Risco fiscal e EUA: entenda o que vai mexer com o Ibovespa

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.

Crédito: Reprodução/Pixabay

Depois de um setembro muito ruim, o Ibovespa briga para se manter acima dos 95 mil pontos em outubro, mas os ruídos políticos têm sido um entrave.

Os dois principais pontos de atenção no momento são o risco fiscal no mercado interno e as eleições americanas. E por conta desses fatores, a expectativa é de muita volatilidade pela frente. Entenda o que pode mexer com a bolsa brasileira nos próximos meses.

Ibovespa “empacado” nos 95 mil pontos

Em setembro, o principal índice da bolsa recuou 4,8% e perdeu os 100 mil pontos, fechando o período em 94.603.

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Já nos primeiros dias de outubro, o Ibovespa registra ganhos acima de 1%, oscilando entre os 95 e os 97 mil pontos.

O dia ltimo dia 6, em especial, foi representativo das pressões internas e externas que a bolsa vem sofrendo.

Pela manhã, o mercado repercutia com otimismo o que parecia ser um happy end para as polêmicas envolvendo o ministro da Economia Paulo Guedes. Depois de muita troca de farpas, ele e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), selaram. Ambos assumiram compromissos com teto de gastos e agenda de reformas.

O mercado interpretou que sinalizações importantes estavam sendo dadas ali e o Ibovespa manteve-se nos 97 mil pontos.

Ibovespa e eleições americanas

No entanto, no final da tarde, o presidente americano twitou que sobre o cancelameto de um novo pacote de estímulos.

As bolsas do mundo inteiro vieram abaixo com as postagens de Trump. O Ibovespa fechou com queda de 0,49%, voltando aos 95 mil pontos.

Nos EUA, Donald Trump, polêmico como só, já afirmou que não aceitará o resultado das eleições, caso não vença. O que faz com que o mercado tema uma judicialização interminável do pleito.

 

Renda Cidadã e risco fiscal

Já por aqui, a novela do Renda Cidadã prossegue, com propostas polêmicas e desmentidos.

A verdade é que o governo quer implantar um novo programa social, mas não tem de onde tirar dinheiro para isso.

As idas e vindas do projeto contribuem para aumentar o medo de que haja um calote por parte do governo.

Com a taxa básica de juros (Selic) em seu piso histórico, 2%, o governo tem dificuldades para se financiar.

“Temos rendimento baixo e risco alto de calote. Isso implica em fuga de capital”, explica Victor Beyruti, economista da Guide.

Ou seja, o investidor estrangeiro procura outro mercado que tenha um risco menor, ou até parecido, mas com rendimento maior. Ele deixa a bolsa e, na sequência, dólar sobe e Ibovespa cai.

“A questão fiscal segue preocupando muito. O próprio Tesouro Selic com rendimento negativo é sinal de que o Brasil não vem conseguindo se financiar”, diz Paulo Filipe de Souza, analista e sócio daEQI Investimentos.

Para Marcos Iório, gestor da Integral Investimentos, enquanto não houver comprometimento com reformas e com a questão fiscal, o Ibovespa deve seguir oscilando na casa dos 95 mil pontos por semanas ou até meses.

Ibovespa: ações que podem se destacar

Caso haja uma piora na situação fiscal, a tendência é de alta do dólar, o que deve estimular ações das empresas exportadoras, com destaque para siderurgia, frigoríficos e papel e celulose.

Em sentido contrário, tendo uma sinalização positiva de rigor fiscal, as ações que tendem a se valorizar são as domésticas, especialmente de varejo e construção.

Grandes bancos fazem alerta sobre risco fiscal

Os grandes bancos também vêm apontando preocupação com a situação fiscal brasileira. “A política fiscal está convidando a uma crise da dívida”, diz relatório do Deutsche Bank.

O Itaú Unibanco estima uma elevação de despesas sociais de R$ 33 bilhões para R$ 66 bilhões, com o novo programa social, o que poderá estourar o teto em R$ 20 bilhões em 2021.

