Prefixados (LTNs): É hora de vender os seus

Nos deparamos com uma queda legal dos juros futuros. Alguns investidores atentos ao movimento me indagaram: É hora de vender meus títulos prefixados (LTNs)?

Denys Wiese
Denys Wiese, bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Santa Catarina (ESAG-UDESC) iniciou suas atividades profissionais no mercado financeiro em 2009 como operador de bolsa de valores. Já atuou como operador, assessor, professor e escritor, sempre em atividades ligadas às finanças. Entre 2014 e 2017, atuou também com consultoria tributária. Hoje é sócio fundador do site EuQueroInvestir, assessor de Investimentos da XP Investimentos (pelo AAI Indice Investimentos). Atua no segmento de alta renda, no aconselhamento e assessoramento em investimentos no mercado financeiro. Contato: denys.wiese@euqueroinvestir.com

Não importa a taxa que compramos a LTN; o que importa é a tendência dos juros futuros, que marcam o PU do título à mercado. Para quem perdeu: TESOURO PREFIXADO E SUAS RENTABILIDADES

O fato de você ter comprado a uma taxa muito boa ou muito ruim, já está refletido no PU, no preço do título. O que importa (sobre uma tomada de decisão) é o que vem pra frente, é o futuro e não o passado.

Agora, veja a queda do DI com vencimento em 2023 (DI1F23):

Fonte: XP Pro (software de cotações da XP Investimentos), acesso em 26/02/2018 às 19h.

Fechamento dos contratos futuros de DI (2023) em 9,26% aa. Isso significa que os formadores de preços de mercado (investidores, gestores, fundos etc) estão estimando que em 2023 a taxa de juros (Selic ou CDI) estará em 9,26% aa.

A LTN 2023 (tesouro prefixado 2023) é justamente o reflexo dessa cotação. Veja como estão as cotações dos prefixados hoje, para venda:

Tesouro Direto - Taxas dos títulos

Fonte: http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro-direto-precos-e-taxas-dos-titulos

O tesouro prefixado 2023 está cotado a 9,36% aa (muito próximo dos contratos futuros de DI).

A taxa Selic (ou o CDI, podem ser tomados nesse caso como sinônimos) são chamados de juros nominais. Juro nominal (futuro ou à vista) é a soma da inflação com a taxa de juro real. Veja:

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JURO NOMINAL = JURO REAL + INFLAÇÃO

Podemos detalhar um pouquinho mais essa equação, principalmente no que tange aos juros reais.

O juro real no Brasil é a soma dos juros dos treasury bonds (títulos do governo norte americano) que representam o rendimento mundial livre de risco MAIS um prêmio pelo risco país (risco do Brasil).

Agora, peguemos o caso da precificação do juro nominal (prefixado) para 2023:

Qual é a expectativa de inflação para 2023?

É fato que não temos dados muito longos de expectativa de inflação no Brasil. O dado mais longo confiável é do relatório FOCUS (último relatório data de 23/02/2018). Veja as projeções para o IPCA:

Fonte: https://www.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20180223.pdf

Estimativa de 4,25% ao ano. (tomemos esse dado como verdade para 2023).

Qual é a expectativa de juros nos EUA? (5 anos)

Fonte: https://br.investing.com/rates-bonds/u.s.-5-year-bond-yield

Bom, como podemos ver na imagem acima, os juros americanos (5 anos) estão cotados a 2,612% aa.

E, por último, qual é o risco país? O risco país pode ser medido pela cotação dos CDSs (Credit default swaps) que são os seguros contra calote. Veja os CDSs brasileiros (com duração de 5 anos):

worldgovernmentbonds.com/cds-historical-data/brazil/5-years

O prêmio de risco brasileiro hoje (5 anos) está cotado em 1,537% aa.

