Incerteza e baixa atividade devem levar a tombo histórico do PIB em 2020

Marcello Sigwalt
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Crédito: Site Fecomercio MS

Diante de uma expectativa crescente quanto ao tempo necessário à retomada consistente da economia, analistas, empresas e institutos apresentam, em comum, uma projeção bem negativa para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano.

O que difere, entre eles, é a previsão em relação ao tamanho do percentual de “tombo” do PIB.

Amanhã, o IBGE divulga o resultado referente ao primeiro trimestre do ano, que ainda não mostrará integralmente os efeitos da paralisação econômica causada pela pandemia do coronavírus, uma vez que o isolamento começou para valer na segunda quinzena de março.

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Disposição em baixa

Referência importante para medir a disposição do empresariado, o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br), divulgado nessa quinta-feira (28) pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostrou uma queda de 20,2 pontos em maio, para 190,3 pontos.

Trata-se de uma piora de cenário, ainda em patamar elevado, uma vez que em março e abril, esse índice era de 95,4 pontos.

Essa baixa, porém, está abaixo da registrada em setembro de 2015 (136,8 pontos), o recorde anterior.

Recuo recorde do PIB

Para o chefe da TCP Partners, Ricardo Jacomassi, o PIB deve registrar uma retração de 1,6% do PIB no primeiro trimestre do ano. E em todo 2020, o economista prevê um recuo recorde de 7% .

Deterioração rápida

Sua previsão é pior que a do Ministério da Economia, feita há duas semanas, de um recuo de 4,7% este ano. A deterioração do indicador do governo foi rápida. Em março, era de um crescimento de 2%.

Ainda em março, os banco ‘pesos-pesados’ Goldman Sachs e Citibank fizeram previsões nada animadoras para a economia brasileira.

Estrangeiros precificam

Enquanto o primeiro projetara, na época, uma queda de 3,4%, o segundo apostou num recuo de 1,7%. Já os economistas do J.P. Morgan foram mais longe, estimando em 3,2% a taxa negativa do PIB em 2020.

Na avaliação dessas instituições financeiras globais, “a América Latina deverá enfrentar a pior contração econômica no pós-guerra, devido à uma contínua deterioração do ambiente macroeconômico e financeiro, sem precedentes históricos”.

Previsão mais ‘amena’

Mais amenos nas previsões, os nacionais Itaú, Fibra e Guide concordavam, igualmente em março, que o PIB do ano ficaria em -2%.

Recuperação lenta

Jacomassi lembra que, após uma paralisação quase total da economia em abril e maio, o mês de junho deve marcar um processo muito lento de recuperação, mas mantendo dados negativos.

Queda histórica

O economista-chefe admite, porém, que uma queda mais ‘elástica’, de até 10% do PIB poderá ocorrer, caso o Executivo tome medidas econômicas equivocadas e mantenha uma ‘política de atrito’ com os demais poderes.

“Se houver uma deterioração mais forte do PIB da indústria, da construção civil e do comércio, segmentos que não conseguirem retornar à uma rotina de normalidade, isso pode determinar, sim, que o PIB chegue a -10%, com certeza, o maior da história”, explica o economista-chefe.

Agronegócio destoa

Segundo ele, a única nota destoante da sinfonia recessiva vem do agronegócio que, a despeito do problema viral global, deverá crescer este ano 2,4%.

Para esse desempenho favorável, Jacomassi aponta dois fatores que estão interligados:

“O agronegócio vai bem porque vamos colher uma superssafra, prevista para 250 milhões de toneladas, que são as nossas commodities, proteínas, grãos, altamente demandados pela Ásia”, explica.

Ele acrescenta que “há uma convergência positiva entre produção agrícola recorde e demanda internacional aquecida”, assinala.

Demanda externa forte

O economista-chefe da TCP Partners vai além e adianta que essa demanda externa vai continuar forte nos próximos meses, pois o Brasil é o único país que “consegue produzir com competitividade e preço no cenário mundial”.

Câmbio

Contribui decisivamente para esse ‘sucesso’, a desvalorização do real,  que torna os produtos brasileiros muito mais baratos e acessíveis lá fora.

Ao mesmo tempo, ele avalia que a política monetária de queda gradual da Selic (atualmente em 3% a.a), a título de estimular a economia, acaba afugentando o capital estrangeiro, posto que menos atrativa.

Logística é o entrave

O único entrave a um crescimento mais sólido desse setor, completa ele, é a logística. “Se tivéssemos uma boa infraestrutura, o resultado do agronegócio seria ainda mais expressivo”.

Segurança é prioridade

Insegurança, incerteza e preocupação com a questão da segurança dos trabalhadores. Esses valores devem predominar no planejamento das empresas nos próximos meses.

Taxas faraônicas

Mas o ponto crucial no momento, comenta o economista, é a questão da demanda, que está muito fragilizada, sobretudo junto às famílias, desembocando em taxas faraônicas de desemprego.

“A taxa de desemprego deverá variar de 18% a 22% (da população economicamente ativa). Se chegar aos 18%, significará 19 milhões de desempregados (número monumental)”, calculou.

2021 ‘positivo’

Mais por efeito estatístico, embora caracterizando viés de recuperação, a TCP Partners trabalha com uma projeção de um PIB ‘positivo’ de 3,5% para 2021, percentual só possível pela comparação com base muito negativa, como a que será apurada este ano.

De qualquer modo, qualquer resultado mais satisfatório vai depender muito, acrescenta ele, da disposição do investidor privado.

Ciclo de produção quebrado

Para dar uma ideia do clima de indefinição reinante, Jacomassi diz que as fases tradicionais da economia foram ‘quebradas’ pela pandemia.

Aquele ciclo, segundo ele, que começa com os pedidos pelas empresas, por volta de julho e agosto, seguidos do início de produção, entre setembro e outubro, e depois distribuição, em novembro, quando está disponível ao varejista e ao consumidor, não se repetirá em 2020.

“Fica difícil prever o futuro imediato, que deve ser algo muito lento”, sentencia.

Nacionalização já!

A dificuldade de importação de peças e componentes tem levado muitas empresas a voltar no tempo e reeditar os primórdios da industrialização brasileira, nas décadas de 50, calcada pelo ufanismo e nacionalismo.

A diferença agora, porém, não decorre de ideologia, mas de sobrevivência.

Para driblar o entrave externo, a indústria local (segmentos de eletroeletrônicos e aeronáutico), de acordo com o economista, está investindo na nacionalização de componentes.

Sem coordenação política

No que toca a outra fonte de receita, as exportações nacionais foram duramente afetadas pela recessão argentina, cujo mercado era o principal destino dos bens de capital nacionais.

Ao lembrar que o início desse ano foi marcado pela saída em massa de recursos estrangeiros, Jacomassi explica que, para esse investidor, “a falta de coordenação política do governo nas áreas de Saúde e Economia passou uma mensagem ‘errática’ ao mercado”.

No campo social, o economista-chefe não tem bons prognósticos.

Agitação social à vista

“Poderá ocorrer alguma agitação social nos próximos meses. Para atenuar isso, é preciso criar uma política pública específica de atendimento das famílias e haja um compromisso entre os poderes com a aprovação das reformas no Congresso”, concluiu Jacomassi.