Para onde vai a taxa Selic em 2021 e como ela afetará os investimentos?

Giovanna Castro
Jornalista formada pela UNESP.
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Crédito: Foto: QuoteInspector.com

A taxa de juros baixa movimentou muito o mercado de capitais em 2020. Com menor rentabilidade na renda fixa, muita gente migrou para a Bolsa. Mas como será que fica a taxa Selic em 2021?

Em boa parte do ano passado e até ontem (17), ela ficou em sua mínima histórica, de 2% ao ano. Por outro lado, a inflação fechou o ano em 4,52%, acima portanto da meta estabelecida, que era de 4%.

E para controlar a inflação, a medida frequentemente tomada pelo Banco Central é, justamente, subir a taxa de juros.

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Mas quanto ela deve subir? E qual o impacto disso? É o que vamos te contar neste artigo.

Como fica a taxa Selic em 2021?

A visão dos analistas e do Boletim Focus, relatório de expectativa de mercado divulgado pelo Banco Central, é de que, de fato, a Selic deve subir em 2021 para conter a inflação no país.

As apostas vão, agora, de 4% a 6% até o final do ano, desde que o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Selic de 2% para 2,75% em sua última reunião, realizada nos dias 16 e 17 de março.

Depois do comunicado do Copom, em que o comitê apontou que outra alta de 0,75 ponto porcentual já pode ser esperada para maio, o BTG Pactual (BPAC11) elevou sua projeção para Selic para 5% até dezembro.

O último Boletim Focus, do Banco Central, por sua vez, que reúne as estimativas de diversas instituições financeiras, prevê Selic a 4,5%.

Confira a tabela de expectativas dos analistas do mercado ouvidos pelo BC:

Focus

Reprodução/BC

Segundo Vitor Beyruti, economista da Guide Investimentos, a alta da Selic já era amplamente aguardada porque tivemos um ano muito atípico em 2020. Naturalmente, já era esperada uma retomada aos padrões “normais” em 2021 e, principalmente, em 2022.

“A crise do coronavírus acabou gerando um choque contracionista sobre a economia brasileira. Ou seja, a gente teve uma parada abrupta de todos os setores, o que permitiu que o Banco Central jogasse os juros lá embaixo. Essa decisão foi tomada até como uma forma a facilitar a retomada da economia, fazendo com que a classe produtiva sobrevivesse nesse ambiente extremamente hostil”, explica o especialista.

Olhando só para o juros, a crise contracionista possibilitou que o BC colocasse a taxa a 2% ao ano sem que isso gerasse pressões inflacionárias. Afinal, as questões inflacionárias são derivadas justamente da atividade econômica.

O problema disso é que, na medida em que a economia é normalizada, as questões inflacionárias reaparecem. E é então que o BC deve começar a agir para controlar a inflação.

Nesse cenário, juros a 2% ao ano seria muito baixo. “Não é a toa que no ano passado o Tesouro teve alguns problemas para se beneficiar”, complementa Beyruti.

No Brasil, especificamente, somaram-se à retomada econômica a inflação gerada por real desvalorizado e commodities em alta.

Expectativa de alta gradual

É importante ressaltar que a subida da taxa Selic em 2021, apesar de já estar em curso, manterá a taxa baixa, comparativamente a anos anteriores, quando, por exemplo, ela ultrapassava os 14%.

Apenas com o desenrolar da vacinação e a volta integral do comércio e todas as atividades produtivas, poderemos falar em “normalidade”.

Beyruti diz ainda que, para que a taxa supere 6% antes de 2022, o único risco é a questão fiscal. Ele aponta que existe o risco de não passarem nenhuma das PECs direcionadas à contenção dos gastos obrigatórios e manutenção do teto de gastos nos próximos anos, o que abalará o mercado. Principalmente as que visam conter os gastos com o funcionalismo, que hoje é uma das principais fontes de despesas do governo (junto com os gastos previdenciários).

