Petrobras (PETR4): mudança no comando deve afastar investidor e empurrar dólar para cima

Felipe Moreira
Especialista em Mercado de Capitais e Derivativos pela PUC - Minas, com mais de 8 anos de vivência no mercado financeiro e de capitais. Certificações: CPA-10, CPA-20 e AAI. Apaixonado por educação financeira e investimentos.
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Crédito: Agência Petrobras

O presidente Jair Bolsonaro anunciou, na última sexta-feira (19), a demissão do presidente da Petrobras (PETR4 PETR3), Roberto Castello Branco, e nomeou para o cargo o general Joaquim Silva e Luna, que estava na direção de Itaipu.

A interferência de Bolsonaro abalou a confiança do mercado sobre a continuidade do plano de desinvestimentos da companhia e traz inúmeras incertezas sobre a independência comercial conquistada pela estatal em 2015.

Na abertura desta segunda-feira, as ações da petroleira desabaram. Enquanto as ações ordinárias (PETR3) recuavam 20,8%, a R$ 21,45; as preferencia desabavam 20,82%, à R$ 21,64, por volta das 14h.

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Abertura das ações PETR3 nesta segunda-feira

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Ações Petrobras desabam. Fonte: B3

De acordo com a Economática, até o final da manhã, o valor de mercado da Petrobras havia recuado R$ 72,5 bilhões, equivalente a uma Natura (NTCO3).

A retração registrada hoje, conforme a Economática, só fica atrás da queda diária de 9 de março do ano passado, em meio ao tombo das cotações dos preços internacionais do petróleo, quando a estatal perdeu R$ 91,1 bilhões.

Impacto no mercado

Isso terá o efeito imediato de afastar investidores, promover a desvalorizção do real perante o dólar e ampliar as incertezas da economia. No longo prazo, deixará mais cara a saída da crise, o ajuste das contas públicas e as reformas, conforme especialistas ouvidos pelo Estadão.

Analistas estima que a recuperação da economia sai prejudicada com o episódio, mas não há um consenso se haverá uma guinada ainda mais populista por parte de Bolsonaro. Caso aconteça, dizem eles, o preço da retomada sairá muito mais alto.

Cabe frisar, no entanto, que a indicação ainda depende de aprovação do Conselho de Administração da Petrobras, que, na tarde de sexta (19), ameaçava demissão em grupo, em demonstração de apoio ao atual presidente Castello Branco.

O mandato de Castello Branco termina em 20 de março e, na terça-feira, haverá reunião do conselho, já prevista, em que a recondução do executivo para mais um mandato seria examinada. Seria a última reunião ordinária do conselho antes do fim do mandato.

Gestão Castello Branco

Castello Branco defendia que a Petrobras deveria focar na exploração pré-sal e redução da dívida, garantindo sobra de recursos para remunerar os investidores.

Dessa forma, sua visão contemplava uma Petrobras focada na atividade de exploração e produção e com ativos concentrados na região Sudeste, redução no número de refinarias e boa pagadora de dividendos.

Segundo reportagem da FolO executivo não cansava de repetir que a estatal remunera mal seus acionistas,
incluindo a União, e aprovou no fim de 2019, a estatal aprovou política que amplia os valores distribuídos aos acionistas quando a dívida bruta estiver abaixo de US$ 60 bilhões —no terceiro trimestre de 2020, eram US$ 79,6 bilhões.

Nos dois primeiros anos em que Castello Branco esteve à frente da estatal, a produção de petróleo e gás da empresa teve alta de 8%, para 2,84 milhões de barris de óleo equivalente por dia, resultado da entrada em operação de
plataformas contratadas pelas gestões anteriores.

Em 2019, a Petrobras registrou lucro recorde de R$ 40 bilhões, impulsionado pela venda de ativos como gasodutos e ações da BR Distribuidora (BRDT3).

O balanço de 2020 será divulgado na próxima terça (23), até o terceiro trimestre, o prejuízo acumulado era de R$ 52,8 bilhões.

A principal meta da gestão da Petrobras após a crise provocada pelo esquema de corrupção investigado pela Operação Lava Jato, caiu de US$ 84,4 bilhões em dezembro de 2018 para os US$ 79,6 bilhões em setembro de
2020.

Ameaça de mais mudanças

Após a demissão de Castello Branco, Bolsonaro promete mais mudanças para a semana, tendo como novo foco o setor de energia elétrica. “Mudança comigo não é de bagrinho, é de tubarão”, afirmou a apoiadores. No sábado, afirmou que vai “meter o dedo na energia elétrica, que é outro problema também”.

