O que é Crédito Privado ?

Lucas Laitano
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O que é crédito privado?

Imagine que uma empresa deseja se financiar. Digamos que ela queira aumentar a sua frota de carros/caminhões, investir em maquinários ou até compra de novas fábricas. Quando uma empresa encontra-se nessa situação, ela se vê diante de algumas opções, entre elas: pegar um empréstimo no banco ou emitir uma dívida no mercado de capitais.

 

Quando uma empresa decide fazer essa última operação, quem acaba levantando dinheiro para a empresa somos nós investidores. Ou seja, em prol de receber uma quantia financeira, a empresa acaba emitindo uma dívida, que nós investidores teremos lastro por meio de um papel (título).

 

Logo, quando os investidores estão analisando comprar um crédito privado, estamos dispostos a abrir mão do consumo imediato, para dar o nosso dinheiro em troca de um título, o qual vai fornecer uma remuneração e uma duration mais longa.

 

Quais seriam os riscos do crédito privado?

Sempre que emprestamos o nosso dinheiro a alguém, uma dúvida sempre permanece: será que eu vou receber o meu dinheiro de volta ?
Essa dúvida é, com toda razão, a mais frequente do mercado financeiro. Quando decidimos comprar um título do governo, também conhecido como “risco soberano”, a chance de um “calote” acaba sendo mitigada.

 

Quando optamos por uma emissão bancária, ficamos relativamente tranquilos, visto que existe o FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que até R$ 250.000,00 em um único banco (totalizando R$ 1.000.000,00 em 4 instituições diferentes), está presente para proteger o patrimônio do investidor.

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Porém, o que acontece quando um crédito privado (CP) dá errado? A resposta, apesar de ser simples, traz consequências severas: o investidor perde o seu dinheiro investido.

 

No caso de crédito privado, quando uma empresa declara falência, o investidor acaba arcando com o prejuízo. Logo, a pessoa ao querer aplicar em um CP deve atentar-se ao rating da empresa a qual o seu dinheiro está sendo investido, saúde financeira da mesma, e o motivo pelo qual ela busca crédito. Quando se tem um conhecimento sobre todas essas razões apresentadas, o risco de crédito acaba se tornando muito mais palpável e as surpresas não aparecem.

 

Existe uma máxima no mercado financeiro que diz: “não existe almoço grátis”. Logo, quando é encontrado um título que paga um valor muito acima da Selic do período pense e reflita: por que uma empresa estaria me pagando tanto para ter o meu dinheiro ? O quão arriscado é esse investimento ? Afinal, ter um título sendo marcado a zero, é uma incomodação que ninguém quer.

Qual é o momento econômico atual ?

Antes de entender o cenário atual, vamos relembrar como o Brasil vinha de 2015 para cá, pelo gráfico do PIB (produto interno bruto) mostrado abaixo:

Fonte: Banco Central

 O nosso PIB acumulado de 2015 até o final de 2018 estava em -4,68%. O trauma enfrentado pelo País nos anos de 2015 e 2016 foi tão forte que os efeitos são percebidos até hoje na economia.

 

Porém, o que mudou ? Conforme o gráfico da Capital Group, o Brasil está no começo de um ciclo de alta.

Fonte: Capital Group

 

E como esse cenário de começo de ciclo vai afetar o Brasil ? Pela estratégia que vem sendo utilizada pelo nosso Banco Central, juros baixos.

 

Fonte: Banco Central

Todavia, conforme o gráfico mostrado acima, em 2012 também houve um flerte com uma taxa de juros baixa, porém aquele começo de relacionamento não se manteve. O que nos faz acreditar ser possível manter o juros baixo por mais tempo ?

 

A resposta para essa pergunta, na verdade, é bem simples: 2012 a inflação era muito alta. Diferentemente do panorama atual, o nosso juros pode ser sustentado por dois motivos.

