Krugman teme redução da capacidade econômica pós-pandemia

Giovanna Castro
Jornalista formada pela UNESP.
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Crédito: Economista Paul Krugman, convidado do Cognition Unisinos, falou sobre a recuperação dos Estados Unidos sobre a crise econômica causada pela pandemia do corona vírus - Foto: Pinterest

O vencedor do prêmio Nobel de economia 2008, Paul Krugman, foi o convidado a falar nesta terça-feira (29) no evento online Cognition, da Unisinos, promovido pela EQI.

Em sua palestra, disse que há a possibilidade latente de uma diminuição da capacidade da economia global pós-pandemia. E traçou um panorama da crise sanitária e suas consequências econômicas.

O evento, que começou nesta segunda-feira (28) e vai até sexta-feira (2), pode ser acessado neste link.

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Krugman comentou sobre como os Estados Unidos agiram em relação à crise do coronavírus.

Para ele, as medidas de incentivo à renda e as facilidades de empréstimos criadas pela Federal Reserve (Fed) ao mercado financeiro ajudaram a conter a crise.

Acordo por incentivo à economia

O economista explicou que a Câmara de Deputados, de maioria democrata, conseguiu aprovar o auxílio a desempregados e empréstimos a empresas afetadas pela crise sem resistência dos republicanos, o que não é comum.

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Segundo ele, isso só ocorreu porque todos estavam em estado de choque com a situação da pandemia e os republicanos não tinham uma proposta para apresentar.

Por isso, acabaram acatando emergencialmente a medida “bastante generosa” dos democratas.

Realidade da economia pós-pandemia ainda é incerta

Geralmente, quando ocorrem crises, os economistas se baseiam em momentos históricos similares no passado para fazer previsões e tomarem medidas.

No entanto, no caso da pandemia da Covid-19 isso não foi possível, por se tratar de uma situação nunca antes vista, disse Krugman.

Desta forma, fica difícil prever o que deve acontecer na economia pós-pandemia. Mas adiantou que o Fed teme algumas “cicatrizes”.

Essas “cicatrizes” são, em resumo, uma redução na capacidade da economia causada pelos efeitos da paralisação.

Danos à economia

O setor de restaurantes, por exemplo, sofreu muito com as medidas de isolamento. Muitos estabelecimentos fecharam e, mesmo quando a pandemia acabar e as pessoas voltarem a frequentar esses ambientes, muitos deles já não existirão mais.

Pode levar um tempo até esses empresários retomarem seus negócios. A confiança precisará ser restabelecida ao ponto de pessoas voltarem a investirem. E isso pode causar muitos danos.

“Nos preocupamos pouco, eu não tenho certeza sobre o quão grave será isso”, comentou o especialista. Para ele, com certeza, a economia de 2022 será bem diferente da economia de 2019.

Outro ponto mencionado foi uma possível crise de realocação.

Após a pandemia, as pessoas talvez não voltarão a trabalhar nas mesmas atividades de antes.

Nesse ponto, algumas atividades podem sofrer mais que outras.

“Choque único na economia”

Krugman enfatizou que o que estamos vivendo hoje é difícil de analisar, já que nunca ocorreu algo igual na economia mundial capitalista.

Segundo ele, anteriormente existiam dois tipos de choques econômicos previstos: os de demanda e os de oferta.

Choques de demanda são quando algum acontecimento faz com que as pessoas cortem seus gastos, consumindo menos, como ocorreu com a crise dos mercados financeiros em 2008.

Já os choques de oferta são quando um acontecimento faz com que se reduza a oferta de bens e serviços. Esse tipo de choque é inflacionário e temos como exemplo a crise do petróleo em 1979.

“Normalmente, as recessões são contidas porque houve alguma perturbação dos mercados financeiros, ou gastos ou, em alguns casos, impasse inflacionário. Não foi isso que aconteceu”, explicou.

Suspensão X recessão

Foi um fechamento menos deliberado de parte substancial da economia, definiu o economista. Por isso, alguns especialistas dizem que foi uma supressão e não uma recessão.

“Precisávamos fazer isso. Esse foi um daqueles casos em que o PIB é realmente a medida errada de sucesso, o emprego humano é realmente a medida errada de sucesso, porque essa era a coisa necessária que você tinha que fazer para evitar uma sobrecarga completa no sistema de saúde pela pandemia”.

Seria o fim da história não fosse pela possibilidade contínua de uma segunda rodada de consequências, que são a supressão e o desligamento de certos tipos de atividades.

Isso tudo leva a mais perda de produção e de empregos.

Por conta do vírus, foi necessário coibir muitas atividades econômicas que envolviam grande risco de propagação. E a quarentena, que é a resposta imediata ao vírus, acaba causando um choque tanto de demanda, como de oferta.

Dois canais fontes de preocupação

Para o economista, duas questões seriam o foco de preocupação em relação à pandemia, caso não tivessem sido controladas nos Estados Unidos com as medidas antes mencionadas.

A primeira envolve receitas e despesas. Alguns setores sofreram muito com as medidas de isolamento e com o medo instaurado na população, como turismo, lazer e hospitalidade. Esses setores tiveram suas receitas reduzidas ou zeradas.

