Petrobras (PETR4) não sentirá choque do petróleo, dizem especialistas

Osni Alves
Jornalista | osni.alves@euqueroinvestir.com

Crédito: TERMINAL AQUAVIARIO DE ILHA D'AGUA, REDONDA DE PETROLEO E COMBUSTIVEL NA BAHIA DA GUANABARA DA TRANSPETROFOTO: GERMANO LUDERS 12/05/2010

Levantamento do jornal Estado de S. Paulo indica que a Petrobras (PETR4) não deverá sentir o choque do petróleo, conforme especialistas ouvidos pelo periódico.

Isso porque, segundo eles, o tombo histórico do petróleo nos Estados Unidos atingirá principalmente os players que negociam o óleo WTI, o que não é o caso do Brasil.

Acontece que a petroleira brasileira utiliza como referência o óleo tipo Brent, o que acaba sendo uma blindagem, conforme o analista Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos.

Ainda assim, a volatilidade no preço do óleo WTI tira o ímpeto dos mercados globais e isso repercute de alguma forma no Brasil, avaliou Arbetman.

Para ele, o mercado de petróleo vive uma espécie de guerra de preços. Ele lembra que a Petrobras já foi obrigada a fazer doze reduções de preço neste ano para não perder clientes internacionais.

Superintendente de research da Ágora Investimentos, José Francisco Cataldo afirmou que o ponto de inflexão nos preços do petróleo só ocorrerá no primeiro trimestre de 2021.

Ocorre que o impacto do coronavírus sobre a demanda deverá diminuir até lá. “Por enquanto, nós estamos estimando que o barril do óleo Brent fechará em 32 dólares em 2020 e 43 dólares em 2021”, frisou.

Fonte: tradingview

Preço negativado

O preço do barril do petróleo WTI foi negociado em Nova York abaixo de zero pela primeira vez na história.

Com queda de mais de 300%, a commodity entrou em terreno negativo, cotada a menos 37,63 dólares.

Acontece que com a desaceleração da economia por conta do coronavírus, a demanda por petróleo desabou.

Assim, os estoques se encheram e não há mais espaço para armazenar o produto. Fornecedores estão sendo pagos para ficar com o combustível, o que explica as cotações negativas.

Desequilíbrio

Chefe de análises da Toro Investimentos, Rafael Panonko ressalta que houve um desequilíbrio muito forte entre oferta e demanda.

Com os estoques no limite, praticamente não há compradores. “Quando o vencimento se aproxima, em vez de rolar os contratos para frente, os players decidem encerrar suas posições (vender), o que derruba os preços”, explicou.

Para ele, ainda que a recessão econômica seja global, os norte-americanos sofrem mais, por conta de uma particularidade daquele mercado, em que predominam os pequenos produtores.

Economista da Coface para a América Latina, Patrícia Krause explica que o governo dos EUA tem controle menor sobre eles, por isso é mais difícil ajustar a produção à demanda.

Em países que têm grandes petroleiras, isso facilita um acordo. “Com os estoques no máximo, chega um ponto em que se paga para se livrar do excesso. Não dá para jogar o petróleo no mar”, disse.

Para ela, o excesso de oferta naquele país já vinha se desenhando nos meses anteriores à explosão da pandemia.

“Os estoques cresceram 48% em janeiro e fevereiro, por conta da demanda em queda.”

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Preço dos contratos

Até agora, conforme o levantamento, esse choque de preço ainda não se refletiu nos contratos com vencimento em junho.

Por enquanto, o preço do barril de óleo WTI para o mês que vem é de cerca de 20 dólares.

Sócio da Portofino Investimentos, Adriano Cantreva frisa que não existe nenhuma garantia de que o mesmo problema não voltará a acontecer em junho.

“Pode ser que a situação se estenda por meses. O preço está em 20 dólares porque se espera que a demanda tenha começado a se recuperar até lá. Mas isso é apenas uma aposta”, disse.

Oferta e demanda

De acordo com os especialistas, se o desequilíbrio entre oferta e demanda provoca incerteza, a volatilidade tende a se dissipar nos contratos mais longos.

“Os contratos para dezembro, por exemplo, não estão tão voláteis, porque a expectativa é de que a situação se normalize no segundo semestre”, diz Panonko.