Onda de IPOs: empresas já captaram R$ 12 bilhões em 2020

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.
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Crédito: Reprodução / Flickr

A fila de empresas que pediram autorização para negociar ações na bolsa de valores não para de aumentar. Só em setembro, que mal começou, seis novas companhias enviaram suas documentações à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) solicitando autorização para fazer uma Oferta Inicial de Ações (IPO) e estrear na B3. Em agosto, foram 23 novos pedidos. 

Se continuar nesse ritmo, 2020 tem tudo para se aproximar do histórico ano de 2007, quando a bolsa brasileira registrou o recorde de 64 IPOs. 

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De janeiro até o dia 2 de setembro, 12 empresas fizeram suas ofertas iniciais, movimentando R$ 11,9 bilhões. Outras 40 aguardam autorização da CVM para negociar ações na bolsa. No mercado, no entanto, já se fala em 60 ofertas até o fim do ano, segundo reportagem do Valor Econômico. 

Ferramenta ajuda na escolha de suas ações de acordo com balanços

Veja a lista das empresas que já fizeram IPO em 2020 e quanto elas captaram: 

  • Estapar (empresa de estacionamentos):  R$ 345,3 milhões  
  • Aura Minerals (fabricante de ouro): R$ 790 milhões 
  • Ambipar (empresa de gestão ambiental ): R$ 1,08 bilhão  
  • Grupo Soma (varejista de moda): R$ 1,82 
  • d1000 (rede de farmácias): R$ 400,2 milhões 
  • Pague Menos (rede de farmácias): R$ 858,9 milhões 
  • Quero-Quero (varejista de material de construção): R$ 1,94 bilhão 
  • Priner (serviços de engenharia industrial): R$ 200 milhões 
  • Mitre Realty (incorporadora): R$ 1,02 bilhão 
  • Moura Dubeux (incorporadora): R$ 1,25 bilhão  
  • Lavvi (incorporadora): R$ 1,16 bilhão 
  • Locaweb (empresa de hospedagem de sites): R$ 1 bilhão  

Entre as empresas que registraram seu pedido na CVM no início de setembro, estão a plataforma de aluguel de imóveis Housi,o site de consumo colaborativo Enjoei e o clube de assinatura de vinhos Wine. 

O que explica o boom de IPOs? 

Em 2019, o mercado financeiro já se referia a 2020 como o “ano dos IPOs”. E não era para menos. Havia uma expectativa de que, neste ano, a economia brasileira teria um crescimento mais robusto, depois da ressaca gerada pela recessão que começou em 2014. 

Esse otimismo se refletiu diretamente na bolsa. No dia 23 de janeiro, o Ibovespa atingiu o recorde de 119 mil pontos. No mês seguinte, foram realizados os quatro primeiros IPOs do ano. Para se ter uma ideia do que isso representa, basta dizer que em todo o ano de 2019 apenas cinco empresas abriram o capital na bolsa brasileira. 

Em março, no entanto, a pandemia derrubou os mercados do mundo inteiro, gerando pânico e incerteza, e interrompeu temporariamente os planos das companhias. Algumas delas suspenderam o processo de IPO até que a turbulência se desfizesse. 

O clima de total insegurança acabou dando lugar a uma maior previsibilidade, com a abertura de economias ao redor do mundo e com os resultados da atividade econômica vindo melhores do que o esperado inicialmente. 

Embora ainda esteja em campo negativo, acumulando perdas de 12% atualmente, o Ibovespa já ronda os 100 mil pontos. 

Juros baixos e pessoa física na bolsa

Dois fatores têm sido preponderantes nessa recuperação do mercado de capitais. E eles estão diretamente relacionados. O primeiro deles é a taxa de juros, que alcançou o  patamar mais baixo da história: a Selic chegou ao nível de 2% ao ano. Esse cenário obriga o investidor a se arriscar mais, para obter mais rentabilidade. Isso está fazendo o brasileiro migrar para a bolsa. 

Para se ter uma ideia, o número de investidores na B3 passou de 619,6 mil em 2017 para 2,65 milhões até junho de 2020.

Além disso, é preciso considerar que as ofertas primárias são uma fonte de captação muito mais baratas para as empresas quando comparadas a outras linhas de financiamento. 

Há fôlego para tantas ofertas? 

Entre analistas e economistas, a avaliação é de que esse aumento expressivo de IPOs no País não é indicativo de uma bolha. Eles consideram um processo natural e até saudável para o mercado.

Ainda assim, a recomendação para o investidor é que se tenha cautela. Nem toda empresa que faz uma abertura de capital é sólida financeiramente ou tem uma boa perspectiva de crescimento. Muita gente já perdeu dinheiro com histórias que pareciam promissoras e não se confirmaram. Está aí o exemplo do Grupo X, do empresário Eike Batista. 

Por trás da aparente euforia dessa nova onda de IPOs, os investidores já começam a demonstrar uma maior seletividade na escolha dos ativos. O sinal mais evidente apareceu nas últimas precificações.  

Veja o que aconteceu com a rede farmácias Pague Menos. A faixa indicativa de preço ia de R$ 10,22 a R$ 12,54, mas acabou saindo por R$ 8,50. Aconteceu o mesmo com a incorporadora Lavvi. As ações foram precificadas a R$ 9,50, abaixo da faixa indicativa de R$ 11 a R$ 14,5. A Havan, que entrou na fila com a expectativa de levantar R$ 10 bilhões, deve captar menos do que isso, já afirmaram alguns gestores. 

Ao decidir por entrar ou não em um IPO, os investidores devem observar a documentação apresentada pela empresa à CVM e analisar o que será feito com o dinheiro obtido com a oferta de ações. Se os recursos serão usados para expansão, é um bom sinal. Se forem para o bolso do acionista (oferta secundária) ou para pagar dívida, pense duas vezes antes de entrar. 

IPOs: 2020 versus 2007

A corretora Planner fez recentemente um estudo relembrando o boom de IPOs do mercado brasileiro em 2007 com o movimento que se desenrolou em 2020.

Treze anos atrás, a conjuntura econômica era bem diferente. O mercado vinha de um longo período de poucos lançamentos na bolsa. O PIB cresceu 6,1% naquele ano e o capital estrangeiro mostrava bastante apetite pelas ações brasileiras. Naquele momento havia uma crise de crédito nos mercados europeu e norte-americano, que explodiria no ano seguinte. com a crise financeira global.

“O ambiente favorável atraiu muitas empresas para o mercado de capitais, ainda que parte delas não estivesse bem preparada para uma mudança profunda de comportamento e novos desafios”, diz o relatório da Planner. “O maior exemplo foi observado no setor imobiliário que chegou a ter mais de 20 companhias listadas. Em poucos anos o otimismo exagerado não se confirmou e a maioria das incorporadoras e construtoras amargou grandes prejuízos.”

Agora, o movimento não conta com a participação do investidor estrangeiro.  Neste ano, eles ficaram com 32,4% do total de R$ 50,4 bilhões em ofertas realizadas na B3, entre IPOs e follow-ons. Em 2007, esse porcentual superava os 70%.