O que esperar da bolsa até o final do ano?

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.

Depois de sofrer uma forte queda em março deste ano, a bolsa de valores brasileira surpreendeu até mesmo os mais otimistas, com uma firme recuperação nos meses seguintes, até voltar à casa dos 100 mil pontos no começo de julho

Desde então, a bolsa parece ter empacado nesta faixa de preço, e na última sexta-feira chegou a perder os 100 mil pontos. 

Para os próximos meses, os especialistas veem um potencial limitado de alta para o índice. Confira os detalhes:

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O que explica a recuperação do Ibovespa?

Primeiramente, vale lembrar que o ano de 2020 começou com o Ibovespa perto dos 120 mil pontos, quando ninguém imaginava que uma pandemia mundial estava por acontecer. No início da pandemia, o índice caiu para a casa dos 60 mil pontos.

Confira o comportamento do índice desde o início deste ano:

Depois do tombo de março e abril, o mercado começou a ter mais clareza sobre o impacto da pandemia.

Nos meses seguintes, a reabertura das economias ao redor do mundo e a divulgação de dados econômicos melhores do que o esperado levaram o Ibovespa de volta aos 100 mil pontos. 

A melhora pode parecer exagerada quando se considera a situação da economia real brasileira. No segundo trimestre, por exemplo, o Produto Interno Bruto (PIB) teve uma queda recorde, de 9,7%.

No entanto, os especialistas explicam que a bolsa de valores não reflete o PIB como um todo.

“Ela reflete as empresas mais competitivas do país, que estão em setores com mais rentabilidade. Isso significa que estamos falando do filé mignon”, explica economista e consultora Zeina Latif.

Fluxo mundial

Passado o susto inicial com a pandemia, o dinheiro começou a voltar para as bolsas em todo o mundo. Não apenas no Brasil. 

De acordo com Alan Gandelman, CEO da Planner, existe excesso de dinheiro em todo o mundo alocado em juros muito baixos. Quando o cenário melhora, esses recursos fluem para ativos que geram melhor desempenho.

“Esse capital tem entrado em bolsas do mundo inteiro, inclusive no Brasil”, explica.

Queda da Selic

Mas não foi só isso. A queda na taxa Selic levou as pessoas físicas a entrarem na bolsa de valores com força total, ajudando a elevar os preços das ações. 

Entre o final de 2019 e julho de 2020, o número de pessoas físicas na bolsa quase dobrou. Passou de 1,6 milhão para 2,8 milhões, segundo dados da B3.

Comparando com anos anteriores, o volume atual parece ainda mais expressivo. A título de comparação, o número de pessoas físicas ficou perto dos 500 mil nos dez anos entre 2007 e 2017. 

De acordo com o gestor de renda variável da Ace Capital, Luiz Fernando Missagia, o ambiente de taxa de juros baixa praticamente deixou o brasileiro sem opção a não ser buscar aplicações de maior risco, como a bolsa. 

Reflexo dos EUA

Além desses fatores, a alta dos mercados acionários nos Estados Unidos ajudou a impulsionar o Ibovespa.

Por exemplo, o índice S&P 500 já superou o nível visto no início do ano, assim como o Nasdaq, que está bem acima do nível de janeiro. Isso mesmo com a queda vista na semana passada das ações de tecnologia nos EUA.

Vale destacar que a economia norte-americana está se recuperando, e o governo prepara mais un pacote de estímulos que pode ser de US$ 1,5 trilhão.

No mercado norte-americano, as ações das empresas de tecnologia lideraram as altas nos últimos meses, com a expectativa dos investidores de que elas seriam mais resilientes à pandemia. 

O mesmo ocorreu no mercado brasileiro, com a aposta dos investidores nas empresas que atuam no e-commerce. Alguns exemplos são a Magazine Luiza e a Via Varejo.

E o futuro da bolsa?

Daqui para frente, os especialistas veem pouco espaço para maior avanço do Ibovespa. Ou seja, ainda não há uma perspectiva de voltar aos níveis do começo do ano.

Em relatório recente, o Bradesco BBI disse esperar que o índice atinja os 107 mil pontos no fim de 2020. Os 130 mil pontos devem ficar apenas para o final de 2021, segundo o banco.

Para a bolsa subir, os setores que ainda não se recuperaram precisam se valorizar. Um exemplo são as ações dos bancos e de blue chips como a Petrobras. “Dentro do Ibovespa alguns ativos ficaram para trás, e eles precisam melhorar para puxar o índice”, afirma Missagia.

