Petrobras (PETR3; PETR4) terá seu 39º presidente em 68 anos

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Crédito: André Motta de Souza/Agência Petrobras

Em 68 anos de história a Petrobras (PETR3; PETR4) terá seu 39º presidente com a recente indicação do general Joaquim Silva e Luna para assumir o lugar de Roberto Castello Branco. Na média, cada presidente ficou 1,7 anos à frente da estatal, diz relatório do UBS.

“Essas mudanças com frequência podem levar a mudanças na estratégia, cultura, direção e podem minar a credibilidade com investidores de longo prazo”, afirmam os analistas.

Há apenas duas semanas, o UBS havia publicado relatório em que ressaltava a importância de a Petrobras ser independente e abordava a influência de seu controlador ao longo dos anos.

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Assim, com a estatal anunciando um novo aumento de preços na semana passada (de +10% para a gasolina e +15 para o diesel), buscando seguir o petróleo internacional e a desvalorização cambial, o presidente da República Jair Bolsonaro decidiu trocar o presidente da Petrobras.

A dúvida, segundo o UBS, é: além da influência do acionista controlador, a estratégia para a Petrobras mudará?

Esse ponto de interrogação é crucial para definir a estratégia de longo prazo da empresa. O UBS ressalta que a Petrobras ainda tem um FCFY (fluxo de caixa livre do rendimento) anualizado de 25% e atraente múltiplos contra seus pares.

Mas se a empresa decidir mudar: sua política de preços de combustíveis e passar a subsidiar novamente os preços domésticos de combustíveis (como visto entre 2010-2014); e mudar a direção dos desinvestimentos (principalmente no refino e gás natural), “poderemos observar uma mudança de 180 graus na estratégia da empresa, o que é crucial à nossa tese de investimentos”, diz a UBS.

Por enquanto, a recomendação ainda é de compra para a Petrobras. Preço-teto de R$ 34 para PETR3 e de R$ 31 para PETR4.

Histórico recente

No 4T20, a produção nacional de petróleo da Petrobras atingiu 1,9 mbd, enquanto o refino da empresa foi de 1,8 mbd. O consumo de combustível no Brasil atingiu 2,3mbd, o que leva a um necessidade de importação de cerca de 0,5 mbd, ressalta o UBS.

De 2010-2014, a empresa por meio de seu conselho diretor, limitou os preços dos combustíveis no Brasil para evitar um impacto inflacionário. “Essa medida gerou perdas de cerca de US$ 2,5 bilhões por trimestre, totalizando cerca de US$ 40 bilhões em perdas no comércio de importação de combustíveis”, destaca o relatório.

Assim, a Petrobras teve que ir para o mercado internacional para comprar o produto a preços de mercado internacional, adicionando os custos de importação e, em seguida, venderam esses produtos no Brasil a preços mais baixos, levando a uma queda drástica no valor patrimonial.

De novembro de 2015 até agora, a empresa implementou uma política “gratuita” de alinhamento de preços domésticos com benchmarks internacionais e recuperando as perdas que teve de 2010-2014.

No entanto, segundo o UBS, esse movimento foi questionado em meados de 2016 com a greve dos caminhoneiros que parou o Brasil por algumas semanas. Naquele cenário, a Petrobras foi forçada a mudar sua política e subsidiou os preços do diesel por um tempo.

O preço do petróleo caiu no mercado internacional, facilitando o trabalho da Petrobras.

Mas, agora, com os preços do petróleo se recuperando, a empresa teve que começar a aumentar os preços novamente.

Pontos cruciais para a Petrobras

O UBS ressalta que se tem discutido a política de preços de combustíveis da Petrobras nos últimos 10 anos. O “fantasma” do ocorrido entre 2010-2014 ainda persegue a capacidade da empresa de acompanhar os preços internacionais, pois ainda é tida como responsável pelos preços dos combustíveis no Brasil, com 98% da capacidade de refino no país, dizem os analistas.

“A nosso ver, o desinvestimento do negócio de refino é fundamental para acabar com este ‘fardo’ na Petrobras. Assim que houver mais players no mercado, as discussões sobre subsídios dos dos combustíveis fósseis enquanto o mundo está se transformando rapidamente em um matriz energética mais limpa, poderia chegar ao fim”, ressalta o UBS.

Para o banco existem dois pontos cruciais que deveriam ser mantidos pela nova gestão:

  • A manutenção da política de preços dos combustíveis, não havendo subsídio de nenhum produtos no mercado interno levando a perdas;
  • A manutenção do processo de desinvestimento, principalmente nas refinarias e ativos de gás natural, os dois últimos monopólios do setor energético brasileiro.

“Em nossa opinião, a única maneira de mudar estruturalmente essa influência é acabar com os monopólios através da criação de maior competição”.

Questões em aberto

O UBS listou quatro questões que podem ditar os rumos da Petrobras.

  1. Haverá uma renúncia da gestão da Petrobras em massa? Nada foi confirmado, mas o CEO trouxe cerca de 30-40 executivos para a empresa com ele, então o UBS vê potencial para mais demissões.
  2. O conselho pode deliberar sobre a nomeação dado o novo estatuto em vigor da Petrobras para prevenir a influência do governo? Sim e não, diz o UBS. Sim, porque o estatuto diz que o CEO da empresa precisa ser um membro do conselho. Primeiro, Luna precisa ser confirmado como conselheiro em substituição a Castello Branco. Só depois disso a empresa seria capaz de convocar uma assembleia para que os membros do conselho pudessem votar sua nomeação como CEO, o que deve levar 30 dias (a partir desta terça-feira).
  3. O novo conselho tentará alterar o estatuto? E se o fizerem, eles correm o risco de ações judiciais de acionistas? O UBS não acredita que o conselho procura alterar o estatuto neste momento.
  4. Existe alguma chance do presidente reverter sua decisão? O presidente tem feito várias declarações públicas até o momento, por exemplo, “as mudanças não acabaram e há mais por vir no setor de energia”.