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O mercado financeiro é inimigo do povo?

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Você provavelmente já ouviu ou leu em algum lugar que o mercado financeiro é um grande cassino, cujos participantes são, invariavelmente, especuladores ricos que lucram com a desgraça alheia.

Aquela história de “bom para o mercado, ruim para o povo”.

Nessa mesma toada, costuma-se dizer que o povo deve eleger representantes – presidentes, senadores, deputados, governadores e políticos em geral – que estejam à serviço do povo, e não do mercado. Entende-se que um político pró-mercado incorreria em medidas que beneficiassem este tal ente incorpóreo que tanto

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permeia o imaginário popular – o mercado financeiro -, muitas vezes às custas do bem-estar do povo.

Neste artigo, vamos investigar se realmente existe essa dicotomia entre o mercado financeiro e o povo. Vamos descobrir o papel que cada área do mercado financeiro desempenha na chamada “economia real”, e se o saldo que o mercado financeiro deixa na sociedade é positivo ou negativo.

O que é o mercado financeiro?

O mercado financeiro é um processo natural e intrínseco do sistema capitalista, de interação e transação de direitos de propriedade sobre ativos financeiros. É algo muito amplo, que se estende por diversas áreas da economia, relacionando poupança, crédito, investimento, e também aquela “pecaminosa” prática tão condenada – e tão mal compreendida pelos leigos: a especulação.

Dentre as diversas áreas do mercado financeiro, as mais conhecidas são o mercado de câmbio, o mercado de títulos públicos, o mercado de ações, o mercado de renda fixa privado, e o mercado de derivativos. Vamos investigar o funcionamento de cada um deles, para que servem, e qual o saldo que deixam na sociedade.

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Para que serve o mercado financeiro?

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O mercado de câmbio é aquele onde se negocia as trocas entre as diferentes moedas mundiais. É nele que se formam os preços dessas moedas, cujo preço mais conhecido por nós, brasileiros, é a popular taxa de câmbio, que é o preço de 1 dólar, em reais.

Este importante mercado é responsável por equilibrar os preços das transações internacionais com diferentes moedas, e acaba por regular as interações de todo o comércio internacional.

O mercado de títulos públicos é aquele no qual se transaciona a posse de títulos da dívida pública do país entre diferentes credores, além do próprio governo, através do Banco Central e do Tesouro Nacional. É através deste mercado que o governo consegue tomar dinheiro emprestado com a população, para financiar suas atividades que não puderem ser financiadas via arrecadação de impostos.

O mercado de ações é aquele onde se transaciona… ações! As ações são pequenos pedaços (cotas) de uma empresa, e os acionistas são sócios dela. As empresas abrem capital na Bolsa de Valores a fim de captar recursos para financiar suas expansões e investimentos.

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O mercado de renda fixa privado é bastante amplo, abrangendo desde a famigerada Caderneta de Poupança e os CDBs dos bancos, até as debêntures que as empresas emitem nos mercados de balcão. Nos primeiros casos, os bancos mantém estes produtos financeiros para captar dinheiro emprestado da população, para utilizá-lo na concessão de crédito. No segundo caso, as empresas emitem debêntures com a mesma finalidade com que emitem ações: captar recursos para financiar suas atividades, expansões e investimentos.

Já o mercado de derivativos é aquele onde, nas Bolsas de Valores, os produtores de commodities (produtos agrícolas, petróleo, metais e afins) conseguem transferir o risco intrínseco de seus negócios para os traders e especuladores, através de contratos de opções de compra e venda que trazem segurança e previsibilidade para suas atividades produtivas.

Com exceção do mercado de câmbio, todos os demais citados mantém uma relação direta com o crédito. Ou seja: são mercados onde os poupadores – as pessoas e fundos que possuem capital – investem seus recursos a fim de protegê-los da inflação e, de quebra, colher juros ou ganho de capital. Na outra ponta, estão os tomadores de crédito – governo, bancos, empreendedores e empresas -, que procuram recursos para financiar atividades diversas, inclusive as produtivas.

