Perspectivas para o ouro em 2022: qual a tendência para o próximo ano?

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.

Crédito: Pixabay

Até meados de dezembro, o ouro acumulava baixa de 6% em relação a 2020, a primeira queda anual em três anos.

Em entrevista à Bloomberg, Evy Hambro, chefe de investimento temático e setorial da gestora BlackRock, disse que o ouro parece relativamente desfavorecido atualmente. Isso porque há um movimento de saída de investidores de fundos de índice com lastro em ouro físico. No acumulado do ano, o SPDR Gold Shares, maior ETF com foco em ouro, registrou saídas líquidas de mais de US$ 10 bilhões. Isso equivale a, aproximadamente, 193 toneladas do metal. Esta é a maior saída registrada desde 2013.

Perspectivas para o ouro em 2022: o que impacta no desempenho da commodity?

De acordo com Yuri Pereira, analista de commodities da EQI Investimentos, as perspectivas de alta dos juros influenciam negativamente na demanda pelo ouro. “Existe uma correlação negativa entre o ouro e o tesouro americano. Além de não pagar dividendos, o metal tem custo de estocagem e, eventualmente, seguro também. Por isso, quando os juros nos EUA sobem, o ouro acaba ficando menos atrativo, por conta dessas características”, explica.

No entanto, caso haja um avanço maior da variante Ômicron do coronavírus, isso poderá fortalecer o ouro como um ativo defensivo.

“Se novos lockdowns vierem e isso impactar a atividade econômica, os bancos centrais poderão reduzir juros. Dessa forma, o ouro voltaria a ficar atrativo, principalmente se a inflação persistir”, avalia Yuri.

Inflação em alta

Em entrevista ao portal Investing.com, Andy Hetch, ex-trader da Phillip Brothers (que agora pertence ao Citigroup) acredita que 2022 seja um ano mais favorável para o ouro. Um dos motivos é a inflação em alta no mundo, impulsionada pelo grande volume de estímulos e pelos gargalos nas cadeias produtivas. Tudo isso tende a beneficiar o metal. Além disso, os bancos centrais e os governos permanecem sendo compradores líquidos de ouro, pois o metal integra as reservas de câmbio internacionais.

Para Hetch, a alta dos juros nos EUA e o dólar forte podem ser desafios em 2022, não só para o ouro, mas para outros metais preciosos também. Segundo ele, quando o Federal Reserve (Fed) antecipou o tapering, isso favoreceu o dólar. Dessa forma, a reação instintiva do mercado foi vender ouro, pois custa mais caro carregá-lo. Além disso, à medida que o dólar se valoriza, o metal deve subir em comparação a outras moedas.

No entanto, segundo o ex-trader, há dois fatores que podem ocasionar uma reação oposta. Um deles são os juros reais nos EUA (taxa nominal menos inflação), que continuam negativos. Isso porque o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) norte-americano divulgado em 10 de dezembro é de 6,8%.

O outro fator é que todas as moedas fiduciárias estão perdendo valor. Dessa forma, na opinião de Hetch, a alta do dólar seria ilusória. “Os mercados cambiais só medem os instrumentos de câmbio em comparação com pares de moedas. Quando consideramos o poder de compra, a inflação deteriora o valor de todas as moedas, inclusive do dólar”, afirma.

Fed e a inflação norte-americana

Na última reunião de 2021 da autoridade monetária norte-americana, foi anunciado que o programa de compra de títulos acabará em março. Dessa forma, já estão previstos três aumentos de 0,25 ponto percentual nos juros norte-americanos para 2022.

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De acordo com o Fed, a pandemia ocasionou uma escalada na inflação, que precisa ser combatida de forma mais austera. Em entrevista após a reunião, Jerome Powell, presidente do Fed, declarou que “a economia não precisa mais de quantidades crescentes de apoio da política monetária. Em minha opinião, estamos fazendo rápido progresso em direção ao pleno emprego”.

Para Hambro, da BlackRock, as forças inflacionárias atuais levam  a acreditar que as expectativas de inflação continuarão em alta ao longo de 2022. “O motor mais importante para o ouro são os juros reais, que são guiados pela taxa de juros e pelas expectativas de inflação. Por isso, vemos um forte argumento para adicionar ouro como diversificação hoje, dado que os mercados acionários estão perto de máximas históricas e ainda há um risco significativo relacionado à pandemia”, declarou ele à Bloomberg.

É momento de investir em ouro?

O executivo da BlackRock também declarou à Bloomberg que, normalmente, momentos em que a percepção sobre o ouro e ativos ligados ao metal se torna muito negativa costumam apresentar oportunidades de compra. “O motor mais importante para o ouro são os juros reais, que são guiados pela taxa de juros e pelas expectativas de inflação. Logo, vemos um forte argumento para adicionar ouro como diversificação hoje, dado que os mercados acionários estão perto de máximas históricas e ainda há um risco significativo relacionado à pandemia.”

Já Robin Tsui, estrategista de ouro para Ásia-Pacífico e Global SPDR Business na State Street Global Advisors, avalia que a queda do ouro pode abrir caminho para mais interesse em ETFs em 2022. Nesse sentido, os fundos funcionariam como proteção contra as incertezas globais.

Por fim, Andy Hetch declara ao Investing.com estar otimista com o ouro em 2022. Para o ex-trader, mesmo com o aperto da política monetária, os trilhões de liquidez em estímulo fiscal desde o início de 2020 tornarão mais difícil o enfrentamento da inflação.

“O ouro pode sofrer pressão de venda com a mudança de comportamento do Fed, mas acredito que preços menores criarão uma brilhante oportunidade de compra no futuro. O ouro não caiu na graça dos investidores e traders no fim de 2021, o que pode ser uma razão perfeita para um rali em 2022 e nos próximos anos. A faixa de negociação do ouro em 2020 foi US$ 612,10; em 2021, foi de US$ 289,20, evidenciando que o metal se consolidou neste ano”, conclui Hetch.