PIB avança 7,7% no trimestre, mas fica abaixo das projeções

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 7,7% no terceiro trimestre de 2020, na comparação com o trimestre anterior, na série com ajuste sazonal.

O resultado veio abaixo da projeção do mercado, que era de alta de 8,8%.

Em valores correntes, o PIB do terceiro trimestre de 2020 totalizou R$ 1,891 trilhão.

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A Agropecuária caiu 0,5%, a Indústria cresceu 14,8% e os Serviços subiram 6,3%.

As informações foram divulgadas nesta quinta-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

PIB

Reprodução/IBGE

PIB cai 3,9% na comparação com o terceiro tri de 2019

Em relação a igual período de 2019, o PIB caiu 3,9%. Foi a terceira queda consecutiva nesta comparação. No acumulado dos quatro trimestres terminados em setembro, houve queda de 3,4% frente aos quatro trimestres imediatamente anteriores.

No acumulado do ano até o terceiro trimestre de 2020, o PIB caiu 5% em relação a igual período de 2019. A queda está ainda acima das projeções do Ministério da Economia e do mercado financeiro para o ano de 2020.

De acordo com o ministro da Economia, Paulo Guedes, apesar do crescimento da economia ter ficado abaixo do esperado, mostra uma retomada. “Veio um pouquinho abaixo do esperado, mas o fato é que a economia está voltando em ‘V’, realmente está voltando”, afirmou.

Taxa de investimento

A taxa de investimento foi de 16,2% do PIB, ficando praticamente estável em relação a observada no mesmo período de 2019 (16,3%). A taxa de poupança foi de 17,3%.

Consumo das famílias sobe

A Despesa de Consumo das Famílias teve expansão de 7,6% e a Despesa de Consumo do Governo cresceu 3,5% em relação ao trimestre anterior.

Exportações e importações

Já as Exportações de Bens e Serviços tiveram queda de 2,1%, enquanto as Importações de Bens e Serviços caíram 9,6% em relação ao trimestre anterior.

PIB Agro

A Agropecuária cresceu 0,4% em relação a igual período de 2019. O resultado explica-se, principalmente, pelo crescimento da produção e ganho de produtividade da atividade Agricultura. Ela suplantou o fraco desempenho da Pecuária e da Pesca. Destaca-se o crescimento nas estimativas anuais de produção do café (21,6%), cana de açúcar (3,5%), algodão (2,5%) e milho (0,3%).

PIB Indústria

Entre as atividades industriais, destaca-se o crescimento de 23,7% das Indústrias de transformação. Também houve aumento para Eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos (8,5%), Construção (5,6%) e Indústrias extrativas (2,5%).

PIB Serviços

Nos Serviços, todos os setores cresceram. Comércio (15,9%), Transporte, armazenagem e correio tiveram alta de 12,5%. Outras atividades de serviços, 7,8%. Informação e comunicação, 3,1%. Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social, 2,5%. Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados, 1,5%. E Atividades imobiliárias, 1,1%.

PIB: repercussão

Elias Wiggers, sócio daEQI Investimentos, classifica como “bom” o resultado do PIB. “Ele foi puxado pela indústria, motivado em grande parte pelo consumo das famílias, o que explica a alta da inflação medida pelo IGP-M”, avalia.

“Várias indústrias tiveram que refazer estoques, já que ficaram com produção parada. E ainda tiveram que lidar com dólar mais alto. Tivemos, então, um excesso de demanda, com dólar pressionando ainda mais o IGP-M”, explica.

Com o resultado, ele aponta, a agricultura segue como o único setor que teve desempenho semelhante ao do ano passado. “Podemos dizer que foi o único setor que não sentiu os impactos ou, se sentiu, sentiu muito pouco”, afirma.

Recuperação em andamento

Para a agência classificadora de risco Austing Rating, a projeção para o PIB do terceiro trimestre era de avanço de 8,4% no PIB. Mas, como explica o economista-chefe Alex Agostini, a variação pouco para baixo não preocupa.

Segundo ele, o número, apesar de insuficiente para reverter a queda do PIB no ano, dá um bom sinal de que o cenário está melhor do que o previsto e há uma recuperação em andamento.

