PIB ‘patina’ e já preocupa para 2020 entre incertezas globais e domésticas

Marcello Sigwalt
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Crédito: Reprodução/Pixabay

O crescimento quase vegetativo do Produto Interno Bruto (PIB), de 1,1% em 2019 (R$ 7,3 trilhões), divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – confirmando as previsões do mercado – suscita automaticamente o questionamento. E como será este ano?

De acordo com os indicadores disponíveis, a percepção dominante é de que a economia nacional deverá permanecer em “marcha batida” um bom tempo ainda, pois as sequelas mundiais da epidemia global, que derrubaram o ritmo já enfraquecido da economia chinesa, não foram devidamente diagnosticadas.

“Após o tombo verificado em 2014 e 2015, a economia brasileira continua patinando”, observa a professora de MBA da Fundação Getúlio Vargas, Virene Matesco, para quem este ano deverá se encerrar numa taxa não superior a 2%.

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Nesse aspecto, ela considera “otimista” a taxa de 2,17% para este ano, projetada pelo Boletim Focus do Banco Central (BC), no início da semana.

A trajetória pífia do PIB nos últimos anos endossa a tese de Virene, pois o avanço tímido de 1,1% do ano passado foi pior do que o apurado em 2017 e 2018, quando não passou de 1,3%. “Mas isso não deixa de ser um fator positivo. É como se um paciente muito doente que tivesse uma ligeira melhora”, compara.

Baixo investimento

Segundo ela, um dos fatores determinantes desse resultado adverso é baixíssima taxa de investimento (formação bruta de capital) do país. “Ela está atualmente em 16% do PIB. Isso não é nada”, dispara.

No comparativo 2018/2017 – quando apresentou uma taxa de investimento de 15,8% – o país fica bem atrás de seus parceiros do BRICS, como a África do Sul (18,9%), Índia (32,4%), China (44,4%) e Rússia (23,9%) nesse quesito.

“A impressão é de que a economia nacional está encolhendo, à espera da conclusão das reformas, enquanto persiste uma clima de insegurança, que se agrava por algumas declarações governamentais, desnecessárias e aparentemente intermináveis”, analisa Virene.

Medidas positivas

A mestra da FGV entende que a reforma tributária, simplificação do ambiente de negócios e  desoneração da folha de pagamento, esta última no contexto da reforma trabalhista, são medidas que podem contribuir para melhorar a performance do PIB.

Nesse rol, ela aponta como alavancas de investimentos na economia a retomada das privatizações e a abertura de concessões pelo setor público.

Gargalos

Embora sustentem a atividade econômica na atualidade, o consumo das famílias – responsável hoje por 64,93% (peso ponderado) na formação do PIB – e o setor de Serviços não estão livres de gargalos.

No primeiro caso, há sempre o risco de elevação do endividamento e pressão sobre os juros, enquanto o segundo tem como marca de nascença a informalidade, baixos salários e poder aquisitivo, sem contar o desrespeito aos direitos trabalhistas. “É o chamado “emprego de boca”,  define Virene.

Os melhores desempenhos, no setor de Serviços, couberam aos segmentos de Comunicação, Internet, Software, Marketing e Tecnologia de Informação, revela a professora da FGV.

Indústria se ressente

Já a indústria, que registrou crescimento inexpressivo (0,5%) em 2019, se ressente do desempenho negativo das commodities no exterior e da retração na área de mineração, em que a Vale esboça alguma reação após o dano ambiental e perda de vidas em Brumadinho (MG).

A construção civil, por sua vez, vem respondendo bem aos estímulos governamentais, sobretudo pela redução da Selic (atualmente em 4,25% ao ano) e de baixa ainda maior dos juros habitacionais. “Vejo que o crescimento da construção se dará de forma gradual, mas firme”, concluiu.