 

O primeiro é o fator conjuntural. Naquela época estávamos no meio do pior ciclo da economia. Hoje estamos longe dos gargalos de 2012. As empresas que sobreviveram a nossa última recessão, sobreviveram mais ágeis, enxutas e eficazes. Aquelas mesmas empresas ainda apresentam uma grande capacidade ociosa, deixando o cenário menos inflacionário.

 

O segundo fator é estrutural. Como a maioria dos emergentes, o Brasil apresenta diversos gargalos. As reformas, que começaram em 2016 (TLP, PEC do teto e trabalhista) deram fôlego para nossa economia. A tão falada reforma da previdência baixou significativamente o nosso CDS (Credit Default Swap), que nada mais é que um termo chique para um possível não cumprimento das dívidas do País. Lembrando que, um País com possibilidades reduzidas de calote tende a ganhar uma visão mais otimista de investidor estrangeiro (“afinal ninguém quer seu título marcado a zero”) e as reformas que estão por vir (administrativa, tributária e etc) ajudam o cenário estrutural do País, possibilitando um juros baixo por um período maior.

 

Ou seja, essa gigantesca mudança de paradigma e o juros baixo irão refletir em uma alavancagem financeira para as empresas. Logo, como diria João Braga, gestor da XP Asset Management: “Isso é muito poderoso em diversas óticas”. Pela ótica do crescimento de lucro da empresa é excelente, visto que quanto menor for a despesa financeira, maior é o lucro das empresas. Outra possibilidade é a possível alavancagem dessas empresas, por meio de crédito privado, para poderem investir mais e, por consequência, crescerem mais.

 

Para que possamos chegar mais perto do tema deste artigo, spread de crédito, vamos observar que os investimentos em renda fixa não rendem mais como rendiam em 2015. Graças ao movimento de corte na taxa básica de juros, existe um fluxo migratório de investimentos onde o investidor não precisava correr riscos para obter grandes retornos, vide renda fixa na época de juros exorbitantes, para ativos de maiores riscos.

Como funciona marcação a mercado ?

Agora que o contexto econômico atual já foi desmistificado, vamos adentrar a um ponto crucial sobre o spread de crédito, a marcação a mercado.

 

Para sair do âmbito teórico, vamos usar um exemplo do dia a dia. Digamos que você comprou um apartamento no valor de R$ 500.000,00 em um bairro da sua cidade. Normalmente, quando um investidor compra um imóvel ele está pensando na valorização do seu bem.

 

Porém, o que aconteceria se você, no dia posterior a compra do seu imóvel, chamasse o seu corretor imobiliário e perguntasse para ele quanto está valendo o apartamento caso você quisesse vendê-lo ?

 

Apesar da ideia de chamar diariamente um corretor de imóveis para saber o preço do seu imóvel possa parecer esdrúxula, e até sem sentido, visto que raramente compramos um ativo para vendê-lo um dia depois, é exatamente assim que funciona a marcação a mercado.

 

Agora imagine que 1 mês após a compra iniciasse uma obra ao lado. Caso naquele dia de início de obra você deseje vendê-lo, provavelmente haveria um decréscimo no preço, visto que o comprador teria que conviver durante alguns meses com barulhos de obra. Ou seja, quando você estivesse “cotando” o seu apartamento, haveria uma redução do preço de compra, ou seja, uma desvalorização.

 

Logo, nesse nosso cenário hipotético, se você chamasse o seu corretor de imóvel todos os dias, questionando-o sobre o quanto o seu apartamento está valendo naquele dia, haveria uma enorme flutuação de preço.

A marcação a mercado, de uma maneira grosseira, é justamente isso: todo dia útil você recebe a informação de quanto você iria receber, caso executasse a venda dos seus ativos financeiros naquele momento.

O que é spread de crédito ?

Agora que a marcação a mercado já foi desmistificado, vamos ao que realmente interessa, que afetou diversos investidores nos meses de Setembro, Outubro e Novembro de 2019, o spread de crédito.

