PIX: como o novo meio de pagamento pode impactar os bancos?

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

Dia 16 de novembro é a data prevista para entrar em funcionamento o PIX, sistema de pagamento instantâneo criado e regulado pelo Banco Central. A nova tecnologia chega como alternativa ao DOC (documento de ordem de crédito), à TED (transferência eletrônica disponível), ao boleto, aos pagamentos em dinheiro e também ao cartão de débito.

O PIX vem sendo apontado por alguns especialistas como uma verdadeira revolução no sistema bancário. Para outros, será apenas mais um meio de pagamento.

O fato é que, para os grandes bancos, as vantagens só serão sentidas no longo prazo. No curto e no médio prazos, o efeito PIX não deve ser positivo.

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Primeiro, porque a novidade promete estimular ainda mais a concorrência com as fintechs. É que para acessar o PIX, o cliente deverá utilizar o aplicativo ou site de sua instituição financeira de preferência. E as contas digitais gratuitas oferecidas pelas fintechs tendem a ser a opção preferida por quem ainda não tem conta, mas quer usar o PIX.

Além disso, o PIX terá uma plataforma única, controlada pelo Banco Central, e não haverá cobrança para pessoas físicas. Ninguém poderá dizer, por exemplo, que o banco A é melhor do que o do banco B nesse tipo de serviço. Diante desse cenário, será preciso muito empenho na oferta de outros produtos para atrair e fidelizar os clientes.

O terceiro ponto é que os bancos tendem a sofrer uma perda de receita imediata. Isso porque o PIX será gratuito para as pessoas físicas, ao passo que as transferências e demais operações bancárias geralmente têm cobrança.

“Com o PIX, a tendência é que as pessoas migrem para a opção gratuita. Com isso os bancos deixariam de contar com a receita que têm hoje das transferências”, diz Victor Hasegawa, gestor da Infinity Asset.

Quem ganha com o PIX?

Na avaliação dos analistas, quem sai na frente com o PIX são as fintechs, que devem ganhar uma boa quantidade de novos clientes dispostos a se bancarizar para usar o PIX, mas não dispostos aos custos e às burocracias dos bancos tradicionais.

Ganham também as startups de tecnologia, na oferta de soluções para a bancarização.

E ganha o e-commerce, que contará com um meio de pagamento mais simples e condizente com o mundo virtual.

“O conceito do PIX nasce na internet. Então, acredito que ele deve impactar diretamente as vendas online. O comércio de rua, acredito, terá uma resistência maior”, avalia Hasegawa.

PIX: para Morgan Stanley, apenas mais um meio de pagamento

Em relatório, analistas do Morgan Stanley defendem que o PIX está causando mais barulho no mercado do que o necessário. Eles defendem que a novidade não será tão revolucionária. Tampouco afetará de maneira significativa a vida dos grandes bancos.

Para eles, o PIX tem, sim, potencial para bancarizar muitos brasileiros. Eles estimam entre 20 milhões e 45 milhões de pessoas. E confirmam que  esses clientes tendem a priorizar as contas digitais, por serem gratuitas e mais práticas, dispensando, inclusive, a visita a uma agência bancária.

No entanto, eles enxergam que o impacto do PIX dever ser limitado a não mais do que 1% ou 2% dos gastos com todo o consumo pessoal do país. E pontuam as razões para chegar a essa conclusão.

Em primeiro lugar, o PIX deve encontrar uma resistência natural pelo consumidor. O custo-benefício, segundo o Morgan Stanley, não justificaria uma mudança brusca de comportamento em relação aos meios de pagamento tradicionais.

“Existe uma cultura profundamente enraizada de pagamentos com cartão. Quase todo mundo no Brasil carrega um cartão na carteira. Cerca de dois cartões de débito e um de crédito por adulto. Os gastos com cartão totalizam 39% do consumo pessoal”, afirma o banco.

Destaca ainda que o PIX exigirá “cinco ou mais cliques” para concluir uma transação, o que já acontece com o cartão de débito – que, por sinal, não é algo complexo de ser usado. Na avaliação do Morgan Stanley, não há “nenhum benefício adicional para o consumidor” que justifique a migração.

Por fim, o banco afirma ainda que a maioria das instituições financeiras consultadas não têm interesse em investir pesadamente no PIX.  Além disso, falta propaganda por parte do governo. Ou seja, a população nem está tomando o devido conhecimento sobre o produto.

Impactos para os bancos

Na visão dos analistas do Morgan Stanley, o mercado também está superestimando o impacto negativo que o PIX terá sobre os lucros dos bancos nos próximos dois anos.

Eles calculam que apenas 2,7% da receita total dos bancos venham dos produtos potencialmente ameaçados pelo PIX. Entre eles, as transferências eletrônicas, os boletos, os pagamentos com cartão de débito e os saques em caixas eletrônicos.

Pelos cálculos do banco, o PIX poderia pressionar no máximo R$ 10 bilhões em receitas para os quatro maiores bancos do Brasil. O que o Morgan Stanley considera um impacto “totalmente administrável”.

“Vemos um alto risco do PIX interromper as transferências eletrônicas e boletos, que são produtos bancários populares, mas caros e altamente ineficientes. Mas vemos um risco muito baixo do PIX substituir os cartões de débito”, diz o relatório.

Em países que passaram por mudanças semelhantes o que se viu foi um impacto sobre o uso do papel moeda, dos cheques e das transferências eletrônicas. Mas não sobre o uso do cartão de débito. Esse é o exemplo da China e da Índia.

Vantagens serão visualizadas com o tempo

Para Boanerges Freire, consultor em varejo financeiro, o PIX será “simples como enviar uma mensagem”. E deve, com o tempo, ter ampla aceitação pelos consumidores brasileiros.

Ele elenca como vantagens o fato de ser gratuito, prático e rápido. Além de gerar inclusão financeira e aumentar a competição entre os meios de pagamento.

“Como qualquer novidade, haverá um processo de adaptação, de incorporação aos hábitos. As pessoas terão que experimentar até tomar o PIX como meio de pagamento relevante e até prioritário”, disse entrevista para a fintech Spin Pay.

Hasegawa também mantém uma visão otimista. “Ainda tem muita coisa a ser conhecida e definida. Acredito que os bancos devem ter um saldo negativo no curto prazo. Mas, a longo prazo, o PIX pode realmente ajudar a bancarizar a população. E este é o grande ponto positivo.”