O papel do Banco Central na crise

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Agência Brasil

Qual deve ser o papel do Banco Central em épocas de crise, como a que se apresenta no momento, decorrente da pandemia de coronavírus?

Para o professor de Economia Josilmar Cordenonssi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, é preciso, antes de tudo, entender qual a função do Banco Central fora da crise.

“Sem crise, o Banco Central tem que manter o poder de compra da moeda e a liquidez do sistema, para que todos tenham confiança na moeda”, resume.

Com a crise, além destas funções, o Banco Central precisa também corrigir as disfunções do mercado. A mais falada no momento é o “empoçamento” de dinheiro pelo bancos, que ocorreu com a redução do compulsório.

O compulsório e o “empoçamento” de dinheiro

O compulsório é o dinheiro que os bancos têm, obrigatoriamente, que depositar junto ao Banco Central, a cada investimento ou empréstimo feito, a fim de garantir a segurança da operação.

Pelo compulsório, o dinheiro continua sendo do cliente e continua vinculado ao banco, mas os recursos não podem ser utilizados pela instituição financeira para realizar outras operações.

Com a redução desta taxa, a proposta do Banco Central era garantir mais liquidez aos bancos, na intenção de viabilizar mais empréstimos a pessoas físicas e jurídicas. Só que, diante dos riscos do atual cenário global, o efeito foi contrário.

“A concessão de crédito ficou emperrada, porque o risco está aumentando muito. Tanto emprestando para pessoas físicas quanto para empresas, os bancos correm muito risco de não receber. E isto é natural porque a atividade econômica caiu muito”, explica Cordenonssi.

Como “desempoçar” o dinheiro?

Atualmente, O Banco Central vem defendendo a compra direta de carteiras de crédito e títulos das empresas como forma de fazer com que recursos liberados pelo governo cheguem efetivamente às mãos dos empresários.

O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, já se manifestou descontente com o “empoçamento” dos recursos no sistema financeiro. Disse que os bancos não devem “segurar a grana” para minimizar seus riscos e sim fazer com que o dinheiro chegue a quem mais precisa.

Proposta de compra direta de carteiras e títulos

Uma alternativa seria a compra direta de carteiras e títulos. Com ela, o Banco Central poderia injetar recursos no mercado para ajudar as empresas a conseguirem dinheiro, sem precisar dos bancos como intermediários.

Para que isso aconteça, porém, é necessária a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), já em tramitação no Congresso.

Compra de títulos com prazos longos

Para Cordenonssi, a atuação deveria ser ainda mais ousada. “Na minha avaliação, o Banco Central foi precipitado. Quando ele liberou os compulsórios, ele ajudou os bancos. Mas não atingiu quem mais precisava. Achei meio frouxo”, avalia.

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Em sua opinião, uma opção seria o Banco Central comprar títulos de dívida pública e privada, como previsto no chamado “orçamento de guerra” que tramita no Congresso, mas comprando títulos com prazos longos.

“Esta estratégia vem sendo adotada nos Estados Unidos desde 2008 e muitos países emergentes vêm seguindo. Mas, aqui, por conta do nosso passado de inflação alta, muitos têm receio de adotar tal postura”, explica.

“No passado, o Tesouro emitia dívida e o único comprador era o Banco Central. Automaticamente, a compra do papel gerava inflação. E muitos críticos receiam que isto aconteça novamente”, explica.

Medo da inflação

Para Cordenonssi, o Brasil tem um sério desafio a vencer que é o “trauma da inflação”. E isto engessa as atuações do Banco Central.

“A inflação para este ano está a níveis jamais vistos. Uma projeção de 1%, quando a meta é 4%. Se a expectativa for essa, o Banco Central vai ter muito espaço para reduzir a taxa de juros e fazer compra em massa de títulos. Mas nossa característica é sempre de muita cautela. A gente vai chegar atrás dos outros países emergentes. Justamente por conta desse nosso trauma de inflação”, aposta.

Política monetária do Banco Central

Uma atuação que os bancos centrais de todo o mundo vêm tomando é a redução da taxa básica de juros. Europa, Japão e Estados Unidos já reduziram a zero ou até abaixo disto. Já o Brasil, o medo da inflação faz com que o Banco Central mantenha a taxa relativamente alta.

“Tivemos reduções e, analisando historicamente, nossa taxa hoje é baixa. Mas, comparativamente com outros países, nossa Selic é alta. E isto acontece, novamente, pelo medo da volta da inflação alta”, analisa.

Desafios do Banco Central pós-crise

Para Gustavo Bertotti Messem, economista da Messem Investimentos, o Banco Central vem atuando de “maneira cirúrgica” diante de um momento de forte ruptura.

Para ele, o banco está correto em sua posição de redução de juros e compulsórios. “O Banco Central trabalha forte na política monetária de corte de juros para incentivar o consumo e manter a atividade econômica”, avalia.

Ele salienta também que o Banco Central está sendo bastante condizente com a postura que vem adotando desde o ano passado.

“O Banco Central já vem com uma agenda muito positiva de redução de juros e de compulsório, redução do custo do cheque especial e de manutenção de contas. Tudo isto dentro de um projeto de inclusão financeira que é fundamental em um país emergente. Nós temos muitas pessoas à margem do sistema financeiro e precisamos incluí-las”, defende.

Para ele, o Banco Central, na crise, vem não apenas mantendo a proposta, como preparando o terreno para dar continuidade ao projeto no pós-crise.

Como corrigir o medo da inflação?

Passada a crise, o professor Cordenonssi defende que o Banco Central reveja algumas posições. A primeira, avalia, seria definir metas de inflação não para um ano, mas para dois anos ou mais.

Em segundo lugar, deveria passar a considerar o núcleo da inflação e não o índice cheio. “Nos Estados Unidos é assim. Você faz a meta em função do núcleo e isso ajuda muito a corrigir distorções pontuais”, diz.

O núcleo da inflação a que ele se refere descontaria as oscilações de preços de alimentos e energia (combustíveis).

“Pegue como exemplo o que aconteceu no final do ano passado. A inflação aumentou muito, por conta de uma demanda de carne da China. Foi momentâneo. Não acho que faça sentido você aumentar taxa de juros para coibir coisas pontuais assim. Se a meta da inflação se basear no núcleo, o preço sobe e desce por questões momentâneas, mas que não são relevantes do ponto de vista monetário”, avalia.

O que é o Banco Central do Brasil?

O Banco Central do Brasil, criado em 1964, em substituição da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc).

Suas principais atribuições são: executar a política financeira do governo; emitir papel-moeda; autorizar o funcionamento de instituições financeiras e fiscalizar suas operações de acordo com leis específicas; receber depósitos compulsórios e voluntários do sistema financeiro nacional; realizar operações de compra e venda de títulos públicos federais; custodiar e administrar as reservas nacionais em ouro e moedas estrangeiras; controlar o crédito e o capital estrangeiro; e representar o governo brasileiro perante os organismos financeiros internacionais.