Assim, os trabalhadores desses setores perderam seus empregos e, consequentemente, tiveram que reduzir drasticamente suas despesas. Cerca de 22 milhões de pessoas ficaram desempregadas por conta da pandemia nos EUA.

“Isso faz com que essas pessoas tenham que cortar seus gastos não só em turismo e hospitalidade, mas em tudo. E então você poderia ter uma recessão convencional de demanda no topo dos efeitos diretos da pandemia”, explicou, mostrando que a crise em um setor abala também os demais.

Setor financeiro

O outro canal é financeiro. Muitas empresas que dependiam de atividades onde o vírus poderia mais facilmente ser transmitido, de repente, viram suas receitas cair.

Dessa forma, muitos ativos se tornam potencialmente menos valiosos e muitas empresas poderiam ter se tornado incapazes de pagar suas dívidas.

Isso representaria um risco real de metástase, de uma expansão da mesma forma que aconteceu com o estouro da bolha imobiliária em 2008 e levou a um colapso da confiança na qualidade dos ativos.

“Levou a prêmios em alta, aumentou os spreads das taxas de juros e ameaçou a derrubar todo o sistema financeiro”, lembrou Krugman.

“O fato de ainda não termos visto essas grandes consequência secundárias não foi porque tivemos sorte. Foi porque nós fizemos as coisas certas em termos de política econômica”, ressaltou.

O “milagre de março” manteve economia estável

Krugman chamou de “milagre de março” a facilitação de empréstimos promovida pela Reserva norte-americana. Segundo ele, isso teve teve um efeito de fornecer liquidez e, indiretamente, restaurar a confiança. Assim, a possibilidade de crise financeira desapareceu naquele momento.

Ao mesmo tempo, os seguros desempregos, de U$ 600 por semana a toda a população que perdeu sua renda e o Programa de Proteção ao Salário, que forneceu empréstimos a empresas, manteve a economia estável.

“A escala da resposta do lado fiscal foi grande, perto de 15% do PIB anual”, lembrou o economista. Esse tipo de medida é algo raro na história dos Estados Unidos, ainda mais com um governo republicano no poder.

No entanto, tudo isso foi criado com a crença de que a questão do coronavírus seria algo breve. A proposta política foi montada para uma pandemia de 3 a 4 meses, em particular a parte mais importante desse pacote fiscal, os benefícios de seguro desemprego, que expiraram em 31 de julho.

Mas, não foi isso que aconteceu e isso teve consequências nas decisões políticas.

EUA errou ao flexibilizar a quarentena prematuramente

O “milagre de março” foi seguido pelo “grande erro de abril”, que foi quando tomaram a decisão de flexibilizar a quarentena, o que foi uma decisão muito prematura, segundo Krugman.

Assim, a pandemia não foi embora no tempo previsto pelas politicas adotadas. E as atividades econômicas estão longe de serem retomadas completamente.

“Há uma retomada discreta, mas não total. Os EUA recuperaram metade dos empregos que foram perdidos, isso aconteceu de forma muito rápida com a reabertura de alguns setores”, colocou.

Mas, como a política adotada não foi desenhada para durar tanto, elas deveriam ser revistas e não foram. Quando o emprego subiu e o seguro desemprego foi interrompido, nada foi feito para tentar estabilizar a situação.

Além disso, o economista prevê estagnação no crescimento de empregos, já que as atividades econômicas não foram totalmente retomadas. E com isso, o choque de demanda causado pela falta de renda à boa parte da população será um problema.

“O fato de não termos conseguido conter o vírus da maneira que deveríamos, significa que estamos agora, mais uma vez, expostos aos tipos de riscos que enfrentamos no início, em março”, comentou.

Projeções futuras

É esperada uma contração fiscal de várias porcentagens do PIB. “Esta não é uma recuperação em forma de V e pode se transformar em uma nova desaceleração apenas ao lado da demanda”, enfatizou.

Outra preocupação é em relação ao mercado financeiro. A Reserva pode imprimir dinheiro mas não pode apenas dar o dinheiro, disse o economista. O órgão poderia comprar ativos, mas estaria em um terreno instável se comprasse ações por mais do que elas realmente valem.

Por isso, o Fed pode sofrer com crises de confiança e liquidez. “Me sinto como em 2008, quando estávamos apenas descobrindo os muitos riscos que existiam no sistema financeiro dos Estados Unidos”, comparou Krugman.

A previsão não é de recessão total na economia pós-pandemia. No entanto, o economista disse estar certo de que ainda seriam necessárias algumas medidas de apoio à renda até que a situação se estabilize de fato.

Isso se desdobrará nos próximos 2 meses e o momento não poderia ser mais delicado, já que os Estados Unidos está enfrentando eleições com probabilidades altas de haver resultados disputados.

Paul Krugman

Paul Krugman é um economista norte-americano especializado em comércio e “economia geográfica”. Venceu o Nobel de Economia de 2008 e é autor de diversos livros, além de ser colunista do The New York Times.

Krugman identifica a si mesmo como um economista Keynesiano. Ele destaca como crítico de falhas do sistema econômico da modernidade, argumentando que não existe política fiscal que corrija essas lacunas.

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