“Tivemos a aprovação da reforma da previdência, mas o funcionalismo ainda não foi abordado com a mesma seriedade pelo governo. Então, se o Brasil não conseguir sustentar o benefício da dúvida que o mercado dá sobre a dívida do estado, a gente volta a ver um fluxo mais forte de saída de capital. Consequentemente, um dólar mais alto, o que pode pressionar o BC a elevar a taxa Selic acima de 6%. Esse é o cenário mais pessimista”, comenta o economista.

Como isso impacta nos investimentos?

Como o Brasil ainda é um país muito conservador do ponto de vista financeiro, o investidor sempre está olhando para o fator risco e rentabilidade.

E na visão de Beyruti, como temos um fator de risco alto no Brasil, por sermos um país improdutivo e com alto endividamento, a maioria das pessoas prefere manter seu dinheiro na renda fixa.

Ou seja, com a renda fixa rendendo 2,75% ao ano, a atratividade é baixa. Isso faz com que os investidores tirem o dinheiro do país, depreciando nossa moeda e gerando, mais uma vez, inflação.

Ao mesmo tempo, com a taxa de juros muito alta, a produtividade cai e, consequentemente, a Bolsa também. Isso porque as empresas sentem o impacto diretamente ao pagarem mais caro por financiamentos.

“Como as empresas terão que pagar juros maiores para financiar sua produção, naturalmente elas vão lucrar menos, o que acaba refletindo no valuation delas e, consequentemente, na Bolsa. Isso não quer dizer que vai ser algo logo de cara, ou algo tão grande, a ponto de fazer a Bolsa cair muito.”

Dessa forma, o BC deve levar todos esses fatores em consideração. Balanceando e tentando chegar ao que seria uma taxa de juros neutro no Brasil.

“Atualmente, o juros seguem estimulativos aqui no Brasil. Então, o que a gente espera é que, já nesse primeiro semestre, o Banco Central caminhe para um bom reajuste na taxa de juros. A direção deve ser um juros neutro, um valor que, teoricamente, não gera pressões nem expansionistas demais, nem contracionistas demais no que diz respeito a inflação”, explica o economista.

Onde investir com a subida da taxa Selic em 2021?

No mundo dos investimentos, o movimento de subida da taxa Selic em 2021 é excelente para o investidor conservador. “Esse tipo de investidor já começa a surfar em boas ondas”, pontua Márcia Silva, gerente de investimentos na Sicredi do Vale do Piquiri.

Isso porque os bancos já começaram a fazer movimentos com taxas prefixadas. “Em 19 de fevereiro já era possível investir em um CDB prefixado com vencimento em 1 ano a 3,84% ao ano. Ou, com vencimento em 5 anos, a 7,35% ao ano”, comenta a especialista.

Vale lembrar que isso pode variar muito uma instituição para outra. Mas, em resumo, a rentabilidade já começa a crescer em produtos de renda fixa, que geralmente são atrelados à Selic. São eles:

  • CDBs;
  • LCIs;
  • LCA;
  • Títulos do Tesouro Direto;
  • Fundos DI.

E quais investimentos saem perdendo com a alta da Selic?

Como citado anteriormente, será necessário ter mais atenção na hora de investir na Bolsa de valores.

Procurar por empresas mais consolidadas e que têm um bom histórico acaba sendo mais seguro. Afinal, empresas que dependem muito de financiamento externo para crescer terão que pagar taxas de juros mais altas.

Outro investimento que será impactado são os Fundos Imobiliários. Isso porque, além de sofrerem o impacto no custo do financiamento, eles são substitutivos para crédito.

Ou seja, com o retorno do bom rendimento na renda fixa causado pelo aumento na taxa Selic em 2021, a tendência é que muitos investidores migrem de volta para esses produtos mais conservadores.

“Tivemos um fluxo muito grande de entrada nos Fundos Imobiliários com juros baixos. Quem antes colocava o dinheiro em renda fixa, migrou para eles visando receber os dividendos do fundo como um substitutivo. Então, naturalmente, quando os juros voltam a subir, algumas pessoas voltam para a renda fixa”, comenta Beyruti.

E quanto mais pessoas saem dos Fundos Imobiliários, mais eles se desvalorizam. Ou seja, o movimento se retroalimenta.