Pandemia impõe perdas de R$ 3,9 bi a operadoras de turismo

Marcello Sigwalt
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Crédito: Rádio Santa Cruz

Paralisadas pela pandemia do covid-19, as operadoras de turismo filiadas à Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo) já contabilizam perdas, este ano, de aproximadamente R$ 3,9 bilhões ou a 25% do faturamento global da atividade em 2019.

Extensão do ciclo

Desses R$ 3,9 bilhões, R$ 3,5 bilhões se referem ao primeiro semestre, R$ 350 milhões ao segundo semestre e os R$ 50 milhões restantes a 2021, com a ressalva de que esses números podem se ampliar, dependendo da extensão do ciclo da doença.

Essa é uma das conclusões de pesquisa realizada, em março deste ano, pela Braztoa junto aos seus associados, com o intuito de aferir os impactos comerciais e trabalhistas causados pelo novo coronavírus, além de avaliar as perspectivas de uma retomada.

O estudo aponta, ainda, a queda abrupta das vendas do setor, em razão da entrada em vigor do regime de quarentena e isolamento social.

Políticas públicas

Para reverter essa tendência, a entidade entende ser necessária a “adoção de políticas públicas de apoio ao setor de turismo”, que esta considera um dos mais afetados pela crise.

Abril nulo

No que se refere ao mês de abril, a pesquisa indica que 91% das operadoras não preveem vendas nesse mês. Ao mesmo tempo, 12% acreditam numa reação do mercado até julho, 36% só vêem recuperação no ano que vem e outros 9% não têm previsão.

Queda livre

Para 41% das empresas, o faturamento este ano deverá ser até 50% menor do que em 2019. Já outros 39% cravam uma queda de 50 a 75%, enquanto 20% preveem recuo de 75%.

Blackout econômico

Como reflexo da estagnação súbita da economia, o estudo mostra que 45% das empresas pesquisadas não realizaram venda alguma no mês passado. Outras 45% admitiram que o volume de vendas naquele mês representa, no máximo, 10% do registrado em março de 2019.

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A pesquisa da Braztoa lembra, porém, que essas informações se referiam apenas às primeiras duas semanas de março, quando o mercado ainda se mantinha em funcionamento, mesmo que na época já houvesse bloqueio de vendas para alguns destinos internacionais.

Viagens em risco

Como 70% das vendas se referem a embarques no segundo semestre deste ano, sua efetivação poderá ficar comprometida, caso se mantenham as restrições de deslocamento social ou haja avanço da doença viral.

Cancelamentos generalizados

A quase totalidade (98%) das empresas foram alvo de cancelamentos. Para 32% delas, os cancelamentos chegaram a 30% do total, ao passo que em 13% das operadoras, eles variaram de 30% a 50%.

Já as 17% restantes tiveram cancelamentos entre 50% e 75% do total.

Outro dado mostra que, para mais de um terço das empresas (36%) os cancelamentos ficaram entre 75 e 100%.

Do total de viagens canceladas, em torno de um terço dos clientes já recebeu o desembolso à vista. Para outras 43%, a devolução será feita no período de carência, outros 11% optaram por carta de crédito e 10% vão receber de forma parcelada ou negociada.

Momento de entendimento

A pesquisa aponta, ainda, que 96% das operações negociadas entre clientes e operadoras transcorreram de forma amigável, sem a necessidade de participação de órgãos como Procon e Senacon. “Isso denota maior maturidade nas relações comerciais, pautadas pela boa-fé e bom-senso de ambas as partes”, conclui o documento.

Quanto ao perfil dos adiamentos, estes chegam a 50% para três quartos das empresas, enquanto outros 24% admitiram possuir adiamentos em volume inferior a 50%.

Se considerados juntos, cancelamentos e adiamentos atingiram, respectivamente, 90,4% dos embarques de março, 96,2% dos embarques de abril, 94,2% dos embarques de maio e 63,5% dos embarques de junho.

Mesmo na ausência de dados efetivos sobre o comportamento da doença no segundo semestre, as previsões da atividade sugerem uma tendência de normalização, a partir de agosto próximo. Ainda assim, os cancelamentos estão presentes em, pelo menos, 26,9% dos embarques do segundo semestre deste ano, e já afetam 3,8% dos embarques de 2021.

Alternativas negociadas

Como resultado da adoção de um ambiente de compreensão, junto a fornecedores nacionais, cerca de 59% das operadoras admitem estar conseguindo negociar alternativas de reembolso, 18% receberam reembolsos integrais, outras 18% tiveram reembolsos com restrições e 3% cobraram valores integrais, sem reembolso.

No que toca à redução de custos, 98% das operadoras reduziram custos operacionais. Desse universo, 17% cortaram em até 25%, 61% cortaram entre 25% e 50%, 20%, de 50% a 75% e 2% acima de 75%.

Contratos encerrados

A pesquisa apurou, ainda, que 28% das empresas encerraram contratos, mesmo percentual o fez por tempo determinado e outros 30% por tempo indeterminado. A renegociação de valores abrangeu 75% das operadoras – somente 6% mantiveram seus contratos com empresas terceirizadas.

RH: a hora do corte

Mesmo com faturamento em queda, a pesquisa mostra que as operadoras têm tentado manter seu quadro de funcionários.

Apenas no período de 29 de fevereiro a 31 de março, o corte atingiu 10% dos funcionários do setor.

Já em relação a abril corrente, 55% das operadoras adiantaram que não pretendem demitir, enquanto 9% farão cortes de até 10% de seu efetivo funcional, 17% farão reduções de até 25%, 15%, de até 50%. Por fim, 4% admitem demitir até 75% do pessoal.

Consciência social

A consciência social esteve presente no setor, uma vez que 78% das empresas optaram por reduzir a carga horária e salários a demitir.

Ao mesmo tempo, 74% preferiram dar férias aos colaboradores, 22% concederam licenças remuneradas e 20% suspenderam contratos, de forma temporária.

Retomada gradual

Boa sinalização para os negócios, no médio e longo prazos, é o que acreditam 72% das operadoras, para quem o Brasil está no topo da demanda do mercado. Em seguida, vêm América do Sul (15%), Oriente Médio (5%), seguido por América do Norte, Europa, América Central e Caribe, Ásia e Oceania (2%).

Viagens acessíveis

A expectativa do setor é de que ocorra uma retomada do turismo no segundo semestre, a reboque de viagens mais acessíveis financeiramente.

Desafios persistem

A preocupação com a demanda fraca – devido à expansão do desemprego e das reduções salariais –  no rastro da crise econômica, está presente para 75% dos entrevistados, sob o argumento de que as viagens passam a deixar de ser prioridade “em um primeiro momento”.

Para 41% delas, é um grande desafio superar a ausência de recursos financeiros para ações de marketing e promoção.Outras 16%, porém, voltam a atenção é à falta de recursos humanos para a atividade.

Questões ligadas à saúde e segurança sanitária preocupam 66% das operadoras, enquanto 41% delas admitem apreensão com relação a “condições inadequadas nos destinos turísticos”.

Impacto de R$ 14,9 bi

A Braztoa reúne operadoras de turismo, colaboradoras e empresas de representação de produtos e destinos, além de convidados, responsáveis por estimados 90% das viagens organizadas de lazer, comercializados pela cadeia produtiva no Brasil.

Em 2019, as operadoras associadas à Braztoa faturaram R$ 15,1 bilhões e embarcaram 6,5 milhões de passageiros durante todo o ano. Essas mesmas empresas geraram um impacto econômico de R$ 14,9 bilhões.