Já o Santander aponta que novos gastos obrigatórios poderiam minar o quadro de “consolidação fiscal”.

Segundo o Banco Central, a dívida bruta fechou agosto em R$ 6,39 trilhões, o equivalente a 88,8% do Produto Interno Bruto (PIB).

Em relatório recente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou que o PIB do país deve ter queda de 5,8% em 2020. Alertou também para a necessidade de se trabalhar por reformas e pela consolidação fiscal.

Risco fiscal: entenda o que afeta o Ibovespa

O desequilíbrio das contas públicas no Brasil é uma questão bastante antiga, mas que ganhou contornos mais acentuados durante a pandemia.

Isso aconteceu porque o governo foi obrigado a lançar mão de medidas emergenciais de auxílio econômico às famílias e às empresas. Neste contexto entra o “coronavoucher” de R$ 600 mensais (depois transformados em R$ 300 mensais), que deve ser substituído pelo Renda Cidadã.

O resultado é que a dívida pública bruta já compromete quase 90% do Produto Interno Bruto (PIB). O déficit deve chegar a R$ 1 trilhão até o final do ano.

Paralelamente, acontece um movimento político que busca ainda mais investimentos e mais endividamento público.

A princípio, a argumentação é que furar o teto de gastos seria uma situação restrita ao período da pandemia. Mas o mercado sabe, por experiências anteriores, que abrir brechas no orçamento é dar um pontapé inicial na irresponsabilidade fiscal.

À equipe econômica coube, então, a missão inglória de desenhar um programa social que agrade a políticos e eleitores e que caiba no teto de gastos.

Só que as todas soluções apresentadas até aqui vêm sendo fortemente rechaçadas.

Governo engessado com o Renda Cidadã

Já se cogitou cortar o abono salarial, o seguro-desemprego, o Farmácia Popular, as verbas da educação e o pagamento de precatórios (que são dívidas do governo já julgadas, ou seja, que já têm  direcionamento certo. Portanto, desviar este dinheiro seria uma espécie de calote).

“O governo está engessado. Grande parte do orçamento é custo empenhado que já tem destino certo. Apenas um percentual muito pequeno tem como ser realocado. Para criar esse programa social, o governo precisa arrumar recursos”, diz Haroldo Monteiro, coordenador do MBA de finanças na Universidade Veiga de Almeida (UVA).

Para o governo criar essa nova receita, ele diz, é preciso reduzir despesas fixas ou fazer a reforma administrativa. O que vai doer no bolso do funcionalismo público.

Outra saída seria criar mais impostos ou mexer na alíquota de imposto de renda, o que também já vem sendo cogitado pela equipe econômica.

Eurasia vê encruzilhada fiscal

Muito tem se falado sobre uma possível guinada populista do governo.

Para a Eurasia, consultoria de análise de risco político, é pequena essa probabilidade, de apenas 10%. Já a chance de Paulo Guedes deixar o Ministério da Economia é maior, de 30%, na avaliação da consultoria.

“O Brasil certamente parece caminhando para uma dramática encruzilhada fiscal. O país entrou na pandemia com uma alta dívida bruta em relação ao PIB de 76%. Depois de gastar quase 8% do PIB em alívio fiscal, a dívida ficará entre 95% e 100% do PIB. O pacote de alívio garante que o Brasil evite uma crise econômica dramática. O grande desafio resume-se a como fazer a transição de volta para a disciplina fiscal”. É o que afirma o relatório assinado por Christopher Garman, diretor para as Américas.

A consultoria aponta dois principais cenários prováveis para o dilema. Uma reforma fiscal que permita a violação do teto de gastos. Ou a manutenção de um cenário em que nada é feito e os gastos são mantidos dentro do limite para 2021. A conferir.

 

Ibovespa

Reprodução/Eurasia

 

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