Além do alerta de ingerência para este setor específico, outro foi acionado no Banco do Brasil (BBAS3). Isto porque, em episódio recente, Bolsonaro ameaçou demitir o presidente do BB, André Brandão. Ele ficou insatisfeito com o plano de fechamento de agências e consequentes demissões do banco. Segundo o blog do Vicente, do Correio Braziliense, o BB segue atento a qualquer movimento presidencial.

“Como governante, preciso trocar as peças que, porventura, não estão dando certo. Pior do que decisão mal tomada é uma indecisão. O que não falta para mim é coragem para decidir”, disse Bolsonaro.

Ações da Petrobras fecham em baixa

As ações da Petrobras recuaram forte nesta sexta-feira (19), repercutindo a polêmica quanto à ingerência de Bolsonaro sobre a estatal.

As ações preferenciais (PETR4) recuaram 6,63%, cotadas a R$ 27,33; e as ordinárias (PETR3) caíram 7,92%, a R$ 27,10.

O valor de mercado da Petrobras passou de R$ 383 bilhões na quinta para R$ 354,8 bilhões nesta sessão, perda de R$ 28,2 bilhões em valor de mercado.

Especialistas e analistas projetam nova queda das ações da estatal amanhã (22), devido a incerteza causada pelo movimento de Bolsonaro, com a saída de investidores e dólares – o que causará o efeito oposto ao pretendido pelo presidente no preço dos combustíveis.

A alta da moeda americana deve pressionar a inflação. E a intervenção na estatal gerará ainda novos embates políticos, exatamente na semana decisiva para a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que deve viabilizar a nova rodada do auxílio emergencial, associada a medidas de compensação fiscal.

Aumentos dos preços dos combustíveis

A Petrobras anunciou na quinta-feira (18) um novo aumento, o quarto no ano, nos preços da gasolina e do diesel.

Com isso, o litro nas refinarias chegará a R$ 2,48 (gasolina) e R$ 2,58 (diesel). Os aumentos somam 15,2% para o diesel e de 10,2% para a gasolina.

Os aumentos têm o objetivo de contrabalancear as perdas obtidas durante 2020 por conta da pandemia e a consequente diminuição da demanda por combustível.

Composição dos preços

No comunicado sobre o aumento, a companhia afirmou que “o alinhamento dos preços ao mercado internacional é fundamental para garantir” que o mercado brasileiro “siga sendo suprido sem riscos de desabastecimento”.

Em seguida elenca os diferentes atores responsáveis pelo atendimento às diversas regiões brasileiras: distribuidores, importadores e outros refinadores, além da Petrobras.

“Este mesmo equilíbrio competitivo é responsável pelas reduções de preços quando a oferta cresce no mercado internacional, como ocorrido ao longo de 2020”, acrescentou.

Variações nos preços

De acordo com a petroleira, os preços praticados e suas variações para mais ou para menos são associadas ao mercado internacional e à taxa de câmbio – com influência limitada sobre os preços percebidos pelos consumidores finais.

Dessa forma, o preço da gasolina e do diesel vendidos na bomba do posto revendedor é diferente do valor cobrado nas refinarias da Petrobras.

Até chegar ao consumidor são acrescidos tributos federais e estaduais, custos para aquisição e mistura obrigatória de biocombustíveis, além das margens brutas das companhias distribuidoras e dos postos revendedores de combustíveis, acrescentou.

Veja a composição do preços dos combustíveis

Cálculo baseado nos preços médios da Petrobras e no levantamento de preços ao consumidor final em 13 capitais e regiões metropolitanas brasileiras publicado pela ANP para a semana de 07 a 13/02/2021.

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“Vale destacar ainda que as revisões de preços feitas pela Petrobras podem ou não se refletir no preço final ao consumidor”, acrescentou.

“Como a legislação brasileira garante liberdade de preços no mercado de combustíveis e derivados, a mudança no preço final dependerá de repasses feitos por outros integrantes da cadeia de combustíveis.”

Preço final no Brasil e no mundo

A Globalpetrolprices.com pesquisou o preço médio de 167 países e o valor, em dólares, foi 17% inferior à média mundial.

Assim ocupando a 56ª posição do ranking – abaixo de 111 países.

No caso do diesel, com base no levantamento de 166 países, os valores cobrados no Brasil são 28% inferiores à média mundial, ocupando 43ª posição – inferior a 123 países.

Em ambos os casos, os preços médios no Brasil estão abaixo dos preços registrados no Chile, na Argentina, no Peru, no Canadá, na Alemanha, na França e na Itália, destaca a Petrobras no material enviado à imprensa.