Presidente do BC pede “disciplina fiscal” para não espantar investidores

Paulo Amaral
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Crédito: Poder 360

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, está preocupado com uma possível “fuga” de investidores do País, como mostram dados do próprio BC.

Os últimos números divulgados pela instituição mostram que os investimentos externos despencaram 85,5% entre agosto de 2019 e agosto de 2020 no Brasil.

Em entrevista para a Rádio Jovem Pan, o executivo elencou quais as principais medidas que o governo precisa tomar para evitar esse fenômeno, que desestabilizaria a economia brasileira.

Segundo Campos Neto, o País precisa “organizar a narrativa” em relação à disciplina fiscal e ao teto de gastos para voltar a crescer de forma sustentável.

“Às vezes, a gente fica com o conceito de que vou gastar um pouco aqui, vou ter um gasto aqui, porque esse gasto vai criar um efeito benéfico na população e esse dinheiro vai se reverter em crescimento, em gasto, em coisa desse tipo. Mas, se esse gasto gerar uma grande instabilidade em termos de credibilidade, o custo dele, em termos de credibilidade, que vai inibir o crescimento futuro, é muito maior que o benefício que ele gera pelo gasto em si”, pontuou.

BC recomenda olhar a longo prazo

Campos Neto alertou que novas despesas extras podem até ajudar no crescimento em curto prazo, mas acabam desgastando a credibilidade do País no exterior e, consequentemente, afastando os investidores.

“Não tem mágica. Quando tem uma situação fiscal mais frágil, o gasto que você pensa que vai beneficiar o curto prazo pode ser um elemento inibidor do crescimento de médio prazo, que é o que importa para o País Nós temos vários fatores positivos. Precisamos só organizar a narrativa para gerar credibilidade, para que os investimentos venham ao Brasil”, aconselhou.

O principal executivo do Banco Central assegurou que há um conjunto de investidores estrangeiros que vê bastante potencial no Brasil, mas que a desconfiança em relação à condução da política fiscal após a pandemia da Covid-19 tem arranhado essa imagem.

“Nossa melhora de credibilidade, melhora de percepção em relação aos investidores estrangeiros está muito ligada, hoje, ao fiscal. O Brasil precisa mostrar que tem uma disciplina fiscal, que vai procurar uma convergência fiscal”, avaliou.

“Quando você começa a ter dúvida se, de fato, vai retornar ou não, você não só corre o risco do não retorno, mas tem o risco de precificar uma trajetória de dívida com uma estabilidade que é questionável”, completou Campos Neto.

Desequilíbrio perigoso

Campos Neto também alertou em sua entrevista sobre um desequilíbrio que considera “perigoso” no cenário atual da economia brasileira.

Segundo o presidente do BC, “a sociedade precisa entender que não tem como ter inflação baixa e juros baixos com o fiscal desorganizado”.

Para o executivo, o aumento recente dos prêmios em títulos curtos faz parte deste desequilíbrio citado por ele.

“Começou a ter uma percepção no mercado que a necessidade de rolagem de dívida era muito alta. Isso pressiona o prêmio desses títulos de dívida, faz com que as taxas de juros futuras comecem a subir”, explicou.

“O governo reage encurtando um pouco a dívida, depois os próprios papéis de dívida mais curta começam também a ter um prêmio e isso gera uma disfuncionalidade. Nós (do BC) somos a parte monetária e cambial da equação, mas a gente sempre tem uma interação com o governo no sentido de alertar que isso é um equilíbrio, ou é um desequilíbrio, melhor falando, muito perigoso”, completou.

Retomada terá apoio da tecnologia

O presidente do BC também explicou que a retomada econômica do País terá apoio da tecnologia.

Por conta disso foi levado adiante o projeto do Pix, que tem estreia prevista para 16 de novembro e já contou com mais de 2,5 milhões de cadastros em seu sistema.

“Será uma retomada econômica com tecnologia. Por isso, não só não adiamos o processo de lançamento de alguns produtos de tecnologia, como antecipamos, porque entendíamos que era importante aproveitar o momento de aceleração tecnológica para entrar nesse processo e garantir o crescimento sustentável”, afirmou.

Campos Neto negou, no entanto, que o novo método de pagamentos e de transferências eletrônicas tenha sido aprovado para facilitar a criação de um imposto digital, como a CPMF.

“O imposto sobre transação financeira independente do Pix, porque só é uma forma de fazer isso de forma instantânea. Se for instantâneo ou não pode ser cobrado da mesma forma”, finalizou.

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