Petróleo em baixa e epidemia em alta forçam empresas a adiar IPO

Marcello Sigwalt
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Crédito: Crédito: Blog Empreender Dinheiro

A queda de preço do petróleo e o avanço mundial do novo coronavírus (COVID-19), além de derrubarem as bolsas internacionais, também estão levando empresas brasileiras a adiar, sem previsão, a oferta pública de suas ações (IPO) no mercado nacional, aponta reportagem da Folha de São Paulo, publicada nessa segunda-feira (9).

Um exemplo disso é a BV, antigo Banco Votorantim, que não fixou data, nem prazo para fazer sua IPO, mas garante que isso não vai acontecer nas próximas duas semanas. Já a locadora de veículos pesados e equipamentos Vamos, na contramão do comportamento do mercado, pretende, a princípio, fazer seu lançamento no próximo dia 25, com a expectativa de movimentar na operação cerca de R$ 1,5 bilhão.

Pesa para essa decisão o fato de que a instabilidade global torna inviável realizar a “valuation” – avaliação precisa do valor de uma empresa, antes de colocar suas ações à venda – uma vez que o momento tende a subvalorizá-las, logo na estreia. A explicação dos especialistas é de que “em momentos de aversão ao risco, cresce a tendência de o valor das companhias ser distorcido e reduzido pelos acionistas”.

Negócios em quarentena

O chefe da área de banco de investimento do Bradesco, Alessandro Farkuh, admite ser “difícil discutir valuation num cenário incerto e complexo das ações, aqui e lá fora”. Reforça esse pensamento o fato de que a epidemia global também deprimiu o setor de viagens, considerado essencial para a visita de investidores e o fechamento de negócios.

Mas para o responsável pela área de Finanças Corporativas da consultoria Duff & Phelps, Alexandre Pierantoni, as adversidades atuais alteraram o mercado no curto prazo, mas não no médio e longo.

“Embora não ocorram IPO e roadshows semana que vem, o planejamento anual não sofreu modificação”, argumenta Pierantoni, para quem “a janela de ofertas vai se deslocar mais ‘para a frente’ neste ano, mas não se fechará”.

Já o sócio do Lefosse, Carlos Mello, destaca que, apesar do atraso esperado para as IPO, os respectivos protocolos vêm sendo encaminhados. “A aversão ao risco está sendo observada pelas empresas, mas não há desespero”, observa.

Na verdade, a epidemia global serviu até para acelerar os pedidos de IPO por parte de oito empresas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), após o feriado de Carnaval, em razão da proximidade do prazo, estabelecido pela autarquia, para que sejam usados os dados do último trimestre de 2019.

A perda de tal prazo obrigaria as companhias a refazer sua documentação, levando em conta o primeiro trimestre deste ano. Após ter seu pedido aceito pela CVM, a empresa terá até sete meses para “ir ao mercado”.

Na expectativa do diretor de mercados internacionais da Bolsa de Valores de Nova Iorque (Nyse), porém, mesmo sem definir tempo, a turbulência atual deverá se estabilizar, mas no longo prazo.

“As empresas tendem a esperar que momentos de volatilidade como o atual passem, para então dar continuidade ao processo de abertura de capital”, completa o executivo da Nyse.

Abertura de capital

Para abril próximo, Farkuh prevê a abertura de capital por parte de 30 empresas, número seis vezes maior do que as verificadas no mesmo mês do ano passado. Sem contar as quatro operações realizadas em 2020, outros 27 pedidos já estão protocolados na CVM.

O executivo do Bradesco acrescenta que o binômio juros baixos e inflação baixa acaba “despertando o apetite” do investidor doméstico por IPOs.

Depois de baixar para os atuais 4,25% ao ano, a Selic (taxa básica de juros) pode cair para 3,75% ao ano, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central, dia 18 deste mês. O baixo rendimento da renda fixa também está impulsionando novos investidores à bolsa de valores.