Onda de IPOs: ofertas representam 33,4% do valor de mercado da B3

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.
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Crédito: Pixabay

As ofertas inicias de ações (IPOs na sigla em inglês) representam 33,4% do valor de mercado da bolsa de valores. Segundo levantamento da Economatica, o valor de mercado da B3 no dia 20 de agosto era de R$ 5,29 trilhões dos quais 33,4% são dos IPOS realizados desde janeiro de 2004.

Os 45 IPOs de 2021 representam 6,6% do valor de mercado. Os de 2020, 5%. E os de 2007, 4,9%.

IPOs

Reprodução/Economatica

Onda de IPOs no Brasil: a tendência deverá permanecer daqui para frente?

Ultimamente, a onda de IPOs no Brasil tem dividido opiniões no mercado. Por um lado, bancos reforçam as suas áreas de análise para darem conta da cobertura das novas empresas. Por outro, a percepção de uma elevação no risco-país faz algumas companhias, que já haviam pedido registro na CVM, aguardarem um melhor momento para abrirem o capital.

Segundo o Estadão, mais de 20 empresas já registradas na CVM (tanto estreantes quanto em follow-on). Entre elas, estão a Vitia, empresa do setor de agricultura, e o Banco de Brasília (BRB), que planejava sua oferta para setembro.

Isso não significa que as empresas desistiram dos planos de captação. Ao contrário, ainda há muitas na fila do IPO. Alguns exemplos são Ammo Varejo (dona da MMartan), Madero, Dori Alimentos, entre outras. No entanto, ainda sem data certa para as operações.

E o que esperar da onda de IPOs no Brasil?

Para saber mais a respeito, conversamos com Piero Minardi, presidente da Associação Brasileira de Venture Capital e Private Equity (Abvcap) e sócio da Warburg Pincus, e Renato Abissamra, sócio da Spectra Investimentos, gestora de fundos Private Equity. A seguir, confira os principais pontos da entrevista.

Momento atual dos IPOs

Segundo Piero, há vetores que fortalecem a onda de IPOs no Brasil e empurram para direções distintas. De um lado, a queda dos juros estimulou fortemente a migração para a renda variável. Dessa forma, houve uma grande onda de IPOs nos últimos tempos.

Outro vetor importante é o fato de que a bolsa, até pouco tempo, não oferecia opções suficientes para investir em algum proxy específico da economia. Isso porque os poucos setores representados no mercado de capitais distorciam o seu peso real na economia brasileira.

Alguns exemplos disso são os setores de saúde e educação, que não tinham representatividade na bolsa. Dessa forma, quem desejava investir na economia real brasileira nesses setores não tinha alternativas.

Um terceiro vetor importante é toda a economia digital. Nesse sentido, as empresas da nova economia (como fintechs, por exemplo) até pouco tempo não tinham porte para serem acessíveis aos investidores de bolsa. No entanto, ganharam uma importância muito grande no mercado brasileiro, e sua participação deve continuar alta na bolsa por aqui.

Piero ainda destaca que uma boa parte das empresas de educação, saúde e tecnologia têm private equity e venture capital na sua origem. Nesse sentido, a combinação de tudo isso trouxe um movimento muito saudável para a bolsa.

Já para Abissamra, o momento ainda é de liquidez. Na prática, o que se vê hoje é um movimento de acionistas para expandir o negócio. Ao mesmo mesmo tempo, os fundos de private equity buscam saída dos investimentos. No caso dos fundos, a venda dessas ações normalmente é feita com lock-up, o que protege os títulos da especulação pós-IPO.

Atualmente, a Spectra possui R$ 4 bilhões de fundos sob gestão. Segundo Renato, considerando os IPOs já realizados desde 2020 e os que ainda ocorrerão nos próximos 12 meses, isso permitirá devolver ao investidor cerca de R$ 1 bilhão. “Quando percebe que os recursos retornam com bons resultados, a tendência é de que o investidor reinvista em novos fundos”, afirma o gestor.

E esse movimento tende a continuar daqui para frente?

Para Piero, com a renda fixa se tornando mais interessante, é possível que o grande fluxo de investimentos nas empresas sofra algum impacto. No entanto, com uma realidade de juros menores do que tínhamos há alguns anos, ele acredita que os fundos private equity continuem atraindo bons volumes de investimentos. Mesmo que com uma velocidade menor do que a atual.

Segundo Minardi, nem o recente aumento dos juros ou a instabilidade política esperada para 2022 alteram a essência dessa nova realidade do mercado de capitais brasileiro. Ou seja, o florescimento desses novos setores na bolsa, pois, na sua opinião, há bastante espaço no mercado brasileiro para isso continuar.

Abissamra também concorda que as incertezas macro não afetarão nem IPOs nem os fundos private equity de forma totalmente proporcional. Para ele, mesmo em um cenário menos favorável, o investidor poderá continuar motivado a investir nas empresas. Isso porque existem setores descorrelacionados da economia e do mercado financeiro. Ou seja, nem todas as estratégias de investimentos em empresas são alinhadas com o cenário macro. Existe um ambiente alternativo bastante amplo que, necessariamente, não está sempre ligado ao desempenho da economia.

“Nos fundos de private equity , você não fica precificando empresas todos os dias, como faz no mercado acionário. Dessa forma, em momentos de volatilidade, isso dá mais conforto ao investidor”, afirma Renato.

Descorrelação com o mercado

Nesse sentido, um dos exemplos de investimentos descorrelacionados com o cenário marco são as empresas de TI. Outro, é a categoria distressed dos fundos Private Equity. No último caso, que são as empresas em dificuldades ou mesmo em recuperação judicial, há oportunidade bastante lucrativas.

“No distressed, o objetivo é aportar um mínimo investimento, justamente para destravar o negócio e salvar a empresa. Assim que isso acontece, normalmente os fundos colocam à venda as suas participações”.

Logicamente, há um grande risco operacional de investir em empresas com problemas. Segundo levantamento do Banco Central, cerca de 43% das grandes empresas em RJ acabam dando início ao processo falimentar. Justamente por isso é que essas ações costumam ser baratas, o que proporciona um alto potencial de ganho.

Conclusão

De acordo com os entrevistados, a instabilidade política e econômica esperada poderá sim influenciar o apetite dos investidores. Por isso, é possível que investimentos em empresas recuem frente ao atual volume.

No entanto, os fatores acima vistos, como juros ainda baixos, setores descorrelacionados e boas chances de retorno, farão com que o investidor continue animado com os IPOs, e com o mercado de capitais.

O fato é que nos últimos meses o investidor ganhou muitas opções de aplicação na Bolsa. Se quiser conhecer mais quais são elas, converse com um assessor de investimentos. Basta preencher o formulário abaixo.