Desafios à frente para o Ibovespa

Vários entraves devem dificultar o retorno do Ibovespa aos 120 mil pontos. O principal deles é a incerteza sobre o tema fiscal no Brasil.

O mercado espera que o governo federal controle as despesas para conter o déficit público. No entanto, há sinais de que o presidente Jair Bolsonaro está disposto a gastar, de olho nas próximas eleições presidenciais.

Um exemplo foi a decisão de liberar concursos públicos, algo que tinha sido limitado pelo ministro da Economia Paulo Guedes.  Além disso, outro exemplo foi a reforma administrativa enviada ao Congresso, com limitações em relação à expectativa inicial do mercado.

De acordo com Rafael Panonko, analista chefe de Toro Investimentos, o Ibovespa pode chegar a 105 mil ou 110 mil pontos até o final do ano. Mas isso só deve ocorrer se a situação fiscal ficar controlada.

Caso contrário, ele vê o índice recuando para 85 mil a 90 mil pontos. “As reformas em Brasília serão determinantes para o humor da bolsa”, afirma.

O porta-voz da Ace Capital destaca que a incerteza sobre a política fiscal gera preocupações entre a comunidade de investidores internacionais.  “Mesmo que o dólar alto deixe os ativos brasileiros mais baratos, o estrangeiro precisa de mais confiança para comprar mais ações no Brasil”, explica.

O CEO da Planner também avalia que a bolsa pode ficar em 100 mil a 105 mil pontos este ano. Segundo ele, as reformas estruturais precisariam sair do papel para a bolsa chegar em 130 mil pontos.  

Foram justamente estas incertezas que deixaram o Brasil atrás de outros países emergentes que já recuperaram os níveis de preço anteriores a março. “O Brasil apresenta um dos piores desempenhos, fruto das incertezas políticas”, destaca Jorge Oliveira, sócio e gestor de renda variável da BlueLine.

Fatores externos

Além da questão fiscal, outros fatores que podem trazer volatilidade ao mercado acionário são as eleições nos Estados Unidos e a disputa comercial entre o país e a China. O noticiário sobre vacinas contra o coronavírus também agrega riscos ao cenário externo.

Segundo Henrique Esteter, analista da Guide, todos estes fatores vão se traduzir em volatilidade e devem limitar a retomada do Ibovespa. Para ele, na melhor das hipóteses, o Ibovespa vai chegar a aos 110 mil pontos no final do ano. 

“Com tantas incertezas, não só a gente observa valorização aquém, como também com mais volatilidade. Vemos não só na bolsa, mas também em dólar”, acrescenta a economista Zeina.

Além disso, o gestor da BlueLine destaca que é necessário que o resto do mundo continue em processo de recuperação econômica e que se mantenham os estímulos de política fiscal e monetária que vêm sendo implementados nas diversas regiões enquanto for necessário.

IPOs chamam atenção

Mesmo com as limitações para o avanço da bolsa de valores, o mercado vive um momento de abertura de janela para ofertas de ações. A última grande onda de IPOs ocorreu em 2007.

Segundo os especialistas, a combinação de queda de juros com aumento do número de pessoas físicas na bolsa explica o movimento. “As empresas viram que os IPOs começaram a dar certo e agora está saindo um depois do outro”, afirma Gandelman.

Apesar disso, não era esperado um movimento como este, apenas alguns meses depois do tombo de março de 2020, quando a bolsa teve vários circuit breakers. “Ninguém poderia prever que isso iria acontecer”, diz o CEO da Planner.

Diversificação é a chave

Para o investidor navegar neste momento com segurança, os especialistas recomendam diversificar a carteira de ações. Desta forma, é possível evitar a exposição a setores específicos, compensando perdas em algumas empresas com ganhos em outras.

Uma dica é ter ações expostas a consumo doméstico e também empresas expostas ao dólar. Por exemplo, frigoríficos ou empresas de papel e celulose. Desta forma, o investiodor diversifica os riscos.

Outro segredo, segundo o porta-voz da Toro, é fazer aportes recorrentes na bolsa. Com isso, o investidor não fica exposto a momentos específicos de mercado. 

Vale lembrar que a renda variável deve representar uma fatia da carteira total de investimentos. Para saber qual é a composição ideal da carteira, o investidor deve fazer um teste para descobrir o seu perfil de investidor.

Também vale a pena buscar a orientação de especialistas antes de tomar suas decisões de investimentoss.

(Colaborou Naiana Oscar)

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