“Aumento da Selic pode mesmo vir em maio”, diz Campos Neto

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
1

Crédito: Divulgação

No mês passado o Banco Central aumentou em 0,75 ponto percentual a taxa de juros, maior elevação em uma década. E um novo aumento nesse patamar deve vir agora em maio, o que levaria a Selic para 3,5%. Mas, segundo o presidente do BC, Roberto Campos Neto “nada está escrito em pedra” e o país pode enfrentar condições muito diferentes de agora em diante.

Subida da Selic: como investir diante do novo cenário

“Não achamos que isso é o cenário mais provável, mas temos cenários alternativos e temos sido transparentes quanto a isso”, disse ele em entrevista à TV Bloomberg.

Hoje a inflação anual está em alta de 6,10%, bem acima da meta de 3,75% estabelecida para 2021.

Assim, a Selic ainda está abaixo do que muitos investidores acreditam ser necessário para manter a inflação sob controle, especialmente após uma nova rodada de auxílio emergencial. No mercado há quem acredite que o BC deve levar a taxa básica de juros para mais de 6% até o final deste ano.

Quer começar o dia bem-informado com as notícias que vão impactar o seu bolso? Clique aqui e assine a newsletter EQI HOJE!

De outro lado, não há sinais de que uma nova da Covid-19 vá arrefecer em breve. O Brasil bateu recordes diários de mortes de Covid-19 duas vezes na semana passada, e os hospitais em todo o país estão lotados com pacientes.

Depois que a uma alta nos preços de commodities e energia passou a impactar o núcleo da inflação, o Banco Central iniciou a apertar a política monetária, disse Campos Neto.

Copom dovish ou hawkish? Ata sobre aumento da Selic divide mercado

“Entendemos que esse processo teve alguma contaminação nos números do núcleo da inflação”, disse ele.

“Estamos vigilantes”, diz Campos Neto

O BC está tentando conter o aumento da inflação sem sufocar a recuperação da economia brasileira. Ao passo que os investidores estão preocupados com aumento de gastos e tendências populistas do presidente Jair Bolsonaro, diz a Bloomberg.

“Para nós, o importante não é o real, trabalhamos sob um sistema de câmbio flutuante. O importante é como o real contamina o canal de inflação para a inflação de curto prazo e para elevar expectativas. Estamos vigilantes quanto a isso e agiremos se necessário”, afirmou.

Campos Neto: inflação crescente em “emergentes”

Nesta segunda, Campos Neto participou de um evento com outros presidentes de BCs da América Latina, e traçou um panorama sobre inflação.

Na visão de Campos Neto, um cenário combinado entre valorização de commodities e depreciação cambial acabou gerando um avanço acelerado da inflação.

“Vimos os preços das commodities subindo com moedas dos países produtores dessas commodities não performando bem, na verdade até performando mal… A gente tem inflação subindo no mundo emergente, com destaque no Brasil e Turquia, e aí tem uma diferenciação dos países emergentes, que têm peso de alimentos maior e não contrabalanceado pela moeda.”

Segundo Campos Neto, os países citados, incluindo o Brasil terão de adequar a alta dos juros, como aconteceu por aqui na última reunião do Copom.

“Você começa a entrar numa dinâmica de inflação mais rápida, e o mercado começa a precificar a subida mais rápida de juro, que é o que acontece no Brasil”.

BC pede austeridade

Campos Neto, que desde o início da pandemia tem se mostrado uma pessoa bastante centrada no comando do BC, pediu para que o Brasil saiba trabalhar a margem fiscal diante da crise sanitária.

Segundo o executivo do BC, “austeridade e seriedade” serão chaves na gestão da dívida pública e para evitar uma desorganização geral no País.

“É preciso passar a mensagem de austeridade e seriedade fiscal. Difícil imaginar o Brasil formulando politicas de sustentação à crise como outros países. … Quando se tenta um gasto adicional, a desorganização de preços é pior para economia”, concluiu.

