Amazon afirmou que não comenta rumores ou especulações de mercado. A Fedex também disse que não comenta especulações, mas pontuou que monitora oportunidades de mercado.

A DHL negou interesse na privatização dos Correios. “Não comentamos sobre especulações de mercado e potenciais fusões e aquisições. No momento, não temos planos para atingir o crescimento de nosso negócio postal por meio de privatizações e de outros serviços postais estrangeiros”, afirmou em nota à publicação.

Magazine Luiza deve sair à frente na disputa

Na visão de Paulo Filipe de Souza, todas essas empresas podem se interessar. Mas, “vai correr à frente aquela que tiver mais caixa e neste ponto, a Magazine Luiza está bem na frente”.

Segundo Souza, faz muito sentido a Magazine Luiza estar de olho na privatização dos Correios porque é uma das empresas que mais entendeu como funciona a logística no Brasil.

“Se ela agregar os Correios nisso, ela consegue ter quase que o monopólio da distribuição no Brasil. E monopólio, para qualquer empresa, é muito bom”, comentou.

Além disso, com o poder de caixa da Magalu, é possível fazer os investimentos necessários aos Correios e monetizar a até então estatal.

Já em um cenário em que a Amazon compre a estatal, as ações de empresas de e-commerce brasileiras devem ser diretamente afetadas, pontuou o sócio da EQI.

A Magazine Luiza, porém, não confirmou o interesse. Em uma participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, Luiza Trajano, dona da varejista, não negou, nem confirmou a fala do ministro. No entanto, ela defendeu sua opinião pessoal a favor da privatização da parte logística da estatal.

Correios dá lucro

Ao contrário do que possa parecer a estatal brasileira não é deficitária, registrando um lucro de R$ 102 milhões no ano passado, mesmo que menor em relação a 2018, de R$ 161 milhões.

Neste caso, a questão são os investimentos para modernizar suas operações e enfrentar concorrência.

Como o governo está às voltas de um déficit fiscal recorde, aportar recursos na estatal é a última prioridade.

Conforme o balanço, os investimentos em 2019 somaram R$ 332,5 milhões, alta de 47% ante 2018.

A maior parte dos aportes foram para modernização de veículos, que saltaram a R$ 172,7 milhões, ante R$ 25,5 milhões.

Já na manutenção de infraestrutura operacional os investimentos somaram R$ 101,8 milhões, queda de 15% na comparação anual.

Também foram gastos R$ 34,5 milhões em instalação de unidades de tratamento (+285%) e R$ 23,4 milhões em TI (-67%).

Em entrevista à Bloomberg, Faria afirmou que sua venda poderia render algo como R$ 15 bilhões aos cofres públicos.

Mas um estudo do Bank of America Merril Lynch, entregue ao ministro da Economia, Paulo Guedes, citado pela Veja, aponta que os Correios poderiam valer R$ 20,1 bilhões – o ativo mais valioso de uma extensa lista.

Grandes números 2019 vs 2018

  • Receita total em 2019: R$ 19,602 bilhões (-0,47%)
  • Despesa total em 2019: R$ 19,500 bilhões (-0,17%)
  • Resultado financeira em 2019: -R$ 79 milhões (-128%)
  • Lucro líquido em 2019: R$ 102 milhões (-36,6%)
  • Ativos em 2019: R$ 14,235 bilhões (+5,2%)
  • Imobilizado em 2019: R$ 7,477 bilhões (+16,7%)
  • Patrimônio líquido em 2019: R$ 147 milhões (-42,3%)
  • Unidades operacionais em 2019: 6.110 (+18,5%)
  • Edificações (próprias e alugadas): 7.603 (-9,3%)
  • Rede de atendimento: 11.210 (-4,4%)
  • Frota: 23.422 (-5,9%)

Entre as principais receitas em 2019, R$ 9,103 bilhões (+7,82%) foram com encomendas, R$ 7,360 bilhões (-5,31%) com mensagens, R$ 921 milhões (+40,8%) com internacional, R$ 485 milhões (-11%) com marketing direto e R$ 429 milhões (-27,4%) com logística.

Processo de privatização dos Correios

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, entregou na última quarta-feira (14) à Presidência da República o projeto de lei (PL) que cria as condições para a privatização dos Correios.

A proposta será analisada pela Subchefia de Assuntos Jurídicos e pela Casa Civil. Depois, o texto final segue para avaliação do Congresso, o que deve ocorrer no ano que vem, de acordo com o ministro.

A expectativa é que aprovação venha até o final de 2021. A partir de então, se inicia o processo de venda da empresa.

Se você quer investir em empresas de comércio eletrônico ou de logística preencha o formulário abaixo e entre em contato com um assessor da EQI Investimentos.

  • Leia mais: Aprenda a interpretar o Dividend Yield com essas quatro dicas

(Com edição Rodrigo Petry)