BDRs: o que são e por que será mais fácil investir no exterior

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.
1

Crédito: Crédito da imagem: AFP PHOTO/Josh Edelson

Em setembro, novas normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) facilitarão a vida de quem deseja ter acesso ao mercado externo. A partir do dia primeiro, os chamados BDRs estarão ao alcance de todos os investidores.

A notícia foi comemorada por quem busca diversificação, e também despertou dúvidas sobre qual a melhor forma de investir em ativos externos. 

Mas é importante começar do começo. Você sabe o que são BDRs?

Confira principais Ações para investir em Outubro

Os Brazilian Depositary Receipts são certificados emitidos no Brasil que representam ações de empresas estrangeiras. Sua emissão necessita de duas instituições: a custodiante, no país que deu origem ao título, e a emissora, responsável pela colocação do papel no Brasil e pela garantia de que o mesmo está lastreado pelas ações a que correspondem.

O BDR é uma forma indireta de participação em empresas estrangeiras. Entretanto, é importante saber que, diferentemente das ações, esse título não confere ao seu detentor os direitos de um sócio. A participação do investidor via BDR se assemelha mais a de um cotista de um fundo de investimento. É como se a instituição emissora adquirisse várias ações de empresas estrangeiras, e comercializasse cotas desse pacote.

Há duas formas de investir em BDRs:

  • Diretamente: Para isso, basta abrir uma conta em um banco ou corretora autorizados pela CVM.
  • Através de fundos: Existem, no mercado, fundos com foco em BDRs. a expectativa é de que se tornem mais populares com as novas regras.  

Tipos de BDRs

Quanto à sua origem, os BDRs podem ser de duas formas:

BDRs Patrocinados

É quando a própria empresa estrangeira decide emitir títulos no Brasil. Para isso, procura a instituição depositária no País para colocar seus papéis no mercado brasileiro.

BDRs Não Patrocinados

Nesse caso, a iniciativa de ofertar os títulos parte da instituição depositária brasileira, que não tem qualquer vínculo com a empresa emissora do exterior. Os BDRs brasileiros são, predominantemente, não patrocinados.

O que mudou? 

Conforme autorização da CVM, a partir de 1° de setembro, qualquer investidor poderá ter acesso aos BDRs. Até então esse investimento era restrito a   instituições financeiras, fundos de investimento e investidores qualificados (pessoas com investimentos superiores a R$ 1 milhão).

A notícia, já esperada, foi comemorada por quem desejava mais uma alternativa de diversificação em meio à queda de juros. Além disso, conforme comentou em seu canal o especialista em finanças pessoais André Massaro, a novidade evidencia, também, o amadurecimento do mercado brasileiro.

Segundo André, “as novas regras serão uma grande oportunidade de amadurecimento não só para corretoras, analistas e gestores, mas também para as empresas brasileiras. Uma vez que competirão com esses títulos, as empresas, necessariamente, deverão melhorar em termos de governança para se tornarem mais atrativas ao investidor.”

Entretanto, quando se compara BDRs com investimentos diretos no exterior, as opiniões se dividem. Para entendermos melhor essas divergências, vejamos alguns pontos que podem ser vantagens ou desvantagens em relação a ambos.

Liquidez

O pequeno volume negociado de BDRs faz com que esse ativo tenha baixa liquidez. Segundo reportagem da Revista Exame, dados da Economática apontam que a média diária de negociações de BDRs é de R$ 59,8 milhões. Para se ter uma ideia do que isso representa, somente as ações da Via Varejo têm volume médio diário de R$ 1 bilhão, ao passo que os papéis da Yduqs, um dos menos negociados na Bovespa, totalizam R$ 137 milhões em negociações diárias.

Todavia, com a novas normas, a expectativa é de aumento do volume médio de negociação desses títulos. André Massaro aposta que haverá uma melhora na liquidez e acrescenta ainda que, “se esse mercado pegar no Brasil, provavelmente muitos farão arbitragem entre os BDRs e suas ações de origem.”

Exposição ao câmbio

Como os BDRs representam títulos de empresas estrangeiras, o investidor sofrerá a oscilação da moeda local dessas companhias.

Logo, isso pode proporcionar ganhos quando o real se desvaloriza e também perdas na via contrária.

Tributação

Uma vez que não configuram investimento no exterior, os BDRs estão sujeitos à legislação brasileira no que se refere à tributação. Isso pode ser uma vantagem quando se observa a carga tributária de outros países.

Nos EUA, por exemplo, os impostos sobre ativos financeiros são altíssimos. Segundo o advogado Bruno Peixoto, especialista em tributação internacional, naquele país a alíquota mínima federal é de 40% e pode sofrer acréscimos de acordo com os estados.

Por outro lado, há que se considerar também que os BDRs não têm incentivo fiscal. No caso das ações no exterior, se, dentro do mês, o investidor fizer vendas até R$ 35 mil, terá isenção de imposto de renda sobre o ganho de capital. Nos BDRs, não há esse benefício.

Outro ponto importante são os dividendos. Diferentemente do Brasil, lá fora essa forma de distribuição de lucros não é isenta de impostos. Portanto, os BDRs também terão seus dividendos tributados.

Quantidade de ativos disponíveis

Atualmente existem cerca de 600 BDRs listados na B3, enquanto que as bolsas norte-americanas NYSE e NASDAQ negociam, juntas, ações de mais de 6000 mil empresas.

Ou seja, quando tem acesso direto às ações no exterior, o investidor conta com uma gama muito maior de opções.

Abertura de conta no exterior

Renato Breia, sócio fundador da Nord Research, falou recentemente no canal da corretora sobre a facilidade de abertura de uma conta no exterior. Segundo ele, muitas vezes a aprovação do correntista ocorre em poucas horas, e várias corretoras já têm, inclusive, atendimento em português.

Outro ponto que defende ao preferir investimentos no exterior aos BDRs é a facilidade no envio de recursos para fora. Renato argumenta que o IOF e o spread na remessa reduziram bastante nos últimos tempos.

Entretanto, segundo André Massaro, quando se pensa no investidor com menos recursos, pode não valer a pena uma estrutura no exterior.  André argumenta que “muita  complexidade pode ser desproporcional para as expectativas do investidor comum”. Ou seja, para quem simplesmente busca uma diversificação em ativos internacionais, o BDR é a opção mais simples.