Política monetária

No final de março o presidente do Banco Central (BC) disse que o órgão está trabalhando com um cenário de “normalização parcial” da política monetária, com o aumento dos juros básicos da economia, a Selic.

“A normalização está relacionada à taxa neutra [quando não há estímulo nem desestímulo da atividade econômica]. Se a normalização é parcial, não entendemos que esse movimento [de taxa neutra] deva acontecer agora”, disse, explicando que o BC considera que o recente aumento dos juros “não prejudica o crescimento em 2022, que está de acordo com o nosso cenário básico”.

Campos Neto: Selic

Na semana anterior em meio ao aumento da inflação pressionada pelo dólar e pela alta nos preços de alimentos e de combustíveis, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC elevou a Selic de 2% para 2,75% ao ano, primeira alta desde julho de 2015. A decisão surpreendeu os analistas financeiros, que esperavam uma elevação para 2,5% ao ano.

“Temos descrito como ajuste parcial e temos dito que o ajuste mais célere nos faz crer que na verdade fazer mais, e fazer mais rápido, faz com que a intensidade total [de elevação] deva ser menor”, disse o presidente do BC, explicando que também deve haver um efeito importante na expectativa de longo prazo.

A elevação da Selic, que serve de referência para as demais taxas de juros no país, ajuda a controlar a inflação, porque causa reflexos nos preços, já que juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança, contendo a demanda aquecida.

Por outro lado, taxas mais altas dificultam a recuperação da economia.

Campos Neto: perspectiva de recuperação econômica
Ainda assim, diante da perspectiva de boa recuperação econômica no segundo semestre, os membros do Copom consideram que o cenário atual já não prescreve um grau de estímulo extraordinário nos juros e deve manter a trajetória de elevação, de 0,75 ponto percentual, na próxima reunião do Copom, em 4 e 5 de maio.

Para Campos Neto, esse percentual só deve mudar caso haja uma situação muito “atípica” no cenário econômico.

Desde agosto de 2020, a Selic se manteve em 2% ao ano, influenciada pela contração econômica gerada pela pandemia da covid-19. De acordo com o presidente do BC, esse nível foi alcançado diante de um cenário de projeção de queda de 9% do PIB em 2020 e inflação próximo de 1,5%. “Um cenário que não ocorreu”.

O PIB, na verdade, encerrou 2020 com queda de 4,1%, e a inflação segue pressionada pela depreciação do real e pela alta de preço das commodities.

Por outro lado, o BC acredita que os efeitos desses fatores sobre a inflação serão temporários.

Relatório de Inflação

No Relatório de Inflação, publicado em março, o BC reduziu a projeção para o crescimento da economia este ano. A estimativa para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país) passou de 3,8% para 3,6%.

Questionado sobre o impacto do agravamento da pandemia no ritmo de crescimento econômico, Campos Neto disse que os indicadores são positivos, especialmente para o segundo semestre do ano.

“Não é que estamos super otimistas, acho que está bem qualificado, se todos olharem os dados do Relatório de Inflação estamos um pouco mais pessimistas em relação ao primeiro semestre. Nosso cenário [futuro] está contemplando a pandemia e aceleração na vacinação”, disse.

BC estima que crédito concedido pelos bancos deve crescer 8% este ano

Segundo ele, o BC se baseia no cronograma do Ministério da Saúde para a vacinação, que projeta crescimento na distribuição de imunizantes a partir de maio e junho. “O BC não trabalha com hipóteses sobre cenários alternativos de vacinação”, disse, sobre uma possível insatisfação no ritmo de imunização da população.

Campos Neto disse ainda que o BC não observa nenhum “desrespeito às regras fiscais”, com o aumento dos gastos do governo com a pandemia.

Segundo ele, houve uma contrapartida no esforço fiscal e ganhos institucionais, como as medidas de ajustes para estados e municípios, com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Emergencial.

*Com Agência Brasil