Em sua análise, a indústria, que foi fortemente afetada, se recuperou bem, com a construção sendo especialmente favorecida pela Selic baixa (2%).

O setor de serviços também merece destaque. “Neste setor tivemos um comércio varejista, de supermercado, que não parou na pandemia. Mas turismo, logística, aéreo e alojamento foram muito impactados. E agora mostram recuperação”, diz. Vale lembrar que serviços respondem por dois terços do PIB.

Já a Guide Investimentos aguardava um resultado de 8,13% do PIB no terceiro trimestre. “O resultado do PIB do terceiro trimestre repercutiu as melhoras generalizadas vistas nas pesquisas setoriais. Verificou-se a mesma tendência”, diz a corretora em relatório.

Mas, mesmo que a expansão tenha sido “notável”, como classifica a Guide, a economia segue com um longo trajeto até uma recuperação completa, comparável ao desempenho de 2019.

Retirada do auxílio emergencial pede atenção

Agostini, da Austin Rating, destaca que será importante acompanhar como ficará o consumo das famílias e o PIB com a retirada do auxílio emergencial, o que deve acontecer no final do ano.

“O fim do auxílio vai revelar se a alta do PIB é consistente mesmo, com recuperação da renda e do emprego, ou se o auxílio sustentou o avanço”, aponta.

Para a agência, o PIB deve fechar 2020 com queda de 4,2% – o Boletim Focus, que indica semanalmente as projeções de 200 instituições financeiras, prevê queda de 4,5%.

Já para 2021, a agência projeta crescimento de 3,3% do PIB, dada a base de comparação fraca e as perspectivas de avanço.

Cenário externo positivo, mas questões internas pesam

“O cenário é muito positivo. A única coisa que pode dar errado é o Brasil”, avalia Agostini.

Em sua análise, o Brasil enfrenta desde 2014 problemas fiscais, que foram agravados fortemente pela pandemia. Mas cabe ao governo apresentar um plano concreto e consistente para reduzir a dívida.

“Por enquanto, os sinais transmitem falta de coordenação, com um risco fiscal muito forte. Existe uma onda de otimismo global, mas o país pode ficar de fora, dependendo do governo”, alerta.

Ele elenca como positiva no cenário externo a eleição de Joe Biden nos Estados Unidos, com perfil mais conciliador, o que favorece mercados emergentes. Além disso, o Reino Unido negocia com a União Europeia um Brexit mais brando, que terá efeito negativo menor na economia global. O início das vacinações complementa o contexto de otimismo, indicado que a normalidade poderá ser retomada em breve.

A Guide é outra a cobrar medidas fiscais do governo: “Elas são de suprema importância para que o Estado consiga atrair investimento estrangeiro e retomar de forma sustentável o investimento público – o que tende a ter um efeito muito positivo sobre o desempenho da economia”, afirma em relatório.

Comparação PIB brasileiro com demais países

Comentando o desempenho do PIB brasileiro na comparação com os demais países, Agostini aponta que o Brasil não pode ter desempenho semelhante aos EUA ou demais países do primeiro mundo.

“Temos um nível de pobreza infinitamente maior, questões sérias de saneamento e desemprego. Temos que estar junto com Índia, Malásia e Tunísia, que são os países emergentes que estão correndo atrás dos investimentos”, aponta.

“Quando você demonstra que o país não consegue acompanhar seus competidores, o investidor fica preocupado”, complementa.

PIB países

Reprodução/Austin Rating

Como o resultado do PIB afeta os investimentos?

Fabian Fávero, assessor de investimentos da EQI, aponta que o resultado do PIB do terceiro trimestre reabre os olhos do investidor para o setor de serviços, que ainda tem espaço de retomada e deve fazer este movimento de maneira mais acelerada do que o esperado.

Já o aumento da taxa básica de juros, Selic, segue sendo aguardado só para meados do ano que vem, mas ainda mantendo patamares baixos, propícios ao crescimento que o país ainda tem pela frente.

“Um aumento da Selic antes disso, eu acredito, acontece apenas em caso de o governo ‘perder a mão’ em relação à situação fiscal ou ocorrer uma alta da inflação muito mais rápida do que o previsto”, diz.