É graças à existência do mercado de títulos públicos – e dos investidores que atuam neste mercado – que o governo consegue recursos para financiar todas as suas atividades que não podem ser financiadas apenas com recursos da arrecadação tributária. Indo além, em períodos de déficit primário, como temos vivido nos últimos anos no Brasil, o governo só consegue honrar suas obrigações (inclua aí os benefícios previdenciários, Bolsa Família e demais gastos sociais) porque há investidores dispostos a emprestar seus recursos ao governo.

É graças à existência do mercado de ações que as médias e grandes empresas têm a opção de captar recursos no mercado – sem terem que recorrer ao mercado de crédito bancário – para financiarem expansões, e com isso, gerar empregos e aumento da produção.

É graças ao mercado de renda fixa privado que bancos conseguem captar recursos para concederem crédito para pessoas e empresas, financiando a atividade produtiva. É graças a ele também que, através da emissão de debêntures, empresas conseguem captar recursos dos investidores para financiar suas atividades e gerar crescimento econômico.

É graças ao mercado de derivativos que produtores agrícolas, pecuaristas, mineradoras, petroleiras e outras empresas de commodities conseguem realizar investimentos produtivos com maior segurança e previsibilidade diante das incertezas (climáticas e econômicas) inerentes ao setor, uma vez que os instrumentos derivativos permitem que o risco do negócio seja repassado aos agentes do mercado financeiro – especuladores e traders. Assim, a confiança desses empresários para investir garante maior estabilidade aos negócios, contribuindo para o desenvolvimento econômico sem maiores sustos.

Tá, mas e os especuladores?

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Os especuladores são, sem sombra de dúvida, os players mais mal compreendidos de todo o mercado financeiro. Uma vez que realizam majoritariamente negócios de curto prazo, visando ganho de capital sem qualquer compromisso com o desenvolvimento econômico do país – e sobretudo porque ganham dinheiro tanto nas épocas de bonança como nas épocas de crise -, acabam sendo vistos como parasitas, como aves de rapina, que ganham dinheiro com a desgraça alheia.
Mas não é nada disso! Em primeiro lugar, são eles que assumem o risco dos negócios de todos os setores de commodities e o risco cambial das empresas exportadoras.

Só por isso, já dá para perceber que o papel dos especuladores e traders é muito importante para garantir estabilidade na produção e comércio exterior.

Indo além, são eles que conferem a liquidez necessária para que os mercados sejam atrativos para os investidores e empresas. Sem a liquidez que os traders proporcionam, simplesmente não haveria investidores dispostos ao risco do mercado de ações, nem empresas dispostas a captar recursos no mercado. Isso significa que a oferta de crédito seria mais concentrada no mercado bancário, e portanto, menor.

Em Economia, sabemos que isso se traduz em preços mais altos para o crédito, o que é um fator limitante para o crescimento econômico.

Ainda bem que não é assim! Graças aos especuladores, os mercados possuem a liquidez necessária para funcionar corretamente, atraindo investidores e empresas, e cumprindo seu papel no desenvolvimento econômico.

Conclusão:

O mercado financeiro desempenha um papel central no crescimento e desenvolvimento econômico – e por conseguinte, no desenvolvimento do bem-estar social -, na medida em que proporciona o funcionamento de todo um sistema de coordenação entre poupança, crédito e investimento, além do comércio exterior.

O saldo que o mercado financeiro deixa na sociedade é absolutamente positivo, ao contrário do que acredita o imaginário popular. Até mesmo os tão mal vistos especuladores desempenham funções importantíssimas que, lá na ponta, afetarão positivamente até mesmo a vida de quem não tem nada a ver com o mercado financeiro, como o pequeno artesão que pretende tomar um empréstimo para comprar ferramentas, ou o padeiro que pretende comprar um forno maior, ou o… bem, você já entendeu.

Então, não: o mercado financeiro não é inimigo do povo. É precisamente o contrário disso!

 

Davi Piangers

Davi Piangers atua no mercado financeiro como trader independente, e é estudante de Economia e colaborador do portal Eu Quero Investir.
Contato: davi.piangers@euqueroinvestir.com

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