O que é melhor no longo prazo: Renda Fixa pré ou pós-fixada?

Os investidores conservadores estão em uma “sinuca de bico”. O CDI está no menor patamar da história, em 6,4% ao ano; juros nominais (prefixados) na lona (veja o gráfico abaixo); juros reais, medidos pelos títulos do tesouro IPCA, em torno de 4 a 5% ao ano (dependendo do prazo).

Denys Wiese
Denys Wiese, bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Santa Catarina (ESAG-UDESC) iniciou suas atividades profissionais no mercado financeiro em 2009 como operador de bolsa de valores. Já atuou como operador, assessor, professor e escritor, sempre em atividades ligadas às finanças. Entre 2014 e 2017, atuou também com consultoria tributária. Hoje é sócio fundador do site EuQueroInvestir, assessor de Investimentos da XP Investimentos (pelo AAI Indice Investimentos). Atua no segmento de alta renda, no aconselhamento e assessoramento em investimentos no mercado financeiro. Contato: denys.wiese@euqueroinvestir.com

Crédito: Crédito da imagem: Banco de Imagens EnvatoElements/By gargantiopa

Praticamente todos os investidores conservadores tiveram suas rentabilidades exprimidas drasticamente após o período eleitoral, fruto de um grande otimismo que paira no mercado.

O gráfico acima mostra os contratos futuros de DI para 2029: observem como os juros nominais estão em patamares baixos.

No curto prazo, as oportunidades estão “bem no preço”, sem “pechinchas” aparentes. No entanto, como a maioria dos investidores tem o horizonte de investimento de longo prazo (acima de três anos), tenho uma indagação a fazer: será que no longo prazo, sem considerar TIMING (oportunidades pontuais), é melhor carregar papéis prefixados ou pós-fixados?

Para responder essa pergunta, utilizarei como base um relatório divulgado pela área de Análise de Renda Fixa da XP Investimentos.

Segundo o relatório, nos últimos 10 anos, quem apostou em prefixados se deu bem em 70% das vezes.

Veja o gráfico abaixo:

Esse gráfico mostra os trimestres (de janeiro de 2008 a dezembro de 2017) em que os ativos prefixados venceram os pós-fixados (indicados pela área em cinza). Dentre todo esse prazo, os períodos que antecederam o impeachment da Dilma, entre 2013 e 2015 (período de alta dos juros e forte instabilidade), foram aqueles que deram derrota aos prefixados. No restante dos prazos, em períodos de calmaria e maior otimismo, os prefixados foram vitoriosos.

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Por que os ativos prefixados têm vantagem na maior parte do tempo, mas se dão mal em períodos de estresse?

Para explicar isso, existem dois pontos: o prêmio embutido no ativo pré; e o fato do ativo pós ser um juro à vista.

Vou explicar…

Prêmio de risco prefixado

Qual é o risco de você carregar um papel prefixado? Lembrem-se: o rendimento de um papel prefixado já é determinado no momento de compra. E, se carregarmos ele até o vencimento, esse rendimento não se altera por nada.

[box type=”info” align=”” class=”” width=””]Digamos que compramos um prefixado pagando 10% ao ano, de 4 anos. E digamos que na ocasião da compra, a inflação está em 5% ao ano. Logo, esse papel, a princípio, nos dá um juro real de 5% ao ano (10 – 5 = 5% aa, a grosso modo).[/box]

[box type=”success” align=”” class=”” width=””]Mas, se essa inflação vai a 8%, o que ocorre? O juro real (o aumento de poder de compra do capital) cairá para 2% ao ano (10 – 8 = 2% aa), a partir dali. E se a inflação ultrapassar os 10% ao ano? Passaremos a ter uma perda real de poder de compra.[/box]

O risco de você comprar um ativo prefixado é justamente o da inflação subir e comer o seu rendimento real. Por isso, esses papeis são mais indicados para períodos de calmaria (inflação baixa).

Bom, esse risco existe nos ativos pós-fixados?

Em parte sim, em parte não. Quando a inflação sobe, já sabemos que o Banco Central, através do Copom, aumentam os juros, justamente para conter a inflação. Logo, se a inflação subir, em um primeiro momento os ativos pós-fixados irão sofrer (dado o delay do Banco Central em agir), mas logo num segundo momento, teremos nosso rendimento aumentando, que compensará (pelo menos em partes) a perda com a alta da inflação.

Mas, definitivamente, os prefixados não possuem essa compensação. Por isso, o investidor e o mercado financeiro exigem um prêmio pelo carrego, ou seja, um prêmio adicional para comprar ativos prefixados. E é esse o prêmio adicional que o investidor terá no longo prazo, fazendo que no longo prazo os ativos prefixados superem os pós-fixados.

Crédito da imagem: Banco de Imagens EnvatoElements/By BrianAJackson

Prêmio pelo carrego

Pós-fixado é juro à vista

Quando analisamos a curva de juros de longo prazo, iremos constatar que os juros lá da frente (2025, 2030, por exemplo) estão mais altos que os juros mais próximos (2019, 2020, por exemplo).

O gráfico acima mostra: (1) que os juros com vencimentos mais longos são mais caros; (2) que com a proximidade das eleições, a curva de juros se deslocou para baixo, precificando a vitória de Bolsonaro.

Juros longos são mais caros que juros curtos, isso é o normal de qualquer economia normal. Esse fato acontece, porque os juros futuros são “expectativas de quanto estarão os juros em determinada data”. Esses juros são contratos negociados na bolsa (contratos de DI) e também embutem o risco pelo carrego (quem fecha um contrato de futuro de DI também tem o risco da sua operação ser drasticamente afetada pela alta da inflação). Logo, esses contratos também naturalmente terão um “premiozinho” adicional, acima da própria expectativa de quanto estará a Selic lá na frente.

Uma taxa prefixada é necessariamente uma taxa futura. Não existe taxa prefixada com vencimento hoje (taxa prefixada com vencimento em um dia é a própria Selic, que é uma taxa pós-fixada).

Se uma taxa prefixada é necessariamente uma taxa futura, necessariamente ela embute um “premio” pelo carrego. Pelo lado inverso, os papeis pos fixados são indexados aos juros à vista (por exemplo Selic e CDI, que são juros à vista); logo, pós-fixados não possuem “prêmios” adicionais. Aqui, portanto, reside o motivo de que prefixados rendem mais que pós-fixados, no longo prazo.

Crédito da imagem: Banco de Imagens EnvatoElements/By gargantiopa

E hoje, o que fazer?

Dado o menor CDI da história, com leve tendência de alta…

Dado os juros prefixados (nominais) nas mínimas, depois da eleição…

Me parece que podemos adotar a seguinte postura:

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  • Ao investidor de curto e médio prazo, dada a completa incerteza frente aos solavancos da inflação e das taxas prefixadas, determinadas, principalmente, pela aprovação ou não da reforma da Previdência, é prudente compormos um mix, de 50% prefixado ou 50% pós-fixado. Ou, se quiserem, dá pra adicionar o IPCA+ nessa salada, fazendo 1/3, 1/3, 1/3.
  • Ao investidor de longo prazo (com horizonte acima de 5 anos), dado o estudo realizado pela XP Investimentos, é legal montar uma carteira com vários vencimentos (digamos, um papel vencendo por ano) de prefixados. A ideia de pulverizar a carteira em vários prazos nos dá a agilidade necessária para aplicar o capital à taxas mais altas, caso o juro dispare, pelo menos em parte do capital.

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