 

Conforme comentado no último parágrafo da sessão “Qual é o momento econômico atual?”, o fluxo migratório da renda fixa para a renda variável, seja pela bolsa de valores, Fundos Imobiliários, Fundos Cambiais, Fundos Multimercado ou Fundos de ações, no último ano, foi enorme.

Fonte: B3

 

Ou seja, hoje em dia, nós temos o gigantesco número de mais de 1.5 milhões de investidores. Observe que o número de pessoas que permeiam o ambiente de renda variável quase triplicou de 2016 até 2019, saindo de 564.024 pessoas em 2016 para o patamar de 1.590.652 de CPF’s cadastrados em 2019.

 

Agora, a pergunta que fica é: desses mais de um milhão e meio de pessoas cadastradas na B3, quanto desse dinheiro veio da poupança/aportes mensais e quanto desse dinheiro migrou de um ativo para o outro ? Pois é, é justamente desse fluxo de um ativo para um novo que os créditos privados mais sofreram.

 

Imagine que você é um gestor de um fundo de renda fixa, mais especificamente em um fundo de renda fixa que investe em crédito privado. A sua estratégia para gerir o dinheiro dos cotistas é baseado em comprar uma porcentagem do patrimônio líquido do seu fundo em dívidas de empresas, de diferentes ratings, e deixar uma parte do seu dinheiro alocado em caixa.

 

Durante anos, o seu fundo era um dos mais procurados e as pessoas que guardavam o seu dinheiro ali geralmente deixavam por longos períodos. O fluxo de dinheiro que chegava no seu fundo era muito maior que o fluxo de saída.

 

No entanto, em um certo momento da economia, o número de cotistas dos fundos começaram cada vez a pedir mais e mais resgate. O que você faz ? Começa a usar o dinheiro que você deixou em caixa. Porém, é sempre importante manter a proporcionalidade do caixa do seu fundo, logo, para manter a antiga proporção, você terá que começar a se desfazer de ativos.

 

Observe que você está se desfazendo de ativos única e exclusivamente porque houve uma saída muito grande de dinheiro do seu fundo, e não porque o risco de crédito privado, ou seja, a chance de calote das empresas, aumentou. Muito pelo contrário, no cenário de juros baixos, as empresas estão muito mais saudáveis financeiramente do que estavam a alguns anos atrás.

 

Porém, olha o cenário em volta: você está vendendo um título de CP, ou seja, de renda fixa, em um momento que o “investimento do momento”, o que mais atrai número de pessoas, é a bolsa de valores ou simplesmente investir na economia real.

 

 

Lembrando daquela lei básica que é estudada em economia, lei da oferta e procura, o que acontece com o preço de algo, quando ninguém quer comprá-lo naquele momento ? Exato: o preço cai.

 

Imagine que você comprou um título de Preço Unitário (PU) R$ 1.000,00 e que depois de 1 ano ele valorizou R$ 50,00, ou seja, agora ele vale R$ 1.050,00. Nesse nosso exemplo, o título apresenta uma rentabilidade de 5% ao ano.

 

Todavia, quando o investidor for analisar comprar esse título de você, o trade off de deixar o dinheiro dele intangível por 1 ano, para ganhar 5%, não parece ser muito atrativo. Logo, ele decide não comprar.

 

Como você, gestor, precisa liquidar esse título hoje mesmo, visto que o prazo de resgate e liquidação do seu fundo são 0 e 1 dia, respectivamente, você melhora a oferta para o investidor.

 

Agora você está oferecendo para ele um título que vai remunerar não 5% ao ano, mas sim 10% ao ano. Porém, como você remunera alguém sendo que o emissor do título só vai pagar os 5% prometido ?

 

É nesse ponto que entra o spread de crédito. Em prol de remunerar o investidor 10% aa, sendo que o emissor só vai pagar 5% aa, uma parte do valor do seu título, que originalmente era R$ 1.000,00 será comido.

