Opinião: Suspensão do parlamento britânico “é gólpi”

Filipe Teixeira
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Crédito: Crédito: STEFAN ROUSSEAU DPA

Entenda o que está por trás da suspensão do parlamento britânico.

O plano do primeiro-ministro britânico Boris Johnson de suspender o Parlamento, surpreendeu não apenas a oposição.

A decisão é ancorada na surrada política do não diálogo e pode significar um prazo de validade mais curto para o mandato de Boris Johnson como premier.

Na quarta-feira (28), Johnson pediu à rainha Elizabeth II que suspendesse o parlamento britânico por cinco semanas, retornando apenas em 14 de outubro, pouco mais de duas semanas antes do prazo do Brexit.

É golpi!

A medida não se trata de algo sem precedentes, tampouco ilegal. Também é verdade que apesar de difícil, ainda deixa tempo para o parlamento dos Comuns vetar um Brexit sem acordo, se conseguir uma maioria para isso.

Mas, considerando o cenário polêmico em torno do Brexit, aprovado com uma votação muito apertada pela população, essa suspensão será a mais longa em décadas, e o motivo indicado de Johnson – de que é necessário introduzir uma agenda doméstica “ousada e ambiciosa” – é claramente e literalmente, para inglês ver.

Qual é o verdadeiro objetivo?

O primeiro-ministro parece estar apostando em dois resultados possíveis:

O primeiro deles é provocar a oposição.  Considerando que os trabalhistas estão em completa desordem e os oponentes do Brexit estão divididos em todos os outros assuntos de política pública.

A medida, portanto, tem um certo apelo estratégico. Mas qualquer procedimento desse tipo ameaçaria apenas atrasos e incertezas mais onerosos sobre o Brexit.

A segunda lógica é que a suspensão, se não for revogada pelos tribunais, frustrará os esforços para impedir que a Grã-Bretanha saia da União Europeia sem um acordo até 31 de outubro. Preservar a possibilidade de uma saída sem acordo é o núcleo da estratégia de Johnson para o Brexit, sua principal alavancagem nas negociações com a UE.

Novamente, podemos ver o sentido estratégico desta medida. Mais uma vez, porém, é grosseiramente irresponsável.

Contra a maré

A maioria no Parlamento já rejeitou uma saída sem acordo. Apenas cerca de 25% do público o apóia – na verdade, apenas metade dos que apoiam o Brexit concorda com ele. Seria o pior resultado possível para todo esse processo errado, deixando o Reino Unido mais pobre, mais fraco e indefinidamente à deriva.

Mais do que tudo, Johnson demonstrou a fraqueza de sua própria posição. Ele é um primeiro-ministro não eleito liderando um governo minoritário. Com essa legitimidade esfarrapada, ele está enfrentando a decisão mais importante que um primeiro-ministro britânico teve que tomar em décadas.

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E sua posição impopular de negociação está apontando o país para a calamidade. Para escapar desse vínculo, ele escolheu manobras táticas em vez de liderança sábia.

Os partidários de Johnson acham que suspender o Parlamento é uma jogada astuta. É melhor entendido como um ato de desespero – e, se isso ainda conta na política britânica, um ataque ao interesse nacional.

Pode não ser um ultraje, do ponto de vista constitucional, mas está errado, muito errado!


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