Paulo Guedes: com quase dois anos no cargo, o superministro enfraquecido

Giovana Kindlein
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Entrevista coletiva do ministro da economia, Paulo Guedes

A três meses de completar dois anos no cargo de ministro da Economia, Paulo Guedes está enfraquecido. Em setembro, ele e seu time chegaram a ser ameaçados com “cartão vermelho” pelo presidente, caso o Renda Brasil (ou Renda Cidadã) fosse criado com cortes em outros programas sociais. 

Nos últimos dias, a tensão aumentou com a briga pública entre Guedes e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. No centro do embate, está o teto de gastos e, novamente, o Renda Cidadã.  Esse é o programa que Jair Bolsonaro quer criar para substituir o auxílio emergencial concedido por conta da pandemia.  

A equipe econômica briga para que o novo projeto de transferência de renda não fique de fora do teto de gastos, uma regra fiscal que limita os gastos públicos. “Não vamos furar o teto para fazer política”, avisou o ministro. 

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Guedes é o fiador econômico do Governo Bolsonaro. É nele que o mercado financeiro e empresários depositam sua confiança quanto ao cumprimento do controle fiscal e avanço das reformas. Quando ela está abalada, a bolsa vacila, o dólar sobe e as perspectivas para os investidores ficam nebulosas. 

  • Conheça a trajetória desse economista que chegou a Brasília como “superministro” de Jair Bolsonaro e que agora trava uma verdadeira batalha para manter sua agenda liberal. 

Comunhão parcial de interesses

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro se encontraram pela primeira vez no início de 2018. O então candidato à presidência estava atrás de um economista que o auxiliasse na campanha e que inspirasse confiança. Na época, Guedes apoiava o apresentador Luciano Huck, que acabou desistindo de se candidatar.

O economista acabou se aproximando do capitão reformado e se tornou o responsável pelo projeto econômico durante a campanha. Não dá para dizer que eles se uniram por rezarem a mesma cartilha econômica. Bolsonaro, um nacionalista, sempre admitiu que não entendia do assunto e durante sua vida parlamentar defendeu pautas que eram completamente contrárias aos princípios de Guedes, um liberal. 

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Sabendo de sua inaptidão para tratar de temas econômicos, Bolsonaro passou a campanha eleitoral dirigindo essas questões ao seu guru, a quem batizou de “Posto Ipiranga”, numa referência aos comerciais da rede de postos de combustíveis. 

Em janeiro de 2019, quando Jair Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto, Paulo Guedes assumiu o cargo de ministro da Economia, com a fusão dos ministérios da Fazenda e do Planejamento.

No ano passado, Guedes colocou em curso sua agenda liberal. A ideia era ter aprovado logo no primeiro semestre a reforma da Previdência, mas as mudanças na aposentadoria só saíram mesmo em novembro, depois de 9 meses de tramitação e de muito bate boca entre Guedes e parlamentares. 

O ministro tentou aprovar uma reforma que reduziria em R$ 1 trilhão os gastos públicos no período de dez anos. Mas o texto final saiu mais enxuto, com uma economia de R$ 800 bilhões. 

A bolsa de valores bateu recorde no fim do ano, ainda que o desempenho da economia tenha frustrado as expectativas. No começo de 2019, as projeções indicavam um crescimento do PIB de 2,5% – o que não aconteceu. A economia brasileira cresceu apenas 1,1%. 

Guedes no meio do tiroteio

Em 2020, a vida de Guedes ficou mais difícil no governo. As reformas emperraram no Congresso ou foram paralisadas por Bolsonaro. As privatizações não avançaram. Aumentou a disputa entre a ala que defende a ampliação dos gastos públicos e o time da economia, que defende mais rigor fiscal. O estrago econômico deixado pela pandemia acabou intensificando esse embate e tornando ele público – como aconteceu recentemente com Rogério Marinho. 

A reforma administrativa foi enviada para o Congresso, mas está parada. A reforma tributária ficou para 2021 e, no momento, Guedes tenta emplacar uma nova CPMF. 

No meio do caminho, o ministro perdeu nomes importantes de sua equipe, como Salim Mattar, secretário especial de desestatização, Paulo Uebel, responsável pela secretaria especial de desburocratização e Mansueto Almeida, secretário do Tesouro Nacional.

Em meio à essa batalha para manter a agenda liberal e o controle fiscal, há quem já aposte na saída de Paulo Guedes. Economistas que conhecem o ministro, no entanto, garantem que ele não vai largar o osso. 

Origens de Paulo Guedes 

Paulo Roberto Nunes Guedes nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1949. Mas passou a infância e juventude no Bairro Barroca, Região Oeste de Belo Horizonte, onde estudou no Colégio Militar. 

Sua mãe era funcionária pública do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) e seu pai vendia material escolar. Guedes se formou economista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e fez mestrado na Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

Em 1974, conquistou uma bolsa pelo CNPq para estudar na Universidade de Chicago, berço do liberalismo econômico. Lá, teve como professor o Prêmio Nobel de Economia, Milton Friedman. Em 1979, Guedes obteve o título de PhD. Sua tese de economia matemática sobre política fiscal e endividamento externo na Universidade de Chicago nunca foi publicada, segundo a Folha de S. Paulo. 

Aos 30 anos, de volta ao Brasil, Guedes tentou inicialmente a carreira acadêmica. Chegou a dar aulas na PUC-RJ, na FGV e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). 

Em reportagem da revista Piauí, Guedes extravasou seu desapontamento com os colegas da PUC e disse que as universidades eram grupos fechados naquela época. Sem sucesso no universo acadêmico brasileiro, o economista aceitou uma proposta para dar aulas na Universidade do Chile. O país era comandado pelo ditador Augusto Pinochet e passava por uma série de reformas econômicas lideradas por liberais – os chamados Chicago Boys. 

Depois do Chile

Seis meses depois, Guedes decidiu voltar com a mulher para o Brasil e recebeu um convite para trabalhar no Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), onde foi professor, diretor e sócio. Como diretor-técnico do IBMEC, era frequentemente consultado pela imprensa.

Suas críticas contra os planos econômicos do governo lhe renderam o apelido de Beato Salu, personagem da novela Roque Santeiro que apregoava o fim do mundo. 

Paralelamente, em 1983, fundou o Banco Pactual, juntamente com Luiz Cezar Fernandes e André Jakurski. Por divergências com os sócios, deixou o negócio em 1997.

Após deixar o Pactual, fundou o Instituto Millenium, que preconiza as ideias de Friedman. Também foi sócio fundador da JGP Gestão de Recursos Próprios Ltda., de 1998 a 2000; e sócio fundador da Bozano Investimentos, de 2003 a 2018. 

Persuasivo e habituado a rodadas de negócios ao longo de décadas, foi convidado para muitas palestras e debates econômicos. Durante anos foi colunista do jornal O Globo, da Folha de S. Paulo e da revista Exame.