Agora, temos a equação, para estimarmos os juros futuros 2023. Vamos retornar à fórmula e inserir os dados coletados? Veja:

JURO NOMINAL = JURO REAL + INFLAÇÃO

JURO NOMINAL = (JURO EUA + RISCO PAÍS) + INFLAÇÃO

JURO NOMINAL = (2,612% + 1,537%) + 4,25%

JURO NOMINAL = 1,02612 X 1,01537 X 1,0425 = 1,08617 = 8,617% ao ano.

Ueh, Denys, 8,617% ao ano é diferente da cotação dos juros de 2023, que estão cotados a 9,26% aa. Onde está o erro?

No cálculo acima não levamos em consideração o chamado “prêmio pelo carrego”, ou simplesmente, o risco de travarmos o nosso rendimento (via título prefixado) e de vermos uma inflação acima do esperado corroer o nosso capital. Para que um investidor prefixe o seu rendimento, ele exigirá esse prêmio adicional, que, nesse caso, é de (9,26 – 8,617 => 1,0926 / 1,0671 = 1,00591 => 0,59%)

Então, em resumo, temos uma fórmula que irá nos auxiliar a determinar o juro nominal, ou, em outras palavras, os juros futuros, medidos pelos contratos futuros de DI.

JURO NOMINAL = (JURO EUA + RISCO PAÍS) + INFLAÇÃO + PRÊMIO PELO CARREGO

E, hoje, podemos denotar os juros futuros de 2023 assim:

JURO NOMINAL (2023) = 2,612% + 1,537% + 4,25% + 0,506%

JURO NOMINAL (2023) = 1,02612 x 1,01537 x 1,0425 x 1,0059 = 1,0926 = 9,26% aa

Ok, vimos como que é determinada uma taxa de juros futura. Mas, e o que isso tudo tem a ver com os prefixados? Bom, vamos por partes:

  1. Os títulos prefixados oscilam conforme oscilam os juros futuros. Quando os juros futuros caem, o PU dos títulos sobe, e o título se valoriza acima da taxa contratada (para quem quiser vender antes). Se os juros futuros sobem, ocorre o movimento inverso, e o título se desvaloriza. Leia mais em: O Tesouro Direto prefixado e suas rentabilidades não fixadas
  2. Os juros futuros (nominais) caíram bastante no Brasil, em função da queda da inflação, principalmente. A pergunta que não quer calar é: É HORA DE SAIR DOS MEUS PREFIXADOS?

Vamos lá. Agora, para responder essa pergunta, vamos jogar os búzios e fazer algumas previsões:

Qual é a tendência dos juros nos EUA?

Qual é a tendência dos CDS (risco de default dos títulos brasileiros)?

Qual é a tendência para a inflação?

Qual é a tendência para o custo ou prêmio de carrego?

Sem me alongar muito, vejo as coisas da seguinte forma.

Juros nos EUA: depois de anos de política monetária expansiva e de excessos do Banco Central Americano, está chegando a hora de termos altas mais expressivas na taxa de juros norte americana. A meu ver, o mercado ainda não está precificando a alta que teremos nos próximos anos. Tendência de alta.

CDS: à medida que o Brasil resolve o grande problema fiscal, a tendência é que os CDS caiam. Porém, ainda não há nada certo nesse sentido, apesar da tendência ser positiva. Aqui eu anotaria um “incerto, com viés de melhora”.

Inflação: aqui eu discordo da maioria dos economistas. O Brasil é um país em que até o passado é incerto, imagine o futuro. Inflação comportada em torno de 4% aa, abaixo da meta? Acho difícil se manter por muito tempo. Déficit fiscal gigantesco, presidencialismo de coalizão, e outros males da nossa democracia me levam a crer que a tendência é a inflação subir mais do que o mercado está precificando.

Prêmio pelo carrego: à medida que a inflação subir acima do esperado, o prêmio pelo carrego deverá subir também.

Em resumo, dos quatro itens de precificação dos juros futuros, temos 3 apontando alta; e apenas 1 (CDS) com viés de baixa. Logo, eu afirmo: É HORA DE VENDER SEUS PREFIXADOS!

Até o próximo artigo!

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