Oi (OIBR3; OIBR4): entenda o que está acontecendo com a empresa

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Divulgação/Oi

Se você é um investidor que se interessa pelas as ações da Oi (OIBR3; OIBR4) sabe que, nos últimos meses, quase toda semana tem uma notícia nova envolvendo a operadora. Fica até difícil acompanhar tudo.

Para quem começou a pesquisar agora sobre a situação da tele, é mais complicado ainda. Isso porque a Oi é por natureza uma empresa super complexa e sua história recente também.

Neste post, vamos explicar o que está acontecendo com a Oi, suas estratégias de crescimento e quais fatores impactam suas ações.

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Reestruturação em curso

Para começo de conversa: a Oi é empresa em reestruturação. Ela está, atualmente, em um processo de recuperação judicial, cujo plano é  desmembrar o negócio em partes e redirecionar o foco da companhia. Em um plano de recuperação judicial aprovado recentemente pelos credores, a Oi definiu que venderá as partes da companhia que compreendem telefonia móvel, data centers e torres.

Ela mesma ficará apenas com a parte da fibra ótica. E, ainda assim, com uma parcela do negócio. Isso porque uma fatia (que pode chegar a até 50%) deve entrar na venda, para ajudar a quitar sua dívida, que ultrapassa R$ 26 bilhões.

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O total levantado com todas as liquidações deve se aproximar de R$ 27 bilhões.

Concluídas as vendas e quitadas as dívidas com os credores, a Oi pretende se tornar uma empresa de infraestrutura, oferecendo fibra ótica para banda larga e redes de internet móvel 4G e 5G.

Trajetória instável

A história da Oi remonta a 1998, quando ocorreu a privatização do sistema de telefonia no país. Foi quando o governo dividiu a estatal Telebras em doze companhias, sendo que uma delas era a Tele Norte Leste S.A. ou Telemar.

Em março de 2002, a Telemar passou a investir em telefonia móvel, além de telefonia fixa, lançando a operadora Oi. Em 2007, a marca Telemar foi abolida, com a Oi passando a concentrar todos os negócios.

No entanto, junto com a telefonia móvel veio uma transformação no mundo das telecomunicações. A telefonia fixa foi deixada de lado e os dados móveis ganharam peso muito maior.

Mais adiante na história, os aplicativos começaram a “roubar” receita das empresas de telefonia móvel, oferecendo comunicação gratuita.

“O mercado foi ficando cada vez mais difícil”, lembra Greco Salvatore Montagna, assessor de mesa de renda variável da EQI Investimentos. “Basta pensar que eram 12 empresas listadas em bolsa, hoje são apenas três”, diz.

“Para se manter no mercado, a Oi passou a diminuir sua margem de lucro cada vez mais”, complementa, destacando que os custos operacionais de uma empresa de telecomunicação são muito altos, devido à alta tecnologia que demandam.

Em sua opinião, o modelo de negócio da Oi começou a ficar insustentável justamente porque a companhia passou a “queimar” caixa para se manter.

Além disso, a Oi fez duas aquisições questionáveis: Brasil Telecom e Portugal Telecom. Tais compras ajudaram a reduzir consideravelmente o caixa.

“A Oi seguiu um caminho perigoso. O endividamento se ampliou de forma explosiva, o que a levou a pedir recuperação judicial”, avalia Pedro Galdi, analista da Mirae Asset.

Turbulências pelo caminho

A história da Oi já começou torta. Logo depois da privatização foram reveladas gravações do BNDES que apontavam para o favorecimento de um dos consórcios, que acabou derrotado na disputa. O escândalo culminou na queda do ministro das Comunicações e do presidente do BNDES na época.

Em 2008, com uma mudança na legislação e apoio do BNDES, a Oi comprou a Brasil Telecom, dando origem a uma ‘supertele”. Cinco anos depois, participou de uma fusão muito mal sucedida com a Portugal Telecom.

Entre 1998 e o pedido de recuperação judicial, em 2016, a Oi teve 11 presidentes que adotaram diferentes estratégias de negócio.

Recuperação judicial

A recuperação judicial da Oi se desdobra desde 2016. Em setembro, depois de um assembleia virtual que durou mais de 12 horas, a Oi conseguiu aprovar um plano novo de recuperação.

De acordo com as definições da assembleia, a Oi será dividida em quatro “pedaços” – ativos móveis, torres, data center e fibra ótica.

Também ficou definido que o “braço” de telefonia móvel ficará com o consórcio formado por Claro, TIM e Vivo (VIVT4). Essas empresas  fizeram uma proposta conjunta e na qualidade de stalking horse.  Ou seja: são compradores prioritários, que podem cobrir qualquer outra oferta feita.

A parcela da dívida que cabe aos bancos terá desconto de 55% do total. A ideia inicial da Oi era chegar a 60% de redução. No entanto, as instituições financeiras que são credoras da empresa não receberam bem a novidade e ameaçam questionar judicialmente a decisão.

“Estamos diante de uma tarefa complexa e difícil pela frente. Esse plano representa o melhor que a companhia pode oferecer aos credores. Existem muitos passos ainda”, afirmou o presidente da Oi, Rodrigo Abreu, na assembleia.

No momento, Oi e da Advocacia Geral da União (AGU) negociam uma redução na dívida pública da operadora. Se der certo, o valor deve cair de R$ 13 bilhões para cerca de R$ 7 bilhões.

Balanço do segundo trimestre

No segundo trimestre deste ano, a Oi reportou prejuízo de R$ 3,28 bilhões. O que representa uma alta de 118% na comparação com o mesmo período de 2019.

O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda)  ficou em R$ 1,46 bilhão.

Em junho, a dívida bruta consolidada atingiu R$ 26,11 bilhões, representando uma alta de 54,8%  em relação a junho do ano passado.

Ao mesmo tempo, a empresa encerrou junho com R$ 6,073 bilhões em caixa. Isso representa uma queda de  3,8% em relação ao trimestre anterior.

O que mexe com a ação?

O desempenho das ações da Oi depende, agora, do desenrolar do processo de venda e da reestruturação efetiva da empresa.

As ações da companhia, que já chegaram a valer R$ 114,70 em 2012, agora são cotadas a R$ 2,75. Mas chegaram a custar R$ 0,85 em 19 de março. Do pico de oito anos atrás até 17 de setembro de 2020, o tombo é de 97,6%.

Com ações oscilando entre R$ 1 e R$ 3, a Oi pode parecer uma oportunidade de compra na baixa. Mas os analistas recomendam cautela.

“O cenário da companhia é incerto, até que ocorra a venda, de fato, dos ativos”, diz Montagna, assessor da EQI Investimentos.

Em sua avaliação, as pessoas tendem a ser sentir muito atraídas por ações nesta faixa de preço. Mas o valor passa uma impressão errada.

“A empresa perdeu muito valor de mercado e tem muita dívida. Se houvesse agrupamento de ação, muita gente não investiria na Oi. O valor da cotação não deve ser parâmetro para escolher ação”, afirma.