 

Logo, o intermediário (corretora, banco, etc) que vai comprar o título de você não irá mais comprá-lo pelo o seu Preço Unitário original, ou seja, R$ 1.000,00. Agora, para que ela consiga revendê-lo para um terceiro com uma rentabilidade de 10%, ela vai comprar esse título de você por R$ 950,00.

 

Porém, o que é feito com os R$ 50,00 que “sumiram” do seu preço original ? Esse valor é incorporado a taxa que o emissor se planejou a pagar, fazendo com que a pessoa que comprou o seu antigo título receba um título novo, no valor de R$ 1.000,00, mas que renda em 1 ano 100 reais, dando a rentabilidade de R$ 1.100,00, ou seja, 10% aa.

Momento de saída ou de compra?

Gostaria de começar essa parte do texto com um breve disclaimer: isso não é uma recomendação de compra ou venda de nenhum tipo de ativo, apenas uma visão do momento atual.

 

Para entender o que levaria uma pessoa a sair de um título de CP, vamos retomar ao começo desse texto: risco de crédito privado. Quando tal risco está em jogo, temos que ficar muito atentos a saúde financeira de uma empresa. Caso ela esteja em uma situação complicada, onde já é previsto um possível risco de calote, seria sábio repensarmos a permanência em tal ativo.

 

Contudo, já linkando com o parágrafo “contexto econômico atual”,  as empresas passam por uma fase excelente. Com a retomada do PIB, decréscimo na taxa básica de juros, desburocratização de setores e um possível fluxo de investimento em infraestrutura, as empresas enxergam um caminho favorável ao seu crescimento econômico.

 

Logo, de um lado nós temos um fluxo vendedor muito forte, querendo migrar da renda fixa para renda variável, com muitos desses investidores aceitando arcar com um deságio enorme, para que seus títulos fiquem atrativos para os investidores que queiram ingressar em crédito privado. Do outro lado, nós temos investidores pessoas físicas e jurídicas, fundos de investimentos e até bancos com caixa disponível, para que eles possam modelar a parte de renda fixa da sua carteira com títulos de crédito privado de empresas sadias, pagando taxas de empresas tidas como “Junk Bonds“.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conclusão

 

Dentro do mundo dos investidores existem diversos tipos: holders, day traders, swing traders, scalpers e um dos mais importantes e dolorosos de todos: Contrarians.

 

Afinal, o que significa ser um “Contrarian“? Apesar do nome ser auto explicativo, um investidor que adota esse método de investimento geralmente está na contramão do senso comum naquele momento.

 

Um investidor que é contraditório aos movimentos econômicos, geralmente são aqueles que compram algo em um momento não tão badalado e vendem ativos enquanto estão quentes nas notícias.

 

Ser um contrarian, apesar de doloroso, visto que são raras as pessoas que lidam bem em ir contra o “senso comum”, são pessoas que geralmente conseguem comprar ativos valiosos por um preço atrativo.

 

Investidores que conseguem enxergar oportunidades onde ninguém está olhando geralmente são as pessoas que compram com a maior margem de segurança.

 

Ser um contrarian nessa situação não está em dar um “all in” na renda fixa e sair de cabeça da renda variável, é conseguir manter a calma e conseguir ver ocasiões de entradas que ninguém mais notou, ou torce o nariz naquele momento.

 

O risco de crédito privado existe, e ele é um dos mais letais do mercado. Porém, não se desesperar ao ver uma marcação negativa no seu fundo de debêntures incentivadas, ou um decréscimo de rendimento naquele fundo de renda fixa de CP que até então era um “relógio” no quesito rendimento, é crucial para entender o mercado e não tomar decisões apressadas.

 

Fundos de crédito privado, ou créditos privados em sí, não são fontes livres de risco como muitos dizem por aí. Ter a sua reserva de emergência inteiramente nesse tipo de ativo muitas vezes pode causar certas dores de cabeça, contudo, ter uma parte da sua reserva exposto a esse risco é interessante quando se trata de uma questão de gestão de portfólio.

 

 


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