OMS deve declarar pandemia, segundo especialistas

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução / YouTube

A BBC News ouviu especialistas em epidemiologia e a visão compartilhada entre eles é que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deveria declarar estado de pandemia para o novo coronavírus, Sars-Cov-2, ou o Covid-19. Até agora, porém, a entidade de saúde tem evitado chegar a esse ponto.

“Do ponto de vista técnico e epidemiológico, é claramente uma pandemia. A questão é a OMS reconhecer isso”, disse à BBC Eduardo Carmo, pesquisador do núcleo de epidemiologia e vigilância em saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Brasília.

“A expectativa é que a OMS declare nos próximos dias”, de acordo com Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e diretor-médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio de Janeiro.

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Todos os continentes já apresentam contaminação sustentada do vírus, com transmissão interna. Quase metade dos países reconhecidos pela ONU relataram casos confirmados. Até aqui, são 90 países.

Falta pouco

O infectologista Marcos Boulos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), diz que “a opinião de todos no mundo é que não se está conseguindo segurar o vírus. Provavelmente, a OMS ainda está se convencendo disso, mas, quando for comprovada a transmissão sustentada no Brasil, acho que vai declarar”.

Michael Ryan, diretor de emergências de saúde da OMS, disse no final de fevereiro, quando a entidade elevou o Covid-19 para o nívem “muito alto” de preocupação, que “não faz diferença legal, mas mostra que o os riscos estão aumentando… Isso não é feito para alarmar ou assustar as pessoas”. E completou: “uma pandemia é uma situação única em que acreditamos que todos os cidadãos do planeta serão expostos ao vírus dentro de um período definido. Os dados (do Covid-19) não mostram isso agora. Declarar uma pandemia é inútil quando você ainda está tentando conter uma doença. Declarar uma pandemia significa que você está desistindo de tentar contê-la e adotando a mitigação”.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, naquele momento, concordava: “usar a palavra pandemia de forma descuidada não traz benefícios tangíveis, mas apresenta um risco significativo em termos de amplificação do medo e estigma desnecessários e injustificados, além de sistemas paralisantes. Também pode indicar que não podemos mais conter o vírus, o que não é verdade”.

Cenário mudou

O fato é que a situação mudou radicalmente de duas semanas para cá. Já são mais de 96 mil casos (até as 11h do dia 5 de março) e 3.303 mortes.

As fatalidades fora da China só têm aumentado. Já são 107 no Irã e 107 na Itália. Na Coreia do Sul, 35. Nos Estados Unidos, 11. No Japão, 6. Suíça e San Marino já tiveram uma morte cada. Na América do Sul, já há casos no Equador (10, um em estado crítico), Brasil (3 confirmados e 1 positivo, mas sem os sintomas), Argentina (1) e Chile (1). Na África, o vírus pouco a pouco está se espalhando e chegou agora à África do Sul.

Na Europa, o quadro é grave, especialmente na Itália, Alemanha, Espanha, França e Islândia.

Economicamente, não dá mais para deixar de considerar o impacto que a epidemia terá no PIB mundial.

A infectologista Rosana Ritchmann, do Instituto Emílio Ribas, disse à BBC que “há estudos que mostram que existem países-chave para a situação piorar, e o Brasil, por ter uma grande densidade populacional e ser um grande eixo regional de viagens internacionais, é um deles. Na hora em que começarmos a ver casos (de transmissão) aqui dentro ou na Argentina, vão declarar. É uma questão de tempo”.

Encruzilhada

Declarar uma pandemia é um ato político de segurança. É quando a OMS simplesmente diz que perdeu o controle. O problema é que a epidemia dá sinais claros de que é controlável, mesmo em um mundo globalizado e interligado como o de hoje.

A melhor indicação é que a doença não causa sintomas ou é leve em 81% dos casos. Em 14%, pode causar pneumonia grave e em 5% pode se tornar crítica ou letal. Mais de 53 mil pessoas já se recuperaram, embora haja a preocupação de uma segunda infecção, como casos já detectados no Japão e na China.

Na China, onde tudo começou, a situação está melhorando, com cada vez menos casos e mortes sendo confirmados. Além de tudo, é fácil inativar o vírus. Basta uma solução de etanol (álcool 62-71%), peróxido de hidrogênio (água oxigenada a 0,5%) ou hipoclorito de sódio (lixívia a 0,1%). O simples fato de lavar as mãos pode evitar o contágio.

É possível detectar facilmente a doença, bem como já há vários sequências de genomas e estudos sobre o caso. A medicina mundial tem armas para lutar contra a epidemia.

Por tudo isso, a OMS está segurando a declaração de pandemia. É uma encruzilhada. De um lado as boas notícias. Do outro, o conhecimento de que apesar de todas essas boas notícias, mesmo assim o vírus segue se espalhando.

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