Presidente do Irã não foi informado que o avião ucraniano havia sido derrubado por mísseis iranianos

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Presidente iraniano, Hassan Rouhani / AFP

Hassan Rouhani, presidente do Irã, não foi informado de que investigações internas revelaram, horas depois da queda do avião da Ukraine International em Teerã, que a aeronave foi abatida por foguetes iranianos, matando todas as 176 pessoas a bordo.

A Guarda Revolucionária do Irã acabou admitindo dia 11 de janeiro, três dias após a tragédia, que a aeronave foi abatida por ter sido confundida com um alvo inimigo. Naquela noite, o Irã havia bombardeado bases militares estadunidenses no Iraque, e esperava-se um contra-ataque, que acabou não ocorrendo.

O Boeing 737-800 ucraniano nem bem havia decolado do aeroporto de Teerã, Imam Khomeini, quando foi abatido.

Desentendimento interno

O jornal americano The New York Times revelou, em matéria publicada nesse domingo (26), que autoridades do governo iraniano relutaram em fechar o espaço aéreo ou mesmo as operações nos dois aeroportos que servem a capital.

Alguns temiam passar o sentimento de pânico, de que a guerra estaria prestes a começar. Havia, entretanto, os que queriam usar as aeronaves comerciais como escudo humano contra retaliações dos Estados Unidos.

Segundo a matéria, “o general Amir Ali Hajizadeh, chefe das Força Aeroespacial, reconheceu, dias depois, que um pedido seu para suspender as operações civis nos ares iranianos fora rejeitada pelo alto escalão”.

Sem uma rede de inteligência confiável, muitas informações não confirmadas acabaram circulando, inclusive sobre aviões de combate norte-americanos decolando dos Emirados Árabes Unidos, o que se mostrou uma mentira. Entretanto, tal notícia chegou a ser circulada pela imprensa e a chegar aos operadores de foguetes antiaéreos iranianos, sem nunca ser desmentida oficialmente a eles. Pressupõe-se que por problemas na comunicação. “Problemas esses que também o impediram de informar aos seus superiores sobre a decisão (ou não) de abater o que considerava ser uma aeronave inimiga”, diz a matéria.

Dois foguetes foram disparados, derrubando o Boeing 737-800 e causando a tragédia. Pouco depois, o general Hajizadeh foi informado de que suas forças poderiam ter derrubado uma aeronave civil.

Altos escalões das Forças Armadas e da Guarda Revolucionária buscavam explicações. No dia seguinte, chegaram à conclusão de que o avião fora derrubado por um erro humano. Para esses comandantes, o fato deveria ser mantido em segredo até o fim das investigações formais. Além deles, apenas o aiatolá Ali Khamenei e assessores próximos sabiam da verdade. O presidente Hassan Rouhani não era uma dessas pessoas.

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Dois dias depois

Rouhani só foi informado sobre o “erro humano” dois dias depois. Ele exigiu que a versão fosse revelada ao mundo “imediatamente”. Até aquele momento, o presidente refutava energicamente qualquer suspeita nesse sentido. A imprensa do ocidente já divulgava que EUA, Canadá e Ucrânia tinham evidências de que o acidente não era acidente, que o voo havia sido interrompido militarmente.

“O governo ligou de forma intensa e entrou em contato com as Forças Armadas perguntando o que tinha acontecido, e a resposta era de que nenhum foguete fora disparado”, contou o porta-voz do governo, Ali Rabiei, dias depois.

Os militares, especialmente a Guarda Revolucionária do Irã, não gostaram da atitude do presidente. Este, por sua vez, ameaçou renunciar e disse que o Canadá, destino de dezenas de passageiros do voo, iria revelar as provas de que o avião foi derrubado.

Foi ideia do aiatolá Khamenei que todos se preparassem para uma declaração pública, o que foi feito na manhã de sábado, dia 11 de janeiro. Dez pessoas envolvidas com o disparo dos foguetes foram presas.

Rouhani se esforçou para se mostrar tão vítima quanto o resto do mundo e exigiu uma investigação ampla. Ele fez questão de deixar claro que dele também escondiam a verdade: “o que pensamos ser notícia era uma mentira. O que pensamos ser mentira era notícia”, disse a presidência.

A Guarda Revolucionária do Irã era chefiada por Qassem Soleimani, assassinado pelos Estados Unidos em um ataque aéreo ao Iraque e estopim de toda a crise entre os dois países.