PIB: para o mercado, queda no 1TRI20 está dentro da expectativa

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Site Fecomercio MS

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro recuou 1,5% no primeiro trimestre de 2020 em relação ao último trimestre de 2019. Na comparação com o primeiro trimestre de 2019, a retração foi de 0,3%. A divulgação feita nesta sexta-feira (29), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entretanto, não assustou analistas. O resultado está dentro do esperado.

“O impacto do PIB foi neutro”, diz o assessor de investimos e sócio da EQI Paulo Felipe de Souza. “Ele vem em linha com o que o mercado esperava. Não teve nenhum tipo de surpresa, nem positiva, nem negativa.

Em valores correntes, o PIB somou R$ 1,803 trilhão no primeiro trimestre. Mas no segundo trimestre pode ser pior.

Isso porque o resultado ainda não reflete os impactos do isolamento social dentro do país. As medidas restritivas começaram efetivamente nas duas últimas semanas de março.

PIB inverte tendência de aceleração

Paulo de Souza alerta exatamente para uma preocupação maior a partir de agora. O resultado “ainda não reflete a pandemia, porque os diversos lockdown no Brasil começaram no final de março; e o país, diferente da Europa, que já vinha em desaceleração, acelerava, em franco crescimento de PIB, até porque havia uma demanda reprimida muito forte”.

Nota técnica do ministério da Economia vai ao encontro desta análise: “o resultado negativo da atividade econômica no primeiro trimestre, embora esperado, lamentavelmente coloca fim à recuperação econômica em curso desde o começo de 2017. Os impactos iniciais da pandemia na economia a partir de março deste ano reverteram os bons indicadores de emprego, arrecadação e atividade do primeiro bimestre, levando a variação do PIB para o terreno negativo”.

“Os efeitos danosos sobre a saúde da população brasileira e da nossa economia ainda persistem. Dessa forma, o resultado econômico da atividade no segundo trimestre será ainda pior. As consequências são nefastas para a população, com aumento do desemprego, da falência das empresas e da pobreza”, segue.

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Pandemia avança no país

O ministério da Saúde divulgou nesta quinta-feira (28) números ainda mais expressivos da pandemia no país, que se tornou, segundo a Organização Mundial da Saúde, o epicentro da crise mundial.

São 438.238 casos confirmados, com 26.754 mortos, apenas 177.604 curados (40,53%) e 233.880 ainda dependendo de algum tipo de tratamento em um sistema de saúde, em muitos estados, já colapsado.

A curva brasileira segue em forte ascensão.

“O prolongamento do período de isolamento pode agravar a crise de curto prazo e comprometer a velocidade de retomada”, diz a nota técnica do ministério da Economia.

Segundo trimestre pior

“Vale acompanhar agora as próximas projeções do PIB, principalmente deste trimestre agora (o segundo), quando o impacto do Covid-19 vai ser realmente sentido”, diz Paulo de Souza.

O economista Victor Beyruti Guglielmi, da equipe da Guide, tem a mesma visão.

“O resultado veio em linha com nossas expectativas para o trimestre, confirmando a deterioração da atividade ilustrada pelas pesquisas setoriais e pelo IBC-Br referentes ao mês de março”, escreveu em um artigo.

“Ao avaliar os indicadores antecedentes para abril e maio, esperamos um resultado significativamente pior para o 2T20, trimestre em que as medidas de isolamento social foram mais presentes. Os efeitos foram os esperados: forte queda do consumo das famílias puxado principalmente pela forte deterioração da demanda por serviços e deterioração do setor externo puxada pela queda de demanda por exportações. Tendo em vista esta piora, acreditamos que o PIB poderá apresentar uma contração superior a 10,0% no 2T20. Para o ano, esperamos uma contração de 7,5% da economia brasileira”, projeta.

Comparação com o resto do mundo

Numa visão global, o PIB brasileiro mostrou uma queda menos acentuada do que a de outros grandes países.

A retração é menos intensa do que a dos europeus, como Alemanha, França, Itália e Portugal, e fica abaixo também da China, onde a crise começou, no final do ano passado, que teve o maior recuo até agora, de 9,8%.

Na Zona do Euro, a retração é de 3,3%. Isso inclui a Suécia, país que não adotou, a princípio, nenhum tipo de medida de restrição à circulação de pessoas. Na nação escandinava, o PIB encolheu 0,3%.

Já nos Estados Unidos, a queda foi de 1,2%. O PIB das 37 maiores economias do mundo, reunidas na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), recuou 1,8%.

De todas as economias com alguma relevância mundial, apenas a Finlândia mostrou algum crescimento. E ele foi de um tímido 0,1%.

Mercado de ações e retomada

O professor do Insper, Fernando Leite, afirma que como o resultado do PIB já era o esperado, o impacto no mercado de ações não será tão brusco.

“O sistema financeira costuma antecipar as coisas. Então, os números já estavam precificados no mercado acionário e, portanto, não há nenhum efeito”, ele diz. “Para o investidor, fica (a atenção para) o cenário de médio prazo, que é um sinal de incerteza”.

Fica também o que o professor chamou de uma “inconveniente e desagradável ausência do ministro da Economia, Paulo Guedes, nos debates em torno das políticas de recuperação da economia pós-pandemia”.

“Não se vê nenhum plano. Ser liberal na economia não significa não planejar as coisas. Algo precisa ser dito pelo ministro, como um norte magnético para as expectativas dos agentes econômicos. Ele tem que se pronunciar sobre o que ele pretende fazer no pós-pandemia, em especial no que tange à questão fiscal e a algum tipo de incentivo para retomar a atividade”, conclui.